POR TRÁS DO MAR DE NEONS, A CIDADE DO LÓTUS NA FOZ DO RIO DAS PÉROLAS GUARDA UMA HISTÓRIA DE CONFLUÊNCIAS

Por Amilton Reis

Desliguei o telefone pronto para fazer as malas. Acabava de receber um convite inesperado para uma conferência em Macau. Não seria a primeira ida. Já havia estado lá antes, umas três vezes, se não erro a conta. Ainda assim, a ideia de voltar sempre emociona. Duas décadas atrás, desci do ônibus em um estacionamento praticamente vazio em Zhuhai, ao lado do posto de fronteira. Não havia filas. Dois carimbos no passaporte e poucos passos depois eu saía nas Portas do Cerco, e o que vi só aumentou o estranhamento.

Era uma sensação que havia começado no momento em que o funcionário macaense, examinando meu passaporte, fez-me as perguntas de praxe sobre o propósito da visita e o tempo de estadia. Em português. Será que ainda estava na Ásia? Do lado de fora, a resposta era “sim e não”. O calor, a umidade, letreiros em nossa língua, uma linha de ônibus indo para a “Barra” faziam-me pensar no Brasil. E até os prédios incaracterísticos eram incaracterísticos à nossa maneira. Depois de meio ano estudando na China, eu me sentia um pouco mais perto de casa. Como se tivesse atravessado um portal entre dois hemisférios.

Em meio a tudo isso, os ideogramas tradicionais ostentavam, onipresentes, sua riqueza de traços. Definitivamente eu estava na Ásia. Mas eram tantas as placas bilíngues que pensei estar em uma China com legendas. Entre uma divagação e outra, eu só tinha uma certeza: estava olhando para um lugar fascinante. Um lugar de múltiplas camadas. Tantas impressões juntas, lado a lado. Um mosaico.

Não, as outras cidades é que são mosaicos, Macau é uma aquarela. As tintas de Cantão, Lisboa, Las Vegas, Rio de Janeiro – e até um vago ar de outros portos – desenham, em pinceladas de contornos difusos, uma paisagem bastante concreta, e ao mesmo tempo tão imprevista que o coração do viajante só pode entender como sonho. A sensação de virar uma esquina neste cantinho pequenino do mundo e se ver em outro continente pode ser comparada apenas àqueles sonhos em que se descobre uma rua estrangeira na própria cidade, ou um quarto novo dentro da própria casa. A impressão deixada pela primeira visita foi tão profunda que, por anos a fio, sonhei repetidas vezes que voltava a Macau.

Poucos meses depois do telefonema, desembarco ainda balouçante no Terminal Marítimo. Durante o trajeto de barco desde o aeroporto de Hong Kong vejo riscar o horizonte preto – sem saber se é real ou miragem – a linha luminosa da nova ponte. Saiu nos jornais, tem 55 quilômetros e foi inaugurada por esses dias. Quanta coisa deve ter mudado por aqui. Bêbado de sono e acreditando em miragens, pergunto-me daquela primeira visita que, tantos anos depois, ainda trago na memória: terá sido vivida ou sonhada?

Quem chega hoje é recebido por uma cidade muito diferente. Feérica, pirotécnica, cintilante. Novos cassinos colorem a península, ao lado do veterano Lisboa. Cotai, o aterro que uniu as ilhas de Taipa e Coloane, abriga casas de jogos para todos os gostos. Oferecem mais do que jogos, é verdade: lojas, restaurantes, hotéis, cinemas, espetáculos. Movimentam mais dinheiro do que Las Vegas. Atraem, arrisco dizer, a grande maioria dos visitantes que desembarcam lá. Mas não é para essa Macau reluzente que volto. A cidade que me abraça quando retorno é outra – pedestre, cotidiana, sem excessos – e continua ali, por baixo da nova pele.

