SE AS FACILIDADES DA TECNOLOGIA PARECEM ESTAR CHEGANDO AO LIMITE, HÁ CHINESES BUSCANDO OUTROS TIPOS DE CONEXÃO

Por Sergio Maduro

Na China industrial e tecnológica de hoje, toda uma geração recente já cresceu conectada e com acesso quase irrestrito à informação. Os filhos da internet mais rápida e acessível e dos smartphones que trazem o mundo para a palma da mão são muito mais acelerados e imediatistas. Acostumados desde que nasceram a um mundo em rápida transformação, rejeitam o estático estilo de vida de seus pais e sabem que a realidade é tão efêmera quanto uma página virtual: amanhã tudo pode ser uma nuvem que se desmancha no ar. Mas alguns deles, saturados, tendem a priorizar a qualidade de vida em vez da aquisição de bens; ao consumir ou criar, pensam muito mais em suas escolhas.

O QUE SE LEVA DESSA VIDA

“Eu tinha um emprego muito bem remunerado, mas era só trabalho, não me deixava feliz. A rotina corporativa me esgotava, quando saía do escritório, só pensava em descansar, sem cabeça para mais nada, nem um hobby que fosse. Fui acumulando frustrações”, diz a ex-gerente de marketing Wang, que acabou largando o emprego em uma empresa Fortune 500 para montar um estúdio onde ensina a produzir e reciclar peças de vestuário. Algo que ela sempre quis fazer.

Wang faz parte de um grupo cada vez mais presente na sociedade chinesa. O de pessoas cujo vazio interior é impossível preencher com hiperconsumo ou a inquietação das grandes cidades e que, ao buscar novos valores, enfrentam questões bem atuais.

Uma delas é a problemática relação entre consumo e sustentabilidade. Toda a produção para prover o maior contingente populacional do planeta e abastecer boa parte do mercado mundial com produtos tem um (alto) custo ambiental. E os jovens começam a atentar para o problema.

Com frequência, a China enfrenta epidemias nas criações de porcos e frangos, por exemplo. Na terra do tofu e do mianjin (mais conhecido como seitan ou “carne de glúten”), há gente interessada em não consumir proteína animal por razões de saúde, filosóficas, religiosas ou ambientais – para poupar terras da monocultura dedicada à produção de ração ou à criação de gado de corte.

O QUE SE COME

Zhiming, jovem morador de Pequim – que continua a trabalhar em escritórios – admite que parou de comer carne por uma preocupação com a saúde. Não é adepto da dieta vegana, mas da “alimentação leve”, agora popular entre os jovens chineses e que consiste em privilegiar alimentos saudáveis, com menos calorias, menos gorduras e mais fibras.

“Na verdade, o sistema digestivo humano evolui muito devagar, não tem condições de acompanhar a evolução da nossa dieta, sabe? Estamos na era da nutrição em excesso, ingerindo peixe e carne aos montes em cada refeição, o sistema digestivo não dá conta.” Zhiming acredita que, por ter atravessado tempos difíceis, a geração mais velha tem uma obsessão por mesas fartas, e é por isso que, em tempos de prosperidade, faz de tudo para encher os filhos e netos de comida. Por outro lado, os jovens, longe de terem medo da fome, preferem evitar comer demais e engordar.

Em muitas cidades da China, a “alimentação leve” está em alta e é a expressão do estilo de vida mais saudável, disciplinado e positivo que um número cada vez maior de jovens vem buscando. De acordo com o relatório de big data sobre o consumo de alimentos leves publicado em 2019 por uma gigante chinesa do ramo de entrega de comida, as buscas em seu aplicativo por “alimentação leve”, “alimentação para perder peso”, “dieta” e “alimentação saudável” este ano aumentaram, respectivamente, 235,8%, 200,6%, 186,4% e 116,0% em relação a 2018.

O QUE SE CRIA

Sabe-se lá há quantas décadas estamos sendo arrastados pela corrente do consumismo e da impiedosa aceleração do ritmo de vida que o sustenta. Esses dois fatores já vêm se retroalimentando há tanto tempo que não sabemos mais a ordem em que surgiram. Seja como for, o resultado é o mesmo: o vazio já mencionado e o descuido com o corpo e o espírito.

A reação a isso é um movimento de resgate que se desdobra em várias frentes, uma delas é o DIY (“faça-você-mesmo”, na sigla em inglês), que está sendo redescoberto pelos chineses. Há grupos dedicados aos mais variados setores, desde a confecção das próprias roupas, até a construção de móveis e a montagem de computadores. No Ocidente, é comum recorrer à bricolagem por causa do alto custo da mão de obra, mas, na China, a popularidade do DIY reflete a demanda por um consumo mais consciente, além da nostalgia pelo estilo de vida das gerações passadas.

Muitas famílias, quando se mudam para um novo endereço ou redecoram a casa, relutam em se desfazer dos móveis e objetos que usaram por tantos anos. Com o DIY, é possível modificar essas peças total ou parcialmente e dar a elas outro propósito para que, renovadas, não precisem ser jogadas fora.

