UM MERGULHO NO VERDE PROFUNDO DAS MONTANHAS DE ZHANGJIAJIE

Por Cesar Matiusso

Quantas vezes ouvimos dizer que um destino turístico se assemelha ao Paraíso? E quantas faces este deveria ter, de fato, para que pudesse ser encontrado em tantos e tão variados lugares? Quem se aventura pelas montanhas da província de Hunan, na China central, não se depara com uma ilha tropical banhada por águas quentes e cristalinas – maior clichê do imaginário paradisíaco –, e sim com uma paisagem mais etérea e profunda, que encontraria melhor descrição na palavra “céu”.
Como gigantescas estalagmites, grandes agulhas brotam de vales profundos e erguem-se para arranhar a abóbada celeste. Os mais de 3 mil pilares, muitos deles com centenas de metros de altura, são formados por sedimentos fossilizados esculpidos pela erosão dos últimos 2 milhões de anos. A floresta cresce exuberante, adensando o verde-escuro dos cimos, que parecem flutuar entre as nuvens.

DE OUTRO MUNDO

Wulingyuan, a região que abriga tantas paisagens arrebatadoras, tornou-se em 1992 um importante item chinês na lista de patrimônios da humanidade da UNESCO. Mas ganhou fama mundial em 2009, ao servir de inspiração para o cenário de Avatar, filme que se manteve por uma década como a maior bilheteria da história do cinema. Desde então, muitas atrações foram inauguradas, e a infraestrutura turística cresceu em torno de Zhangjiajie, que serve de base para os mais de 20 milhões de visitantes que a região recebe todos os anos. Com uma população que ultrapassa um milhão de habitantes, a cidade não pode ser considerada grande para os padrões chineses, e ainda que figure entre os destinos de maior interesse na China, possui raras ligações aéreas com o exterior. O caminho é usar trem ou avião a partir de cidades maiores. Os estrangeiros são minoria nas multidões em passagem pelos parques, e não há muitas opções para um laowai (estrangeiro) pouco ambientado: poucas pessoas falam inglês, a comida ocidental é incerta. Mas quanto menor a comodidade, maior a experiência.

As chuvas e os ventos levaram muitos milhões de anos para esculpir em arenito as formações geológicas encontradas nas reservas naturais de Wulingyuan. Enquanto picos, cavernas, desfiladeiros, pontes naturais, cachoeiras e verdadeiras torres de pedra nos ensinam sobre a eternidade, as florestas subtropicais e temperadas abrigam mais de 3 mil espécies vegetais e servem de hábitat a animais raros, como a salamandra gigante, o maior anfíbio do mundo, com até 2 metros de comprimento; o veado-d’água, pequeno cervo sem chifres e com dentes caninos superiores tão compridos que chegam a ultrapassar o maxilar inferior; além da pantera-nebulosa, o felino que, em proporção ao seu tamanho, tem os caninos mais longos dentre todos os carnívoros. Nessa paisagem onde nada é convencional, seres de aparência mitológica caminham sobre a terra.

Não são apenas as maravilhas naturais que tornam Wulingyuan um lugar único. Os arredores também guardam tesouros humanos, como alguns dos sítios arqueológicos mais antigos e importantes de toda a China, cujos achados remontam ao período neolítico e são peças do quebra-cabeça da história da humanidade. Até os dias de hoje, mais de 30 etnias chamam essa terra de lar, dentre as quais a tujia, a bai e a miao são as mais presentes, com algumas de suas tradições elevadas a patrimônio imaterial. Já Zhangjiajie, com pouco mais de 2,4 mil anos de história, pode ser considerada uma cidade recém-inaugurada quando a comparamos às formações geológicas de milhões de anos.

A CARA DA ETERNIDADE

O passeio a 天门山 tiānmén shān (Monte do Portão Celestial) dura um dia inteiro e pode começar na própria cidade de Zhangjiajie, a bordo de um teleférico que liga a zona urbana ao topo da montanha. É o maior percurso de teleférico do mundo, com mais de 7 km de extensão, mas ao mergulhar na floresta e passar pelas gigantescas formações na encosta, parece apenas um cordão de pisca-pisca com pequeninas lâmpadas balançando em torno de uma gigantesca árvore de natal. Os bondinhos sobem a 1.279 metros de altura com uma inclinação de até 38 graus, o que permite avistar, lá embaixo, a 通天大道 tōngtiān dàdào “Estrada para o Céu”, com suas 99 curvas em formato de “U” serpenteando pela escarpa como um longo dragão. O percurso terrestre, de 11 km, é um trajeto alternativo rumo ao topo. Sem apologia à automedicação, talvez convenha fazer uso de um remedinho antienjoo.

A estrada termina ao pé da 天梯 tiāntī “Escada para o Céu”, que tem 999 degraus e conduz a uma gigantesca abertura na rocha, o Portão Celestial que dá nome ao lugar. A parte de cima é uma ponte natural, suspensa a 131 metros. Parece uma passagem para outra dimensão, e quem ousaria negar? Em outro ponto, um dos picos, a mais de 1,4 mil metros de altura, é coroado pela estreita 盘龙崖玻璃栈道 pánlóng yá bōlí zhàndào “Passarela do Penhasco do Dragão Serpeante”, com 100 metros de comprimento e chão de vidro, pendurada no precipício como uma finíssima prateleira. Muitos visitantes, nas mais variadas reações de desespero ao enfrentar sua acrofobia à beira do abismo, tornam-se protagonistas de vídeos espalhados pelas redes sociais.

