Trecho da Muralha da China, Chenjiapu, Hebei
ALIANDO HOSPITALIDADE E PRESERVAÇÃO AMBIENTAL, A CHINA PROFUNDA SE TRANSFORMA

Por Janaína Camara da Silveira

Um pedaço da Grande Muralha praticamente inexplorado, sem turistas nem cobrança de ingresso em meio a montanhas e natureza exuberante: assim é o trecho em Chenjiapu, perto de Pequim, mas já no território da província de Hebei. Por ali, vivem cerca de 200 famílias, a maioria de idosos cujos filhos migraram para as cidades maiores e os visitam nos finais de semana e feriados. Pode parecer inóspito ou triste, mas não se trata disso. É um cantinho a cerca de duas horas da capital chinesa – de carro ou trem –, onde se pode aproveitar o contato com o verde que cerca parte de uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno.

O trecho, que leva o nome da família Chen, dona de uma hospedaria, foi reconstruído em meados do século 16. Dada a pouca oferta de transporte público, é pouco visitado, mas, ainda que não seja dos pontos turísticos mais lotados, é um exemplo concreto de como o turismo rural ganha cada vez mais adeptos na China, levando novas fontes de renda às famílias locais.

Em 2011, na primeira vez que fui a Chenjiapu, o trem partia da Estação Norte de Pequim, bem ao lado do metrô Xizhimen, na linha 2, e chegava cerca de uma hora depois à estação Yanqing, na vila de mesmo nome. Fica pouco depois de Badaling, o trecho renovado da Grande Muralha e que mais atrai visitantes. Ainda hoje, para percorrer os cerca de 30 quilômetros restantes para se chegar à casa da família Chen, é preciso contratar um motorista. Só a estação de partida mudou: agora, o melhor é ir até o metrô Huoying, na linha 13, e de lá embarcar no trem S2.

Há quase 10 anos, a estrada de chão batido entre a estação Yanqing e a hospedaria era ladeada por plantações de maçã, num cenário bucólico que só aumentava a vontade de chegar logo à casa dos Chen. Ali, Lao Chen, como é chamado o proprietário – “Lao” é um tratamento de cortesia reservado aos mais velhos –, esperava com um sorriso no rosto e muita disposição para caminhar e conversar, mas só em mandarim. Na maior parte das vezes, é ele quem guia os grupos nos dois caminhos possíveis sobre a Muralha: um trecho mais curto, de quatro horas, ou outro mais longo, de seis. Se o grupo for só de estrangeiros que não falem o mandarim, muitas vezes o filho mais novo, Chen Ming, lidera a conversa e o passeio, pois é o único da família que fala inglês. Mas ele só pode ajudar nos finais de semana, o resto do tempo passa em Pequim, onde trabalha.

Hoje o caminho entre a estação e a casa, uma construção típica chinesa construída em torno de um pátio que faz as vezes de horta, é todo pavimentado. Em ambos os lados, condomínios de prédios baixos, com no máximo seis andares e muitos restaurantes e mercadinhos no térreo, abrigam casas de campo de famílias – ou, melhor dizendo, apartamentos. Estes, claro, acolhem novos clientes para os passeios guiados da família Chen ou para uma refeição por ali, em que tudo é orgânico e preparado na hora. Pelo WeChat, o principal aplicativo de comunicação na China, e com Chen Ming, as reservas podem ser feitas de maneira simples, em inglês. Afinal, a conectividade digital também impulsiona negócios. Quem quiser ainda pode dormir lá, aproveitando a paz de uma casa tradicional chinesa. Na saída, pode comprar mel, produzido ali mesmo.

Paisagem rural na China
ÁGUAS LIMPAS, MONTES VERDES

Os Chen são só um entre os milhares de exemplos de prosperidade advinda do turismo, uma das principais ferramentas para o aumento da renda no campo. Segundo dados oficiais, entre 17% e 20% das famílias que saíram da linha da pobreza no país atuam no setor turístico, seja com hospedagem, alimentação ou venda de outros produtos e serviços.

O turismo local é o principal motor nesse processo. O governo entra com infraestrutura e instalações de serviços – como estações de trem e sanitários públicos –, o que permite às localidades explorar o potencial turístico. Só em 2019, a atividade contribuiu com US$ 1,66 trilhão para o Produto Interno Bruto (PIB) chinês, ou 11,05% do total, segundo o ministério de Cultura e Turismo, e gerou 79,87 milhões de empregos diretos ou indiretos. Isso significa que o setor empregou naquele ano 10,31% dos trabalhadores chineses. Na vila de Yejia, Região Autônoma Hui de Ningxia, por exemplo, o agroturismo envolveu 130 famílias e criou mais de 1,1 mil empregos.

Plantação verde na China, Zhejiang

Pude ver essa realidade no interior de Zhejiang, a província vizinha a Xangai e cuja capital, Hangzhou, é famosa pelo Lago Oeste e por ser a terra do Alibaba. Estive na Vila Yu, ou Yucun, onde, há 15 anos, Xi Jinping, então secretário do Comitê Provincial do Partido Comunista da China, lançou o conceito de “paisagem verde” – ou 绿水青山lǜ shuǐ qīng shān “águas limpas, montes verdes” – que, em resumo, visa a garantir o progresso econômico aliado à proteção ambiental.