Até a década de 1980, a indústria leve na China era relativamente atrasada, e havia um grave desequilíbrio de desenvolvimento entre as diversas regiões. Por isso, em muitas localidades, era comum projetar e fabricar móveis, cortar e costurar as próprias roupas, tricotar as próprias malhas e fazer os próprios sapatos e meias. Os antigos ofícios foram passados de geração a geração e, hoje, são a base da atual tendência do DIY. O comércio eletrônico acabou com as limitações de espaço para a oferta de produtos semiacabados, materiais e ferramentas. Dá para encontrar desde moldes e tintas para fazer um móvel até papel autocolante para renovar um revestimento. Antes, na região de Jiangsu, Zhejiang e Xangai, de indústria têxtil mais desenvolvida, era bem mais comum encontrar tecidos e aviamentos do que no Norte. Agora que o país todo tem acesso fácil a esses produtos graças às lojas na internet, entusiastas do DIY, como Wang, podem ter o prazer de dar vida às próprias criações.

EREMITAS PÓS-MODERNOS

Há quem decida buscar esse novo estilo de vida de maneira ainda mais radical. Inspirados pelas tradições budista, taoista e confuciana circulantes na China, jovens procuram um resgate espiritual. Alguns se mudam para as montanhas, onde passam temporadas que podem variar de alguns meses a uma vida inteira. Buscam silêncio, meditação, contemplação e uma extrema simplicidade no viver, quase sem precisar de dinheiro, longe das tecnologias e em conexão com a natureza.

A recusa de viver em grandes aglomerações também é parte do projeto de vida de alguns artistas e intelectuais. O próprio governo promoveu um desafogamento dos centros urbanos hiperpovoados, incentivando a moradia em áreas mais afastadas por meio de programas-piloto. Nas aldeias antigas já existem programas para a preservação do patrimônio histórico e o desenvolvimento do turismo e de outros empreendimentos locais.

Hoje, a geração que cresceu alheia ao ritmo lento da vida campestre encontrou nela uma realidade nova e inspiradora. Os escritórios, as rotinas urbanas e a busca de uma carreira bem remunerada que dê acesso a bens cobiçados já carecem de sentido. Há os que simplesmente querem fugir da cidade e os que aproveitam para investir em negócios turísticos que vendam isolamento ou mesmo um breve retiro espiritual a interessados em dar um tempo na agitação. Em lugarejos afastados, longe do barulho e da aceleração dos grandes centros, artistas montam seus estúdios e empreendimentos. Para isso escolhem, digamos, uma casa centenária onde, sem a pressão dos grandes centros, podem dar vazão à imaginação ou comercializar suas criações. São a chamada nova classe criativa, que contribui para a revitalização de aldeias esquecidas.

 UM ÍCONE

A tendência a nadar contra a corrente não parece ser uma simples moda. É fruto da saturação de uma vida muito antinatural para nós, seres humanos, e o desafio é conciliar todas as facilidades e comodidades que criamos àquilo que nos é essencial como espécie: saúde – física e mental – e vínculos. Se há alguém que parece estar conseguindo resolver essa equação é Li Ziqi, vlogueira que virou febre na internet chinesa e já conta com 50 milhões de fãs dentro e fora da China. Direto dos vales remotos de Sichuan, Li produz um conteúdo que dá um novo sentido ao termo faça-você-mesmo. Em vez de simplesmente mostrar como se faz um assado, ela primeiro constrói o forno a lenha usando técnicas tradicionais. Se vai fazer um molho de gemas, seu ponto de partida é criar os pintinhos recém-saídos da casca que, um dia, produzirão os ovos para sua receita. Em suas imagens, de intenso efeito calmante e mágica atmosfera, ela praticamente não fala, cedendo a palavra à natureza deslumbrante que a circunda e à ação serena e concentrada a cada etapa de suas preparações e criações. Não importa se beira a fantasia vê-la saindo com um capuz vermelho para colher cogumelos na manhã brumosa, ou cortando bambus para montar um sofá para a avó sem desalinhar um só fio de cabelo. Com essas imagens idílicas, ela embrulha um álbum de saberes milenares, de uma China – e de uma humanidade – profunda e ancestral. “Mostro a minha vida, ou melhor, o meu ideal de vida”, declarou certa vez.

A moça resume e eleva ao mais alto patamar todas as facetas da tendência que abordamos aqui: da vida simples em contato direto com a natureza à desaceleração do ritmo cotidiano e do impacto ambiental; da alimentação ao faça – e plante, e colha, e ordenhe, e cozinhe, e corte, e pregue, e costure… – você mesmo. Não nos esqueçamos de mencionar os vínculos, que mantém com avó, com quem mora e consome as refeições preparadas nas imagens. Li também é um exemplo de conciliação entre os mundos on e off-line, ao “compartilhar” seu estilo de vida desplugado com o mundo inteiro, graças à rede mundial de computadores. Suas imagens eram, no início, feitas apenas com um tripé e um smartphone. Mas mesmo hoje – garante a própria –, a produção se resume a um assistente e um cinegrafista.

Jamais nenhuma criatura viva habitou um mundo tão repleto de possibilidades como os homens e mulheres do século 21. O reverso dessa moeda é o excesso de opções – e, portanto, de ansiedade e dúvida. Por mais tentador que seja largar tudo agora mesmo, ou fugir para o campo, não precisamos de nada disso para fazer uma pequena pausa e respirar. E então, como Li Ziqi colhendo seus cogumelos, podemos escolher o que mais valorizamos na vida para, a partir daí, inventar nosso sentido para ela.

A FACE DA MUDANÇA

Conheça os jovens eremitas urbanos e ouça o que a incrível Li Ziqi tem a dizer.

Summoning the recluse (Chamando os reclusos, em tradução livre), de Ellen Xu, é um breve documentário sobre os que optaram se refugiar “no meio do mato”.

Em menos de dez minutos, saiba quem é o fenômeno Li Ziqi, como decidiu fazer vídeos e confira uma rara entrevista.