ENTRE CONSERVADORA E FUTURISTA, A ARQUITETURA DESENHA NA CHINA UMA INÉDITA PAISAGEM URBANA E PROPÕE NOVAS FORMAS DE RELACIONAR AS OBRAS DO HOMEM E DA NATUREZA

Por Sergio Maduro

Não é de hoje que a China tem a tradição de erguer estruturas imponentes. O país possui templos com mais de mil anos. Antes mesmo das fronteiras bem marcadas dos estados contemporâneos, já se erigia uma das sete maravilhas do mundo moderno, a Grande Muralha. Com cerca de 8 mil quilômetros de extensão, começou a ser construída em 215 a.C. e levou séculos para ser concluída.

Modernamente considerada a segunda maior economia do mundo, e em viés de alta, a China vem esculpindo sua pujança com uma paisagem arquitetônica bastante eclética. São edifícios, pontes, monumentos e uma infinidade de construções futuristas e experimentais que hoje criam um misto de preservação milenar e ficção científica; em resumo, um verdadeiro paraíso para arquitetos. O país não só é um dos lugares com o maior número de arranha-céus no mundo – vários deles superando os 300 metros de altura – como também guarda em seu território obras dos maiores arquitetos da atualidade.

CAMPO DE TESTES

Ao lado dos grandes arquitetos internacionais, como a anglo-iraquiana Zaha Hadid e o holandês Rem Koolhaas, vencedores do Prêmio Pritzker, o Nobel da arquitetura, começaram a se destacar também profissionais locais. Wang Shu, ele próprio o ganhador do Pritzker de 2012, foi o primeiro arquiteto chinês atuante em seu país natal a receber a honraria. Ma Yansong, que hoje tem seu próprio estúdio, também conquistou seu lugar ao sol.

O trabalho de Ma, baseado no conceito de cidade 山水shān shuǐ (montanha e água), propõe que grandes aglomerados urbanos deem especial atenção ao meio ambiente, inspirando-se na pintura tradicional chinesa, em que cenários naturais com montanhas, rios e cachoeiras são um tema costumeiro. De certa forma, a filosofia que embasa o seu trabalho procura não isolar as construções de um lado e o ambiente e a vida social de outro.

O conceito de integração homem-construções-natureza é antigo na cultura do país, mas é Ma que o atualiza na China do boom econômico, transportando-o das tradicionais casas-pátio para torres de enormes edifícios, na grande escala das megalópoles chinesas.

Do ponto de vista arquitetônico, em poucos anos, o país deixou de ser uma tela em branco e para ganhar uma paisagem futurista. Pequim tem especial destaque nesse cenário tanto por ser capital e núcleo cultural e político da China, quanto por sediar os Jogos Olímpicos de Verão de 2008 e os Jogos de Inverno de 2022.

Separamos 12 propostas – 6 em Pequim, 6 no restante da China –, para tentar oferecer um panorama da arquitetura do país no século 21.

A OUSADIA DE PEQUIM

GALAXY SOHO E WANGJING SOHO

Exemplo de arquitetura experimental, o projeto esteve a cargo do escritório de Zaha Hadid (1950–2016). Sediado em Londres, o estúdio também se incumbiu de muitas outras obras espalhadas pela China e pelo mundo.

Com linhas futuristas, próximas às dos filmes de ficção científica, o Galaxy Soho usa com generosidade as formas curvas. O resultado é um ambiente mais fluido, desprovido de arestas, quinas e cantos e onde as transições de ambientes se dão de forma suave, uma característica já presente nas casas-pátio da arquitetura tradicional. O Galaxy é constituído de quatro torres de formato oval inspiradas em naves espaciais, interligadas de forma a criar uma gigantesca casa-pátio chinesa em versão atualizada.

O Wangjing Soho, por sua vez, tem três torres de alturas diferentes (118, 127 e 200 metros, respectivamente), que remetem a montanhas entrelaçadas, fundindo arquitetura e paisagem dentro de uma proposta de integração com a área verde do entorno e de aproveitamento da iluminação natural.

CASA-PÁTIO

Construção tradicional existente há milênios, dotada de um pátio central que funciona como eixo de trânsito e de socialização de pessoas, além de espaço para atividades lúdicas, econômicas ou domésticas, como criação de animais ou cultivo de hortas e jardins. Ao redor do pátio, os aposentos se organizam segundo uma hierarquia específica e princípios auspiciosos. Preceitos espirituais, utilitários e de privacidade também orientam a arquitetura da casa-pátio chinesa.