O lugar, a 80 km da capital provincial, enriqueceu-se com a exploração de calcário e produção de cimento desde a década de 1980. Mas o custo foi alto para a qualidade do ar e a saúde dos moradores. Quando cheguei ali, em 2018, não havia nenhum sinal da poeira de outrora. Tudo era verde e com muito bambu, o principal atrativo local. Um enorme parque-bambuzal recebia visitantes de diversas localidades. Para os aldeões, esse novo modelo econômico trazia negócios, trabalho e, logo, a receita. Mesmo sem as antigas fábricas, os moradores ganhavam sete vezes mais do que duas décadas atrás.

Sem deixar de lado a proteção ao meio ambiente, Zhejiang lidera o ranking chinês de desenvolvimento de turismo rural e, em comparação a outras unidades provinciais, tem a maior renda de camponeses e a menor disparidade de renda entre as populações urbana e rural. Vale ressaltar que a população rural de Zhejiang soma 30% – 10 pontos percentuais abaixo da média nacional. Dentro dessa política, Zhejiang erradicou a miséria em 2015, cinco anos antes do prazo estipulado para atingir esse objetivo nacionalmente.

grãos em zona rural da China, Zhejiang
O EXEMPLO DE ZHEJIANG

Zhejiang é considerada modelo nacional no desenvolvimento coordenado entre áreas urbanas e rurais. O Programa de Revitalização Verde do campo, lançado em 2003 pelo governo local, ganhou, já em 2018, o prêmio “Campeões da Terra” da Organização das Nações Unidas (ONU). Nesse projeto, o turismo é peça importante nas localidades rurais, que passaram primeiro por renovações, com novos serviços de coleta de lixo, saneamento, desassoreamento de rios, melhorias das rodovias e ações ambientais, entre outras, além da construção de infraestrutura e da remodelação de pontos turísticos.

Zhejiang concentrou esforços também na preservação ambiental. Moradores das áreas rurais receberam apoio para manter o ambiente limpo e ecologicamente correto. Com isso, vieram também novas formas de manejo de rebanhos e aves, fertilizantes e pesticidas para preservar a saúde da população e os padrões sanitários. A província integrou diferentes indústrias e produtos e formou uma nova dinâmica de desenvolvimento industrial com a fusão de tecnologia e economia, cultura e estilo de vida, manufatura e turismo. Em paralelo, combinou-se também a proteção cultural à histórica, com a promoção de alternativas de lazer para visitantes e melhores oportunidades de emprego para os moradores.

Políticas como essa não só impulsionaram o PIB e melhoraram a estrutura econômica, como também atraíram mais jovens de volta a seus locais de origem para abrir negócios, trazendo das cidades novos conhecimentos e habilidades, além de visão e experiência em operações ditadas pelas regras de mercado. Shen Jie deixou seu trabalho na Academia Chinesa de Ciências em julho de 2016 para iniciar sua própria empresa na sua aldeia natal em Huzhou. O uso da tecnologia da internet das coisas na criação de peixes trouxe um faturamento anual de US$ 7,6 milhões e aumentou em 10% a produtividade dos aquicultores atendidos. Estatísticas indicam que, entre os mais de 5 mil empreendedores rurais da província de Zhejiang no final de 2019, mais de 80% estavam na faixa etária de 20 a 40 anos e, pelo menos, 40% têm um diploma de bacharelado ou superior. As empresas por eles criadas cobrem toda a cadeia produtiva da agricultura, desde o desenvolvimento de novos cultivares até a gestão de novos modelos de negócios, passando pela aplicação de tecnologias pioneiras, e envolvem formas variadas de atividades como comércio eletrônico, administração da cadeia de suprimentos e turismo rural.

Outro exemplo é Qingyanliu, conhecida como “a primeira aldeia do e-commerce da China”. Entre 2007 e 2008, a localidade recebeu investimentos públicos em infraestrutura e apostou no crescimento do comércio eletrônico: fibra ótica em todas as casas, sinal de wi-fi nas ruas e integração de recursos da rede de informação. A presença de 23 empresas de entrega conecta a aldeia com a rede nacional de logística e barateia de maneira significativa os custos com uma concorrência saudável. Além disso, várias instituições financeiras oferecem linhas de crédito e seguros específicos para as pequenas e médias empresas. As lojas on-line neste vilarejo de 1800 moradores cresceram de 100 em 2008 para mais de 4.000 em 2019, enquanto o faturamento aumentou de US$ 30 milhões para US$ 915 bilhões no mesmo período.

Turismo rural na China
TURISMO VERMELHO

O turismo rural como motor econômico capaz de tirar trabalhadores da pobreza é realidade também em locais históricos, como Shaoshan, a vila onde nasceu Mao Zedong. Só em 2019 foram mais de 25 milhões de visitas à cidade, distante cerca de uma hora de Changsha, a capital provincial de Hunan. A casa onde Mao nasceu é o principal ponto turístico – ainda que o governo liste mais de 80 atrações por ali. É feita de adobe e tem vários cômodos, suficientes para acomodar uma família numerosa. A fama que transformou a cidade em ponto de visitação de turistas chineses e estrangeiros acabou por beneficiar toda a região.
Segundo o governo local, cerca de 30% dos trabalhadores de Shaoshan estão envolvidos com algum serviço ligado ao turismo, da logística e da tradução à venda de suvenires. A gastronomia tampouco fica de fora dessa conta, e se você quiser experimentar a comida local, saiba que é melhor preparar as papilas gustativas e o espírito para algo bem apimentado, como manda a tradição de Hunan. Se faltar coragem, vale treinar o chinês na hora de pedir seu prato e dizer 不要辣 bù yào là “sem pimenta”. Ah, mais uma dica: todo mundo serve por ali o prato preferido de Mao, um cozido de carne de porco chamado 红烧肉 hóng shāo ròu, bem mais amigável para quem não é amante de pimenta.