ALGUMAS PISTAS PARA ENTENDER POR QUE A FICÇÃO CIENTÍFICA CHINESA VOA NA VELOCIDADE DA LUZ

Por Ronaldo Bressane

A anedota já foi contada inúmeras vezes: nos idos dos anos 1970, uma comitiva de intelectuais franceses visitava Pequim. Papo vai, papo vem, perguntou-se a certo alto dignitário oriental sua opinião sobre a Revolução Francesa. Gravemente, o tal dignitário saiu-se com uma opinião diplomática: “Ainda é cedo para dizer”. À chinesa, também convém optar pela prudência ao avaliar se a ficção científica criada no país vai ultrapassar a fronteira da mera tendência ou moda literária – como o recente boom de literatura criminal escandinava – e passar a integrar estruturalmente o gênero ficcional mais poderoso do nosso tempo. No entanto, há vários sinais de que os autores chineses aterrissaram nesse universo ficcional para ficar.

PEGADAS NO SOLO DA SCI-FI

Em termos financeiros, assim como em outros mercados, a China já chegou bombando. Como se sabe, a ficção científica é hoje determinante na indústria mundial de cinema, até por conta de seu peso sobre o mercado dos videogames, que, movimentando 134 bilhões de dólares, ultrapassa em três vezes o do audiovisual. Ocorre que, dentro do território da ficção científica, existe uma lucrativa intersecção entre esses dois suportes – pense em todos os games nascidos da saga Star Wars, por exemplo. Uma indústria alavanca a outra, e a ficção científica é a ponte mais usada para passar de um a outro território.

Por falar em território, no chinês, há 1,4 bilhão de potenciais consumidores. Então começa a ficar mais fácil compreender a vitalidade que o gênero vem ganhando. Falado em mandarim e inglês, Terra à deriva, o maior blockbuster da ficção científica chinesa, já rendeu quase 700 milhões de dólares. Seu criador, Liu Cixin, pode se tornar o autor da adaptação mais cara da história do audiovisual. Sua obra mais conhecida e premiada, a trilogia Lembrança do passado da Terra, será adaptada para a TV em uma série de 24 episódios, com o nome O problema dos três corpos, título do primeiro dos três livros, que viraram best-sellers de leste a oeste. Na terra natal do autor, foram 2 milhões de exemplares vendidos. Nos EUA, a obra também foi um enorme sucesso nas livrarias, arrebatou o Prêmio Hugo e ainda ganhou elogios de Barack Obama e Mark Zuckerberg. A Amazon ofereceu 1 bilhão de dólares para adaptar a história, mas a Yoozoo, empresa chinesa de games online, revelou já ter comprado os direitos – e comenta-se que ainda há a adição do lançamento de video games de realidade virtual ao pacote.

Que é a economia chinesa a grande musculatura a mover o sucesso dessas produções, isso nós já sabemos. Mas e o cérebro? Por que a ficção científica que está sendo produzida no país caiu nas graças da cultura contemporânea global? Já que estamos buscando pistas, uma delas está nas palavras do próprio Liu Cixin: “A ficção científica abre nossa mente a tudo aquilo que podemos ver no futuro” A China começou agora a explorar esse potencial, com frescor e vitalidade próprios de algo que ainda é novo. Essas características, aliadas à vanguarda tecnológica que o país ocupa, sua relevância na economia do mundo todo e um número imenso de leitores/espectadores/consumidores em seu território, dão ainda mais força ao gênero. Suas histórias tendem a se concentrar na própria Terra – em uma escala nunca vista antes. E o futuro dessa terra que, segundo Liu, podemos vislumbrar graças à ficção científica, está irreversivelmente ligada ao futuro da China.

VIDAS INTELIGENTES

Em relação à linhagem, Liu Cixin é um autor clássico, “primo” de Isaac Asimov, Stanislaw Lem, Arthur C. Clarke e Michael Crichton – os mestres da chamada hard science fiction. Trata-se de uma vertente em que a trama se apoia em problemas científicos e questões lógicas, muito popular na primeira metade do século 20 por transformar em narrativas o fascínio em relação à aceleração das descobertas tecnológicas – computadores, corrida espacial, física nuclear. A hard science fiction se opõe à soft science fiction, menos interessada em tecnologia que em ciências humanas – sociologia, psicanálise, religião, filosofia. É o território de gênios como Ursula K. Le Guin, Philip K. Dick, Aldous Huxley e George Orwell.

A trilogia de Liu responde ao famoso paradoxo de Fermi, que indaga o motivo pelo qual só a Terra parece habitada por uma espécie inteligente, em uma galáxia onde bilhões de planetas têm condições para a vida. A resposta de Liu é simples e engenhosa: o oceano escuro do céu noturno está repleto de monstros, e civilizações que chamam a atenção para si são rapidamente engolidas. É a chamada Teoria da Floresta Negra: ao caminhar em uma floresta à noite, supõe-se, graças ao silêncio, que não há vida – e na verdade os animais estão quietos para se proteger de predadores.