SUNRISE KEMPINSKI HOTEL

Às margens do Lago Yanqi, a aproximadamente 60 km do centro de Pequim, um empreendimento se ergue em alusão ao sol nascente e à ascensão da China como potência no cenário mundial. O edifício possui uma entrada frontal em forma de boca de peixe, símbolo da prosperidade, e a lateral evoca o desenho de uma concha, representando a fortuna.

A disposição dos 10 mil painéis de vidro da fachada proporciona o reflexo simultâneo do céu, das montanhas e da água, que rodeiam a construção. Durante a noite, luzes de LED dão outra feição ao gigante de 97 metros de altura e 21 andares, desenhado por Shanghai Huadu Architect Design Co.

EDIFÍCIO-SEDE DA CCTV

Situado no distrito comercial de Pequim, sua forma inconfundível lhe rendeu o apelido de 裤衩kùchǎ, ou “bermudão”. A obra do arquiteto holandês Rem Koolhaas para a sede da CCTV, a televisão central chinesa, está entre os maiores edifícios do mundo. Um dos prodígios ocultos na execução do projeto é ter levado em conta que a região de Pequim é suscetível a terremotos, questão de segurança essencial para uma construção desse porte.

Concebida como parte da estrutura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2008, o prédio de 52 andares pode ser descrito como um monólito robótico e sinuoso, cujas torres inclinadas reverenciam a arquitetura moderna e abrigam tudo o que uma emissora de comunicação precisa: estúdios, teatros, escritórios etc.

ESTÁDIO NACIONAL

Quase imediatamente alcunhado “Ninho de Pássaro”, o Estádio Nacional de Pequim apresenta uma estrutura revestida por malha entrelaçada de vigas de aço, o que lhe dá a aparência de seu apelido. É o estádio olímpico construído para os Jogos de Verão de 2008, e onde se deram a abertura e o encerramento da competição. Tem capacidade para 80 mil espectadores (91 mil durante as Olimpíadas) e foi projetado pelos suíços Herzog e de Meuron, ganhadores do Prêmio Pritzker.

CENTRO NACIONAL DE ARTES PERFORMÁTICAS/GRANDE TEATRO NACIONAL

A forma elíptica, feita em titânio e vidro, com 213 metros de comprimento por 144 de largura e 46 de altura, foi erigida entre 2001 e 2007 para ser o Grande Teatro Nacional nas Olimpíadas de 2008. A construção parece um óvulo flutuante no espelho d’água que o circunda, fincando ali um marco moderno, em contraste com o entorno antigo da Cidade Proibida. Projeto do francês Paul Andreu, abriga salões para ópera, apresentações de teatro e exposições.

AEROPORTO INTERNACIONAL DAXING DE PEQUIM

A ser inaugurado neste ano, o projeto de Zaha Hadid Architects e colaboradores, iniciado em 2014, integra o aeroporto a trens de alta velocidade, metrô e vias expressas. O aeroporto está a cerca de 50 km do centro de Pequim e contará inicialmente com 4 pistas e um corpo central para acomodar 72 milhões de passageiros por ano.

Vista do alto, a construção tem o aspecto de uma estrela-do-mar, permitindo a entrada de muita luz natural por janelas de vidro. O formato encurta as distâncias de cada terminal até o corpo central, diminuindo os cansativos deslocamentos de que se queixam os passageiros em grandes aeroportos.

O FUTURO EM OUTRAS CIDADES

BIBLIOTECA BINHAI DE TIANJIN

Quem está em Pequim pode facilmente dar uma escapulida para conferir a curiosa e impressionante construção na cidade portuária de Tianjin, a apenas meia hora de viagem de trem-bala. Inaugurada em outubro de 2017, a biblioteca de 33.700 m2 é uma das maiores do mundo. Correu o mundo a imagem de suas estantes brancas e onduladas, repletas de livros – em parte meramente cenográficos – de cima a baixo. A fachada de vidro em formato oval representa um grande olho, o órgão da leitura.

O edifício é um complexo cultural com cinco planos, incluindo um arquivo, áreas de leitura, um auditório esférico, salas de reunião e espaços multimídia. Os degraus sinuosos de acesso aos andares superiores, além de permitirem excelente iluminação e circulação, também convidam a sentar e conversar.

