Mulher admira canais em Jiangnan
CONSTRUÍDAS SOBRE A ÁGUA, AS CIDADES DE JIANGNAN ENCHEM OS OLHOS DOS VISITANTES DESDE OS TEMPOS DE MARCO POLO

Por Amilton Reis

Pouco depois de passar por Nanquim e antes de encontrar o mar, o Rio Yangtzé estende os seus braços num largo delta. E assim, aberto em leque, irriga uma planície salpicada de lagos e terras alagáveis. Entrecruzada por outros tantos rios e canais, essa “terra do peixe e do arroz” tem sido, há muito, uma área de intensa atividade econômica. Desde a antiguidade, a região conhecida como Jiangnan, literalmente “sul do rio”, desenvolveu a navegação fluvial e prosperou abastecendo as capitais do Norte com seda, porcelana e chá, entre outros produtos que eram despachados pelo Grande Canal.

No século 13, meio milênio antes de Xangai se tornar um centro comercial importante, Marco Polo assim descrevia a florescente Suzhou, então uma espécie de capital regional: “é uma formosa cidade… têm moeda de papel, vivem do comércio e da indústria. Têm ricas sedas para vestuário. Ali vivem poderosos negociantes. A cidade é tão grande que a sua volta mede mais de quarenta milhas.” Com a prosperidade econômica veio também o florescimento intelectual. Seus habitantes, continuava o viajante veneziano, além de “hábeis engenheiros e vivos mercadores”, também cultivavam a filosofia e as ciências e conheciam “todos os segredos da Natureza”.

Canal em Tongli, Jiangnan

Com sua natureza amena, ainda que um tanto encharcada, Jiangnan produziu uma legião de outras cidades que, como Suzhou, eram construídas sobre a água e compartilhavam da vocação para o comércio e as artes. Essas “cidades aquáticas” logo começaram a povoar os versos e o imaginário chinês com seus incontáveis canais e pontes de pedra, seus pátios ajardinados, seus pavilhões à beira da água, suas paisagens em miniatura atrás de portões redondos como a lua cheia.

Quem olha de longe pode achar difícil associar essa imagem idílica ao perfil do Delta do Yangtzé atual, que responde por um quinto do PIB chinês, movimenta uma poderosa indústria de exportação e se destaca como uma das áreas mais desenvolvidas do país. Hangzhou e Suzhou competem pelo título de “Vale do Silício chinês” e nas vizinhas Ningbo e Xangai, estão os dois portos mais movimentados do mundo. As mais de 20 cidades da região, conectadas por uma malha ferroviária de alta velocidade, formam uma megalópole com uma população total de 150 milhões.

Mas o triângulo compreendido entre Suzhou, Hangzhou e Xangai ainda conserva pelo menos uma dúzia das antigas minivenezas do Oriente. A pouca distância de centros urbanos prósperos e superpovoados – a maioria está a menos de duas horas de viagem de qualquer das pontas do supracitado triângulo – garante um vaivém constante de hordas de turistas, principalmente nos feriados e fins de semana. E atente que muitas cobram ingresso para visitar o centro histórico preservado. Não admira: essas joias antigas valem mesmo a visita. Listamos aqui alguns destinos favoritos da região.

Ponte em canal de Zhujiajiao, Jiangnan

BATE-E-VOLTA

朱家角 ZHUJIAJIAO

A linha 17 do metrô de Xangai leva direto a essa miniatura de cidade aquática, fundada há mais de um milênio, que preserva seu mix de becos, pontes, canais e arquitetura antiga. A desvantagem é que essa facilidade de acesso também a deixa tão lotada quanto o calçadão da Rua Nanjing, a 50 km dali. De qualquer forma, o contraste com os neons e as fachadas envidraçadas do centro de Xangai não poderia ser maior.

Vielas laterais e cafés bacanas oferecem rotas de fuga para quem quer evitar as multidões. Dá para explorar todo o centrinho histórico em menos de três horas, mas quem decide ficar depois do pôr-do-sol tem a chance de assistir a concertos ao ar livre de música clássica e de Kunqu, a ópera regional.

甪直 LUZHI

A 40 minutos de carro do centro de Suzhou, a pequena Luzhi (outrora conhecida como 甫里 Puli) tem uma elegância própria. Várias de suas edificações são originais das dinastias Ming e Qing, não reconstruídas como em outras cidades da região.

Luzhi é uma das cidades aquáticas mais bem preservadas e até ganhou um prêmio da Unesco pela conservação do bairro antigo. Ainda que esteja na lista de candidatos para o patrimônio mundial junto com suas vizinhas mais famosas, Tongli e Zhouzhuang, atrai relativamente menos visitantes.

