urbanização sustentável
APÓS A INDUSTRIALIZAÇÃO ACACHAPANTE, O PAÍS ESTÁ FAZENDO AS PAZES COM O MEIO AMBIENTE E SE FIRMANDO COMO UM EXEMPLO DE SUSTENTABILIDADE

Por Sergio Maduro

Pequim. Como em qualquer grande cidade chinesa, é tão fácil e rápido pedir a entrega de um cafezinho ou de um sorvete que, antes que o primeiro esfrie e o segundo derreta, você os terá em mãos, devidamente acompanhados de cupons de desconto que incentivam uma nova compra.

Você está no escritório, bem no alto de um elegante prédio comercial. De repente, bate aquela fome. Antes de comer, decide comprar um presente para um amigo que faz aniversário. Inclina-se na cadeira, desliza o dedo pela tela do celular, escolhe seu almoço no aplicativo de delivery e, em seguida, visita virtualmente uma rede varejista, seleciona o presente, suspira aliviado. Aí é só esperar alguns minutos pela entrega, um serviço ágil e eficiente que hoje é a cara da China.

Melhor que qualquer outro ser na face da Terra, um habitante das modernas cidades chinesas logo percebe o que representa para o planeta e para sua própria existência o subproduto evidente de todas essas tecnologias e conveniências. Embalando alimentos e encomendas, montanhas de sacolas e caixas vão amontoar-se por todos os cantos da cidade.

O descarte desses e de outros materiais tornou-se um problema que inunda o país. Plástico, papel, isopor. Cádmio, mercúrio, chumbo, níquel e berílio. “E-lixo”, o lixo eletrônico. Como se livrar de tudo isso e evitar contaminação e risco de distúrbios neurológicos e doenças como o câncer? O que fazer para que o cidadão das principais cidades do país não fique com os pulmões tão prejudicados quanto o de um fumante compulsivo, só por respirar o primeiro ar da manhã? Eis o tipo de problema com o qual a segunda maior economia do mundo tem de lidar. E não tem como deixar para depois.

SUJOU, LIMPOU

Tudo aconteceu muito rápido. O PIB da China se multiplicou assombrosamente, a população urbanizou-se, enriqueceu, e o país virou uma potência econômica mundial. Shenzhen, perto da fronteira com Hong Kong, era uma pacata vila de pescadores nos anos 1980. Hoje, produz a esmagadora maioria dos eletrônicos comercializados no mundo.

Guiyu, na mesma província de Guangdong, já foi, por sua vez, uma espécie de “capital do e-lixo”. Sim, num passado bastante recente, a China foi a maior compradora mundial de lixo eletrônico para reciclagem, e Guiyu era o destino de boa parte dele. Para resolver a escassez de matéria-prima, o país consumia mais da metade dos resíduos comercializáveis no mundo, equivalente à bagatela de  uns 45 milhões de toneladas. Só em 2017, o Brasil vendeu para a China cerca de 40 mil toneladas em restos recicláveis de papel, cobre, alumínio e aço.

A partir de 2018, a própria China já havia se industrializado a ponto de produzir lixo reciclável suficiente para não mais precisar comprar de outros países, passando a reutilizar somente o seu. Esse fato causou um problema em escala mundial para os fornecedores, que acabaram tendo de dar outro destino aos próprios resíduos, ou, em outras palavras, “limpar a própria sujeira”. Os chineses usaram a criatividade e diversificaram: lançaram mão até de formas inusitadas de bioprocessamento, utilizando insetos para decompor restos de cozinha, além de adotar novas posturas, como as do movimento lixo-zero. Há dois anos, a China deixou de ser o aterro do mundo e vem procurando adotar um protocolo que podemos traduzir didaticamente por “5 erres”, uma síntese de princípios sustentáveis, todos eles compreensíveis a partir de significados iniciados com a letra “r”: repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar. A China busca se transformar, portanto, numa complexa sociedade cujo mandamento será “descartar o mínimo e reciclar ao máximo”.

Para poder respirar melhor e viver num ambiente mais agradável, parte da população chinesa começa espontaneamente a pensar uma nova ética de vida: alguns retornam de forma voluntária às aldeias, a fim de promover a formação de cooperativas e o nascimento de fazendas ecológicas; outros resolvem simplesmente comprar menos, doar, consertar e reaproveitar objetos, evitar embalagens não biodegradáveis e compras por impulso, levar consigo seu próprio copo, seu guardanapo, seu talher, sua garrafa de água e sua sacola de compras.

e-commerce no dia a dia
EM OUTROS TERMOS

Na tela de seu celular, um chinês tem hoje, em tempo real, o monitoramento do ar que respira. A consciência comunitária, aliada a instrumentos institucionais mais eficazes, já permite que qualquer cidadão fiscalize os índices de poluição e quem a produz.

Em colaboração com agências estatais, surgiu um incipiente ativismo ambientalista que ajudou a influenciar políticas públicas e estimular a transparência de dados referentes aos principais poluentes que causam os problemas mais comuns de saúde. Além disso, neste momento, junto à ONU, a China está comprometida com medidas preventivas contra o aquecimento global. Essas transformações sinalizam a modernização da economia chinesa em termos mais sustentáveis e a atuação da sociedade civil como agente político mais consciente e influente. A expressão 民间社会 mínjiān shèhuì é uma das mais usadas em chinês para aludir ao conceito de “sociedade civil”. O termo significa, em tradução livre, “sociedade do povo e seu espaço”, ou seja, uma sociedade não diretamente associada ao governo. Isso não quer dizer, necessariamente, que os grupos populares ajam de forma independente do Estado mas, sim, que são por ele guiados e supervisionados para representar o interesse público. No socialismo à chinesa, essas instituições populares acabam constituindo os braços que realmente colocam as pessoas em movimento e as ideias, em prática.

