UMA CONVERSA COM O ESCRITOR LIU CIXIN NA FEIRA DO LIVRO DE FRANKFURT

Transcrição: Lüyan Wanqian

Quem visitou a Feira de Frankfurt no ano passado teve a oportunidade de se encontrar com um dos maiores expoentes da nova ficção científica chinesa, o escritor Liu Cixin.

Discreto, apesar dos holofotes que sua literatura vem atraindo, Liu esteve pela primeira vez na Feira para o lançamento da tradução alemã de O Problema dos três corpos 2: a floresta sombria, o segundo livro da trilogia.

Em uma mesa-redonda organizada pelo Instituto Confúcio e pela editora Heyne Verlag, Liu conversou com leitores e leu trechos de sua obra, acompanhado do ator Mark Bremer, que dá voz ao áudio-livro em alemão. O encontro, divulgado na imprensa, alvoroçou os fãs nas redes sociais.

“Li O problema dos três corpos por indicação de um amigo. Achei muito diferente de outras obras do gênero. Gostei muito”, diz um leitor alemão. “Além de ter um enredo fantástico, o livro diz muito dos chineses, seu pensamento, sua história e até da visão que têm da cultura ocidental. Vai muito além da pura ficção científica. Por isso é tão interessante.”

Como lembra o sinólogo Michael Kahn-Ackermann, o Ocidente ainda não descobriu maioria dos escritores chineses, mas Liu Cixin é uma exceção. Com sua ficção científica que fala a pessoas de diferentes culturas, Liu conquista cada vez mais reconhecimento fora da China.

Liu admite que a resposta do mercado internacional a sua obra tem sido surpreendente. O autor conta que, quando saiu a primeira tradução em inglês, sua única expectativa era responder àquela pergunta ouvida tantas vezes no exterior: “existe literatura chinesa de ficção científica?”

No debate com o jornalista Dietmar Dath, do Frankfurter Allgemeine, e o sinólogo Michael Kahn-Ackermann, Liu expôs algumas de suas ideias sobre ciência e literatura. Selecionamos abaixo alguns dos melhores trechos dessa conversa.

“A ciência é muito diferente no Ocidente e na China. No Ocidente, ela já passou da fase de desenvolvimento e chegou a uma fase de colher resultados. Mas na China, sua aplicação na indústria está apenas começando. Nessas circunstâncias, a ciência pode ter mais voz no meu país. Os efeitos negativos gerados pelo desenvolvimento científico podem ser mais perigosos lá do que no Ocidente. Porque, na China, a ciência sempre teve a última palavra tanto para a população, quanto para o governo, e isso basta para fazer com que toda a sociedade ignore seus efeitos negativos. No entanto, considerando a realidade da China hoje, o desenvolvimento da ciência é a única opção. Essa situação se reflete, em maior ou menor grau, em minha ficção. Hoje, os romances ocidentais retratam a ciência com imagens muito negativas e, com isso, pintam um futuro muito distópico. Na minha ficção científica, a ciência tem tanto um lado perigoso, sombrio, como um lado positivo. Essa pode ser uma das diferenças entre a minha ficção científica e a do Ocidente.”

“Diferentemente da compreensão anterior, a ficção científica não prevê o futuro, ela o organiza e lista todas as possibilidades. A Floresta sombria fala exatamente do pior cenário.”

“Penso que o único jeito de tratar o desenvolvimento científico de forma racional é enfrentar os efeitos negativos e superá-los. Fugir deles não é uma atitude muito sensata.”

“Meus contos têm escopos e cenários muito abrangentes. Cada conto daria um romance, mas não tem como se transformar em romance. E isso frustra qualquer escritor. Mais de uma vez me peguei tentando imaginar como seriam meus contos transformados em novelas ou romances.”

“Acredito que devemos tratar o futuro com racionalidade. Em outras palavras, é preciso acreditar que a humanidade pode ter um futuro melhor, mas devemos estar sempre atentos às nossas escolhas. Escolhas erradas poderão levar às distopias da ficção científica. Em suma, o futuro nasce do presente.”

“Políticos, economistas e gente de áreas afins só conseguem enxergar até certa distância — não por miopia, mas por estarem sujeitos a mais restrições que nós. Precisam se concentrar em um intervalo de tempo de menos de meio século, ou terão muita dificuldade de realizar suas ações. Mas a ficção científica não é limitada pela realidade, é a vantagem da literatura.”

“A ficção científica é uma janela através da qual podemos ver além do tempo e do espaço da nossa existência. Os cientistas enxergam longe, mais longe do que a ficção científica. Nesse ponto, a ficção sempre estará aquém da ciência. O apocalipse cósmico, por exemplo: não conseguimos imaginar o que viria depois de um apocalipse cósmico, mas os cientistas conseguem.”

“A ficção científica é um gênero literário que transcende o tempo e o espaço da existência humana e entra em universos distantes. Por isso, sempre que escrevo ficção científica, procuro expandir o tempo e o espaço tanto quanto for possível dentro do escopo da minha história.”

“A ficção científica de países diversos tem muito mais semelhanças do que diferenças.”

AS OBRAS MAIS CONHECIDAS

O problema dos três corpos

Marco da literatura chinesa de ficção científica, a trilogia foi publicada entre 2006 e 2010 na 科幻世界 Kehuan Shijie, a principal revista do gênero na China. Vendeu mais de 7 milhões de cópias e foi traduzida para mais de 10 idiomas, como inglês, espanhol, alemão, francês, coreano e grego. A tradução brasileira é de Leonardo Alves, publicada pela Suma de Letras.

Terra à deriva

Publicado em novembro de 2008. Na história, o Sol está prestes a entrar em colapso e engolir a Terra. Desesperados, os seres humanos dão início ao programa “Terra à deriva”, em uma tentativa de fazer o planeta escapar do sistema solar, estacionar em alguma estrela vizinha e construir um novo lar para a humanidade no prazo de 2.500 anos. O filme chegou aos cinemas em 2019, em uma adaptação dirigida por Guo Fan.