Invenção chinesa, os fogos de artifício explodindo no céu
CRIAÇÃO CHINESA, A PÓLVORA JÁ FOI À GUERRA, ÀS FESTAS E, AGORA, FREQUENTA AS GALERIAS DE ARTE

Por Sergio Maduro

No próximo dia 12 de fevereiro, quando a China saudar o ano do Boi de Metal, é provável que os fogos de artifício não estejam presentes. Célebre por marcar uma das comemorações mais radiantes do planeta, a pirotecnia do Ano-Novo chinês se justifica não só pela beleza das explosões coloridas, mas também pela tradição de afastar os infortúnios com seu estrondo. Em 2021, no entanto, talvez persista o veto à queima de fogos em áreas urbanas para combater a poluição em grandes cidades.

Inventores da pólvora e, por tabela, dos fogos de artifício, os chineses descobriram por acaso essa mistura que mudou a História e frequenta nosso cotidiano até na simples cabeça de um palito de fósforo. A primeira fórmula estável, chamada de “pólvora negra”, era composta de 75% de salitre (nitrato de potássio), 15% de carvão e 10% de enxofre. Variando as proporções, é possível explorar diferentes efeitos inflamáveis, visuais e sonoros da combustão da mistura.

Não é novidade a competência criativa dos chineses. Estampa diariamente os jornais com a última novidade em eletrônica, vacinas, produtos têxteis, motores, substâncias para controle de pragas agrícolas, entre outras criações que esse povo vem dando ao mundo desde a invenção do papel, da bússola, das técnicas de impressão e, claro, da pólvora, espécie de marco de encerramento de uma era.

A BATALHA DA LONGA VIDA

A “fórmula flamejante”, tradução literal de 火药 huǒyào, nome com que os chineses batizaram a pólvora na sua origem, está ligada à alquimia taoista. Por um milênio, os adeptos dessa prática vinham buscando um elixir da imortalidade ou da longa vida até que, no final da dinastia Tang (618 – 907), chegaram a uma mistura inflamável. Logo se descobriu que o composto de farinha de carvão, salitre e enxofre podia ser usado em fogos de artifício, sinalizadores, rituais religiosos e festas.

As utilidades do invento foram se desdobrando: o controle sobre as proporções de seus elementos permitiu também o uso como explosivo, capaz de mudar o curso de rios ou de lançar projéteis a grandes distâncias, servindo como instrumento de conquista ou de transformação. Durante a dinastia Song (960 – 1279), a pólvora passou a ser mais amplamente utilizada para defesa, por causa das sucessivas guerras nas fronteiras.

Uma revolução militar se anunciava com a aplicação da pólvora em canhões rudimentares, que resultou em um novo poder destrutivo, em massa e à distância. Não era mais necessário ter os melhores soldados nem os exércitos mais numerosos. A guerra viria a tornar-se mais barata, menos corporal. Tampouco era necessário construir muros em torno das cidades: a maior parte não resistiria a uma descarga de canhões.

Em 1044 a receita de produção maciça da farinha explosiva já constava de um manual militar chinês, o 武经总要 Wǔjīng Zǒngyào “Coletânea das principais técnicas marciais”, que descreve artefatos de guerra. É uma das primeiras referências escritas à fórmula da pólvora. Contudo, não foram os chineses os que mais contribuíram para dar um destino bélico à substância. Seja pela natureza pacifista da ética confuciana, seja pelo momento histórico expansionista que viviam os europeus, o fato é que seu uso na artilharia para a conquista de terras e povos acabou sendo desenvolvido e difundido pelos ocidentais.

Bem que os mandatários chineses tentaram proteger a invenção e barrar a difusão da pólvora, proibindo, primeiro, a venda de nitrato a estrangeiros, em 1076. No século 12, todavia, a pólvora se espalhou seguindo a Rota da Seda em direção à Ásia Ocidental e à Europa. O velho continente e o mundo islâmico, provavelmente por intermédio de engenheiros e artilheiros de guerra capturados ou cooptados pelos povos inimigos, acabaram inventando ou aperfeiçoando o emprego da fórmula em artefatos militares.

Não demorou para que as armas de fogo começassem também a aparecer na Europa, no começo do século 14, seguindo o rastro da pólvora negra. Vale dizer que esse invento chinês foi, por um bom tempo, o único explosivo poderoso existente e assim permaneceu até o início do século 20, quando gradualmente cedeu lugar para a nitroglicerina, o TNT, a cordite, usada na forma de filamentos, e a dinamite, inventada por Alfred Nobel, todas “versões modernas da pólvora”.

ARTISTA DA PÓLVORA

Para o taoismo, a pólvora é um elemento claramente yang. Explode e logo retorna a um estado de repouso, yin, recobrando o equilíbrio resultante da interação dessas forças complementares. É assim que Cai Guo-Qiang, artista chinês que escolheu a pólvora como uma de suas matérias-primas, explica suas obras e o fascínio por esse explosivo.

Nascido em 1957 em Quanzhou, província de Fujian, Cai Guo-Qiang formou-se em cenografia. Com o pai, um intelectual versado em pintura chinesa e tradução literária, aprendeu desde cedo sobre a cultura tradicional. Ainda jovem, esteve em contato com a cultura ocidental e passou a circular entre China, Japão, Estados Unidos e os mais prestigiados espaços culturais do planeta, aos quais levou, por meio de suas obras, um diálogo entre a modernização chinesa e o mundo moderno, dando uma utilidade artística à pólvora ou reinventando-a como matéria plástica de expressão.