PARQUE NACIONAL

Nos limites desse enorme parque nacional estão contidos os cenários que inspiraram o filme Avatar, e que na ficção tomaram forma como o território imaginário da biosfera de Pandora. A realidade não fica muito atrás, porque os cumes parecem mesmo flutuar entre as nuvens, como é o caso do pilar de mais de mil metros de altura que ficou conhecido como “Monte Aleluia”. Um único ingresso dá acesso a todo o parque – que tem 480km² divididos em 6 regiões –, por 4 dias inteiros. Mesmo assim, é quase impossível visitar tudo. O transporte interno é feito por ônibus e trens, enquanto o acesso aos topos pode se dar por elevadores ou teleféricos, cobrados à parte.

Durante o verão, o calor torna mais difícil percorrer as trilhas que, em muitos casos, não são para iniciantes. Já no inverno, o clima adverso pode fechar atrações, por questões de segurança, em toda a região em Wulingyuan. Como resultado, as épocas mais propícias em termos meteorológicos, primavera e outono, são também as mais lotadas de turistas, com longas filas de espera e estrutura sobrecarregada. A dica é começar a jornada bem cedo, até mesmo porque é nas primeiras horas do dia que os mares de nuvens geram o efeito de “flutuação” nas montanhas de Zhangjiajie e Yuanjiajie. Até os viajantes experientes podem tirar muito proveito dos serviços de um guia que ajude na comunicação em chinês e nos trajetos dentro do parque.

O elevador Bailong é conhecido por ser o mais alto do mundo em uma área externa, sem dúvida uma obra de engenharia impressionante: a viagem leva pouco mais de um minuto, e atinge uma altura de 326 metros. Sua construção tornou possíveis visitas mais curtas ao parque, pois dá acesso a áreas que antes só poderiam ser alcançadas por estradas ou trilhas demoradas. Cada uma das 3 cabines panorâmicas pode transportar até 64 passageiros, o que significa que alguma sorte é necessária para se estar junto à face de vidro.

Uma forma bastante chinesa de se dizer “mundo” é 天下 tiānxià “sob o céu”. Essa expressão aparece no nome da 天下第一桥 tiānxià dìyī qiáo “primeira ponte do mundo”. Trata-se de uma ponte natural dentro do parque florestal que impressiona por ser a mais alta do planeta, a uma altura de 357 metros. Sua formação se deve à ação da erosão do vento e da água, até que a rocha calcária cedesse nesse ponto e formasse uma ponte de 25 metros de comprimento entre duas montanhas. A ponte não só está em local acessível como é de fato percorrida de ponta a ponta pelos visitantes.

Uma das recentes maravilhas da arquitetura chinesa, a ponte de vidro 云天渡 yúntiān dù “travessia das nuvens” foi inaugurada em 2016 e custou cerca de 74,5 milhões de dólares. O projeto do arquiteto israelense Haim Dotan tem 99 painéis de vidro que pavimentam a travessia de 430 metros sobre um desfiladeiro a 300 metros de altura. É a mais alta e mais extensa ponte desse tipo já construída. Apesar de receber 800 pessoas por vez, a atração está entre as mais disputadas, e as filas são grandes.

Famosa por sua beleza, a Caverna Huang Long é formada por um complexo de 13 galerias, 2 rios subterrâneos, 3 quedas d’água e 4 piscinas naturais que se estendem por 15 km e uma área de 48 hectares, a 8 km da vila de Wulingyuan. Com 15 mil m2, a maior de suas galerias na parte visitável guarda uma estalagmite de quase 20 metros de altura. Um minicruzeiro de dez minutos percorre as águas de um rio subterrâneo habitado por salamandras gigantes, e as formas das rochas iluminadas apenas complementam a experiência “extraterrena” da viagem como um todo.

Visitar um destino fora dos limites urbanos sempre significa percorrer mais quilômetros entre um ponto de interesse e outro, por isso ainda pode entrar na lista um relaxante cruzeiro pelo Lago Baofeng, que espelha os montes verde-esmeralda em volta e onde desaguam várias cachoeiras. Não à toa, o cenário foi escolhido por monges que pretendiam erguer um templo onde se procurasse praticar a contemplação. Um roteiro com mais espaço para a aventura se desenha a 20 km de Zhangjiajie, em um dia de rafting nas águas do Rio Maoyan, que oferece praias naturais e quedas d’água a quem procura um “contato imediato de terceiro grau” com a natureza.

Como não se apequenar diante dos penhascos e pináculos de Zhangjiajie? Depois de olhar para o abismo, ainda somos capazes de nos sentir maiores que uma formiga? Depois de pisar sobre essa terra, a ficção científica ainda poderá nos surpreender? Se, ao pé de uma montanha, ganhamos uma nova medida de mundo que evidencia nossa pequenez e devolve tudo a seu devido lugar, o que, de tudo o que possuímos e somos, continua imenso?