ÓPERA DE HARBIN

Além de obra arquitetônica, trata-se de uma instalação artística. Debruçada às margens pantanosas do Rio Songhua, na Ilha Cultural de Harbin, este monumento futurista é um projeto do escritório de Ma Yansong. O edifício parece uma grande e curvilínea massa folhada de gelo, como uma formação natural esculpida pelo vento. A referência invernal faz sentido: localizada no nordeste da China, Harbin é uma cidade famosa pelas esculturas de neve e gelo durante os festivais de inverno.

A ideia é integrar a construção ao entorno, constituído de uma natureza onde a água está em toda parte e a neve frequenta as estações mais frias. Paredes de vidro inundam de luz o interior. O edifício possui duas salas teatrais com revestimento em madeira, simulando um único e grande tronco, com “ocos naturais”, onde estão os assentos e o palco.

HOTEL MORPHEUS DE MACAU

Mais um projeto do escritório de Zaha Hadid. São duas torres de mais de 100 metros de altura cada, ligadas na base e no topo. A estrutura é inspirada nas formas fluidas das esculturas chinesas em jade. Vista de fora, parece sustentada por um exoesqueleto, o que resulta em áreas internas livres de elementos estruturais que dividiriam os espaços. São 770 quartos, mais restaurantes assinados por Alain Ducasse e Pierre Hermé, piscina na cobertura, spa, salas de jogos e um jardim de inverno.

O projeto arquitetônico deixou vazios na estrutura que permitem a aproximação entre o interior do hotel e seu entorno. Os 12 elevadores de vidro reforçam a sensação de integração da parte interna com o exterior.

CÍRCULO DE GUANGZHOU

Projeto do italiano Joseph di Pasquale, é o edifício circular mais alto do mundo. Pode ser comparado a um “ideograma urbano”, ou a um logotipo que identifica de maneira icônica um edifício ao mesmo tempo histórico e moderno. Seu formato de donut, ao lado do Rio das Pérolas, na verdade remete a um conjunto de discos de jade duplos, antigo símbolo da realeza na dinastia que governou a região há 2 mil anos.

O reflexo da construção nas águas próximas projeta um “8”, número da sorte na tradição do feng shui. Sede de uma bolsa de valores para material plástico bruto, tem 33 andares, 85 mil m2 de área e um vão circular central de aproximadamente 47 metros de diâmetro.

SHERATON HUZHOU HOT SPRING RESORT

Huzhou é um conhecido destino turístico ao lado do Lago Tai, entre Xangai e Nanquim. Para conceber o desenho deste hotel – famoso também por sua forma de ferradura ou rosquinha –, Ma Yansong buscou inspiração nas pontes tradicionais retratadas nas antigas pinturas chinesas, uma homenagem à harmonia entre a obra humana e a da natureza. Huzhou é célebre pela caligrafia, pelas pinturas tradicionais e pelas florestas de bambu. A localização desta construção tão humana, à margem do lago, estimula a experiência ao mesmo tempo moderna e tão chinesa.

PONTE DE VIDRO SOBRE O CÂNION DE ZHANGJIAJIE

Trata-se da maior e mais longa ponte de vidro do mundo, destinada apenas a pedestres. Localizada no Cânion de Zhangjiajie, na província de Hunan, já é um clássico de visualizações na internet quando o assunto são construções inacreditáveis e pessoas com crises fóbicas por causa da grande altura. A estrutura transparente tem 430 metros de extensão, 6 metros de largura e fica a mais de 300 metros do solo.

ARQUITETOS CHINESES

WANG SHU

Primeiro cidadão chinês atuando profissionalmente no país a ganhar um Prêmio Pritzker. A originalidade de seu artesanato com a arquitetura está no fato de entalhar seus edifícios com formas modernas, usando materiais reciclados, recurso importante num país em rápido desenvolvimento. Com o uso de recicláveis, Wang procura relacionar o presente de suas construções ao passado do material de que são feitas, levando à reflexão sobre memórias e sobre as relações entre modernidade e tradição. Em 1997, fundou com a mulher, a também arquiteta Lu Wenyu, o Amateur Architecture Studio, em Hangzhou.

MA YANSONG

Suas ideias visionárias para o futuro dos núcleos urbanos se assentam na concepção de山水shan shui, que visa a equilibrar sociedade, cidades e meio ambiente por meio da arquitetura. Formado pelo Instituto de Engenharia Civil e Arquitetura de Pequim, onde leciona, e pós-graduado pela Universidade de Yale, trabalhou com profissionais de destaque, como Peter Eisenman e Zaha Hadid, a quem frequentemente é comparado, por causa das formas livres e curvilíneas de seus projetos. Em 2004, fundou seu próprio estúdio, a MAD Architects.