Cai ficou conhecido mundialmente nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Ganhador do Leão de Ouro da Bienal de Veneza de 1999, é dele o desenho de fogos para as cerimônias de abertura e encerramento das Olimpíadas. Residente em Nova Iorque, ele se vale das possibilidades expressivas da pólvora, seja como pigmento, seja como material capaz de queimar, encantar, produzir e destruir. A violência explosiva e os efeitos visuais da substância revelam ao mesmo tempo uma delicada graciosidade fugaz e um intenso horror destruidor. Cai transita entre esses extremos com a mesma desenvoltura com que se expressa usando o desenho, a pintura, a instalação, o vídeo, a performance e, muitas vezes, funde essas técnicas para explorar o potencial da pólvora como tinta em telas, pergaminhos e até vestidos de alta-costura.

Aos poucos, ele foi introduzindo a pólvora em sua obra com uma intenção metafórica, explorando-a como um elemento natural aleatório, fora de seu controle. A referência é um paralelo com os estados primordiais, a transmutação da matéria e a impermanência do mundo, que Cai vai associando a eventos artísticos e estes, à explosão latente ou manifesta.

Instalações escultóricas efêmeras, quase abstratas, como as produzidas por explosões de fogos de artifício – ou, em oposição tensa, artefatos duradouros, como aeronaves de sucata – são obras suas a serviço de temas sociais e de uma reflexão acerca da História, da cultura, do meio ambiente, do lugar dos seres vivos no universo, de sua reação pessoal às violências do mundo moderno. O desmatamento, o terrorismo, a guerra – seu trabalho não é alheio a nada disso, mas comenta a realidade a partir de um ponto de vista bastante chinês e, ao mesmo tempo, completamente globalizado.

SINAIS DE FUMAÇA

Cai Guo-Qiang escolhe com muito cuidado, por exemplo, rojões capazes de produzir diversos efeitos, como “cogumelos de fumaça” de tamanhos variados. Lúdico, ora ou outra ele também pode mudar a proposta e “brincar com fogo”, produzir “mensagens de fumaça” numa linguagem aleatória desenhada pela combustão da pólvora, decodificada em livre associação pelo dicionário interno de cada observador.

Cai também produz instalações de grandes proporções, carregadas de dramaticidade, como as reproduções de tigres transpassados por flechas ou de matilhas de lobos se jogando contra uma barreira. Em Inopportune: Stage One (2004), usou nove carros reais suspensos em vários ângulos. Os veículos enfileirados parecem frames de um filme em que o carro capota, atravessado por fogos de artifício em explosão. Na série Projetos para Extraterrestres, ele pinta telas com pólvora e subverte o olhar para tornar o ser humano e o nosso planeta objeto de contemplação do universo, inspirado pela ideia de que outra construção, a muralha da China, seria a única obra humana possível de ser observada do espaço.

Seu projeto performático O século das nuvens de cogumelo: projeto para o século 20 constitui uma série de detonações manuais em que ele, acompanhado por um fotógrafo ou cinegrafista, visita informalmente lugares que mantiveram alguma relação com o Projeto Manhattan, que desenvolveu as bombas atômicas da Segunda Guerra. Nessas visitas, ele acende uma espécie de rojão e produz um cogumelo de fumaça de pequenas dimensões, muito semelhante ao produzido pelas explosões atômicas.

Em 2013, o trabalho do artista esteve no Brasil (São Paulo, Rio e Brasília), mostrando a criatividade de camponeses chineses em conceberem aviões artesanais, submarinos e robôs, aproximando-os da genialidade criativa de Leonardo da Vinci. Com público de mais de 1 milhão, foi a mais visitada exposição de um artista vivo em todo o mundo naquele ano.

火藥 flechas de fogo retratadas no registro militar chines, Wubei Zhi
VESTÍGIOS DE PÓLVORA

Para terror de homens e cavalos, os chineses desenvolveram a 火枪 huǒ qiāng “lança de fogo”, espécie de canhão primitivo de curto alcance que tirava proveito do poder explosivo da pólvora para ejetar flechas em chamas ou pedaços de metal. Também inventaram o 飞火 fēi huǒ “fogo voador”, uma flecha acoplada a um tubo de pólvora em chamas. Eram praticamente protótipos de canhões ou de lança-chamas.

Sobreviveu até nossos dias o canhão de mão encontrado durante uma escavação em 1970 e que faz parte do acervo do Museu Provincial de Heilongjiang. Descoberto junto a vários outros objetos de bronze fabricados no estilo da dinastia Jin (1115 – 1234), foi possível estimar a sua origem no século 13. Juntamente com o canhão de bronze Wuwei, descoberto em 1980, também do século 13, é provavelmente o vestígio material dos mais antigos canhões do mundo.

No âmbito iconográfico e datada do século 12, uma caverna nos arredores de Chongqing abriga uma das primeiras representações pictóricas de um canhão, retratando uma pessoa que carrega um objeto em forma de vaso, soltando chamas, cercado por outros objetos arredondados.