A cena de Puli, atual Luzhi, retratada em versos pelo poeta Gao Qi (1336–1374) resume algumas imagens típicas das cidades aquáticas. Aqui vai uma tradução quase literal:

Ponte longa, ponte curta, salgueiros,

Ribeira à frente, ribeira atrás, lótus em flor.

O homem olha para o chamariz da taberna,

A garça segue o barco do pescador na volta para casa.

Noite num canal de Zhouzhuang, Jiangnan

AS MAIS PROCURADAS

周庄 ZHOUZHUANG

Não é à toa que se diz que a cidade aquática favorita de 10 entre 10 agências turísticas da China parece uma pintura. De fato, as paisagens da outrora pacata aldeia de Jiangsu se tornaram célebres por causa das telas de Chen Yifei (1946–2005) e, desde então, atraem incontáveis grupos de excursão.

Em tempos normais, estará movimentada de segunda a domingo, em feriados e dias úteis, chova ou faça sol. Para os fotógrafos e artistas ansiosos por captar a antiga paz que alentou as pinceladas de Chen, restam só as primeiras horas da manhã, quando os poucos residentes estão começando o dia.

Zhouzhuang em Jiangnan
乌镇 WUZHEN

Praticamente a meio caminho entre Xangai e Hangzhou, Wuzhen é tremendamente fotogênica, mas também é uma das mais comerciais. Divide-se em dois setores: Xizha, na margem oeste, e Dongzha, na margem leste.

O acesso a Xizha é feito de barco, e a sensação, à primeira vista, é de viagem no tempo. Mas a restauração completa, concluída em 2007, deixou-a com jeito de cidade cenográfica: saíram os moradores locais e entraram hotéis-butique, restaurantes e lojas de suvenir. Dongzha, por outro lado, tem alguma vida local, além de museus e shows para turistas. Fica ali também, aberta a visitação, a casa da infância de Mao Dun, um dos maiores escritores chineses do século 20 (e ministro da Cultura entre 1949 e 1965).

Wuzhen em Jiangnan
同里 TONGLI

Não vamos esconder que Tongli é uma das nossas favoritas. Cercada por 5 lagos e entrecortada por uma malha de 15 canais, distribui-se em 7 ilhotas, unidas por 49 pontes. Tudo isso dentro de um perímetro de apenas 3 km de extensão.
Em outras palavras, praticamente toda casa tem uma janela para a água, e você nunca estará longe de uma vista altamente instagramável. Pode ser uma ponte de pedra da dinastia Song, ou Yuan, ou Ming, ou Qing, ou a ginga das sampanas revolvendo, como uma enorme nadadeira, a água cor de jade, ou a toalha azul índigo sob o bule de chá na mesa à margem do canal. Nem precisava ter um jardim clássico, cuja beleza rivaliza com os de Suzhou, como o inesquecível Tuisi Yuan (o “Remanso dos Pensamentos”). Mas tem, e ele sozinho já valeria a viagem.
A proximidade do centro de Suzhou (são só 18 km) e o fácil acesso pela linha 4 do metrô garantem uma visitação maciça, principalmente nos fins de semana.

Tongli em Jiangnan

AS “ALTERNATIVAS”

西塘 XITANG

Várias cidades da região têm uma ou outra calçada coberta na orla dos canais. Mas nenhuma usou e abusou desses charmosos puxadinhos como Xitang. Tanto que eles se tornaram marca registrada da cidade.
Os chamados 廊棚 lángpéng, algo como “corredor-alpendre”, estão ali por toda parte. O mais longo tem 1.300 m de extensão e até teve seu momento de glória no cinema: a cena de perseguição de Missão impossível III foi rodada exatamente ali. Isso explica as fotos de Tom Cruise nas paredes de alguns restaurantes do pedaço.

Jiangnan
南浔 NANXUN

Menos famosa que suas irmãs, Nanxun é a menos visitada das cidades da região. Por conseguinte, é a que oferece uma experiência menos comercial e mais autêntica. Tem áreas movimentadas, sim, mas também áreas verdes e tranquilas.

O centro histórico na verdade é praticamente um enclave dentro de uma cidade industrial sem maiores atrativos, mas ainda conserva seus moradores originais. Um diferencial aqui é que o casario antigo tem uma mistura interessante de estilos arquitetônicos. Em algumas mansões a fachada é ocidental, e o pátio interno tem arquitetura chinesa.