No primeiro livro de Liu, O problema dos três corpos, as pessoas supõem que, mesmo que aconteça uma catástrofe, de algum modo ficarão bem. O livro fala sobre o aquecimento global sem mencioná-lo. A destruição do mundo natural integra a história – muitas personagens desejam realmente o apocalipse alienígena, pois poderá trazer fim à “tirania humana” sobre a natureza. Paranoia? Em junho de 2019, descobriu-se que cerca de 40% da Groenlândia já se encontra em pleno processo de derretimento – e mesmo o Acordo de Paris pode não dar conta de frear esse processo, negado, aliás, por alguns dos mais poderosos líderes políticos do planeta.

MONTANHAS DE LIXO

Porém, o fim do “Antropoceno” vem sendo exibido em slow motion por quase toda a ficção científica chinesa. Ao lado de Liu Cixin, o triunvirato da hard science fiction se completa com Chen Qiufan e Hao Jingfang. O primeiro ficou famoso com荒潮 Huāng cháo (Onda de lixo, em tradução direta), publicado em 2013, inspirado pela descoberta de uma vasta área de processamento de lixo eletrônico perto da cidade em que o autor cresceu: Chen viu um enorme campo de descartes em que os trabalhadores migrantes usam as mãos para quebrar dispositivos eletrônicos em pedaços, jogando-os no fogo para derreter os metais ou em piscinas de ácido para dissipar os elementos.

O lixo também é uma figura importante em um conto da mais famosa escritora chinesa, Hao Jingfang,  北京折叠  Běijīng zhédié (Pequim dobrável), incluído na coletânea Invisible Planets, de 2017, responsável por introduzir ao Ocidente uma penca de autores chineses do gênero. O texto também ganhou o Hugo. O protagonista de Hao é um dos milhões de trabalhadores de resíduos que ocupam a capital chinesa durante oito horas à noite. No resto do dia eles são sedados, seus edifícios se dobram no chão e a cidade se reorganiza – só para o usufruto dos mais abastados. O único contato que esses trabalhadores têm com os ricos é separando seu lixo. E aí surge a pergunta inevitável: isso já não estará acontecendo, ao menos em alguma medida?

A literatura de Hao Jingfang, de foco intimista e sutil crítica social, afasta-se da de seus colegas grandiloquentes tanto ao avançar na direção da soft science fiction quanto ao compartilhar semelhanças com uma vertente mais nova: o cyberpunk, subgênero praticado por gente como William Gibson, cultor das megalópoles asiáticas em livros como Neuromancer (a base da trilogia Matrix). Outra história contida em Invisible Planets é  沈黙都市 Shěnmò dūshì  (Cidade do silêncio), de Ma Boyong, que descreve um regime que monitora e controla tudo o que seus cidadãos escrevem ou até falam. O narrador é um programador solitário, que vê num monitor palavras serem misteriosamente apagadas da lista de conversas permitidas.

O FUTURO É HOJE

Como toda boa ficção científica, a chinesa também recorre à fantasia mais delirante para, na verdade, falar da vida real; imagina o futuro para discutir o presente. É como se lêssemos aquilo e sentíssemos que “sim, é possível. Ou melhor, já está acontecendo.” Outro exemplo. Em 1999, “E se as memórias pudessem ser transplantadas?” foi o tema do ensaio do Gaokao, o vestibular nacional chinês, realizado por 3 milhões de estudantes. Este é considerado o momento em que nasceu a moderna ficção científica da China, segundo seus próprios autores. Afinal, meses antes, a maior revista dedicada ao gênero no país, a Science Fiction World, havia explorado o mesmo tema. Essa passagem de um mote ficcional para a realidade imediata provocou um “clique” tanto em escritores quanto em leitores, motivando uma gigantesca popularização da sci-fi.

Existe uma explicação libertária para o sucesso mundial da ficção científica chinesa, sugerida por uma das autoras mais interessantes desse filão, a jovem física Xia Jia, de 35 anos. Em suas obras, Xia se move pelo terreno da weird fiction – mistura de gêneros em que é possível encontrar tanto a ficção científica de ciborgues quanto o terror contido em antigos mitos chineses sobre fantasmas. Para ela, a peculiaridade da ficção científica chinesa é borrar os limites entre ciência e magia, fantasma e máquina, Oriente e Ocidente. Diz Xia: “Em nossas histórias, os leitores podem atravessar fronteiras de seus mundos para imaginar sobre o que quiserem – não importa de onde eles venham e que língua falem”.