A ARTE CRITICA O CONSUMO

A arte chinesa contemporânea não ficou indiferente. Ao refletir sobre o problema e apontar soluções, artistas plásticos e escritores absorvem e criticam a produção de lixo em massa. Seus temas frequentemente giram em torno das consequências sociais e ambientais dos resíduos. Conscientes de que eles próprios são subprodutos de uma sociedade que se urbanizou e industrializou rapidamente, artistas refletem sobre poluição, consumismo e ocupação do espaço público. Usando materiais descartados como matéria-prima ou inspiração, suas obras funcionam, conceitualmente, como intervenções artísticas e, materialmente, como resíduos que invadem o ambiente social, e chamam a atenção para si como excessos virtualmente indecomponíveis.

lixo eletrônico
REPENSAR, RECUSAR, REDUZIR, REUTILIZAR, RECICLAR

Novos estilos de vida, menos focados no consumo fácil e automático proporcionado pela tecnologia e pela riqueza, apontam para sociedades mais sustentáveis. A proposta do lixo-zero visa a aproveitar o máximo com o menor consumo possível, evitando resíduos. Conheça melhor essa nova maneira “à chinesa” de estar no mundo:

BIOPROCESSAMENTO CASCA-GROSSA

Desde quando os rebanhos suínos chineses foram acometidos por uma peste, ficou proibido dar-lhes resíduos alimentares humanos para comer. Em Jinan, capital da província de Shandong, uma solução bastante incomum foi testada para dar outro destino aos restos de comida: baratas.

Grandes quantidades do inseto são alimentadas diariamente com toneladas de lixo orgânico proveniente de cozinhas, restaurantes e refeitórios. As baratas estão encarregadas de comer os restos ou, melhor dizendo, de processar biotecnologicamente parte das sobras de comida dos milhões de habitantes da cidade. Criações comerciais de baratas ainda podem ser úteis na indústria farmacêutica, estética e de ração animal.

A CIDADE CHINESA DO FUTURO

O projeto de cidade autossustentável, encomendado em 2017 a um arquiteto italiano, parece um estúdio de ficção científica. Stefano Boeri, que já vinha utilizando os conceitos de “arquitetura verde” e de “floresta vertical”, os quais aplicara na cinzenta Milão, planeja criar na região autônoma de Guangxi um complexo urbano que funciona como oásis e exemplo de resistência à poluição e à degradação ambiental.

Em cada andar, os prédios contam com abundante área verde suspensa, destinada a ajudar a compensar as emissões de carbono. A cidade é concebida para 30 mil pessoas, 40 mil árvores e pretende transformar os arredores de Liuzhou, ao longo do rio Liujiang, na primeira “cidade-floresta” da China e do mundo.

Projeto de Stefano Boeri para cidade autossustentável em Guanxi
AS PONTES DESCONEXAS DE XING DANWEN

Xing Danwen é uma artista de Xi’an, fascinada por temas como a globalização e as questões ambientais propostas pelo desenvolvimento. Suas obras remetem a labirintos de conectores que nada conectam e a esqueletos eletrônicos simulando corpos sem vida abandonados pelo progresso. Ela trabalha com emaranhados de circuitos, cabos, chips e componentes amontoados para reciclagem. Na série “disCONNEXION”, seu olhar original retrata a realidade fragmentária e retorcida do lixo industrial.

Em outro trabalho chamado “Duplication”, Xing decompõe a linha de montagem industrial num “novelo de desmontagem” de objetos biologicamente indecomponíveis. Amontoados de cabeças, braços e pernas de bonecas ocupam, na obra, o lugar de fragmentos que fazem referência à produção de fantasias em escala industrial, captando a vida precária do brinquedo humanoide que vai sendo exaurida entre a produção e o descarte, como um rio de resíduos que corta a sociedade para, ao fim, sob o peso do acúmulo, empoçar numa curva qualquer do caminho.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE XU BING

Artista plástico nascido em Chongqing, Xu Bing concebeu em 2010 o “Projeto Fênix”. Trata-se de duas esculturas da mitológica ave fênix com dimensões beirando os 30 metros. A ideia de leveza da ave que se recria a partir de cinzas contrasta com o material de que é feita: tubos, pneus, chaves de fenda, sucata, pás, capacetes etc. À noite, luzes de LED fazem a escultura cintilar na escuridão, aludindo a outro ser fantástico da cultura chinesa — o dragão.

Feniz de sucata de Xu Bing
CHEN QIUFAN ENTRE A REALIDADE E A FICÇÃO

O escritor de ficção científica Chen Qiufan escreve livros em que retrata a geração nascida na era industrial chinesa, hábil em lidar com tecnologia e preocupada com questões ambientais. Seu romance mais famoso, Waste Tide, mostra pessoas vivendo conflitos de classe numa ilha destinada ao descarte de produtos eletrônicos. O enredo acompanha trabalhadores que recolhem detritos tóxicos e crianças que brincam com membros biônicos descartados, vivendo numa atmosfera sufocante, até que alguém é infectado por um vírus.