MAR LARGO

No Largo do Senado, um mosaico de ondas em preto e branco toma o chão e transborda para a vizinhança. É o “mar largo”, o padrão sinuoso nosso velho conhecido. Navegar nele é sentir os pés ora no Rossio, ora em Copacabana, ora nesta mesma Ásia distante e irmã. Às margens dessa praça central e inevitável, os prédios vão ecoando paisagens antípodas: o antigo Senado, os Correios, a Santa Casa de Misericórdia e a igreja de São Domingos podiam estar em qualquer outra paragem do mundo lusófono. Aqui, essas feições tão familiares respiram no compasso de uma China sulista, cantonesa, subtropical. Nesse não-sei-quê impalpável, que a todo momento resvala entre o familiar e o desconhecido, é que se vislumbra a alma mestiça de Macau.

Fora do alcance dos tons mediterrâneos do Largo do Senado, no entanto, a paisagem muda drasticamente. As ruas vencem ou contornam colinas, estreitando-se à sombra de uma floresta de edifícios. As janelas têm grades salientes onde uns penduram roupas, outros secam panelas e não poucos dão a suas plantas o sol que elas merecem. Aqui, 20 andares dessas janelas gradeadas. Ali, 30. Acolá, quem sabe 40. No rés-do-chão, repete-se o comércio mais cotidiano: farmácias, barbearias, mercearias, macarrão ensopado. No meio dessa simplicidade, o acaso distribui pequenas e gratas surpresas. Pode ser um aroma com notas de curry e incenso, o mais bem-vindo chá gelado no sufoco do verão ou o mais estaladiço pastel de natas. Pode ser o vislumbre de um cassino demasiado reluzente, pousado como nave alienígena no fim da rua mais quadrada. E pode ser o jardim secreto mais belo que você vai encontrar nesta esquina do mundo.

JARDIM SECRETO

Ele está ali, atrás de um muro amarelo que aparece do nada em uma rua comum. Quem entra, encontra um portão redondo como uma lua cheia. Depois desse pórtico, a vista alcança uma galeria de bonsais, veredas de bambus à direita e à esquerda, um lago e um palacete amarelo à beira da água. É verdade que este jardim nunca foi secreto. Está em todos os guias turísticos. Mas, em nossa Macau onírica, façamos de conta que é secreto. Que só nós o achamos por acaso quando andávamos sem mapa nas ruas de São Lázaro. E percorremos sem pressa suas alamedas que se bifurcam, até descobrir a colunata vermelha da Galeria dos Cem Passos, o ziguezague da Ponte das Nove Curvas, o Lago dos Nenúfares, os vasos floridos na balaustrada azul e o banco debruçado sobre as carpas na varanda do Pavilhão da Relva Primaveril. Com sorte, haverá uma senhorinha tomando sol, pelo menos um praticante de tai chi, uma criança no colo do pai contando tartarugas no lago. Outro dia procuraremos saber a história de Lou Lim Ieoc, filho de Lou Kau, seu antigo dono. Hoje não. Hoje, sentados no banco vermelho que se pendura sobre o lago, é dia de simplesmente estar aqui.

CORTINAS DE INCENSO

Nem o mais distraído forasteiro que passar pela Avenida do Coronel Mesquita deixará de notar a construção de muros verdes brotando da rua cinzenta. Para dentro do portão abre-se um pátio, de cuja existência o transeunte não desconfiou. No fundo do pátio, três pavilhões adornados: um ao centro, dois nas laterais. Diante de cada pavilhão, um turíbulo despeja lufadas de fumaça perfumada.

O viajante acredita que a visita terminará ali, naquele primeiro salão, mas eis que percebe uma passagem, um corredor, um atríolo, mais incenso, e de repente está em um novo pavilhão, sob o olhar de outro buda. Agora, com a curiosidade atiçada, o forasteiro não quer mais voltar para a rua. Percorre com os olhos as pinturas e caligrafias penduradas nas paredes. A luz do sol trespassa as cortinas de incenso. Contemplativo, chega, não sabe dizer como, a um terceiro salão. Ali está Kun Iam (ou Guan Yin), a “nossa senhora dos budistas”, ataviada em manto de seda e coroa de franjas. Já não sabe se é cedo ou tarde, mas não importa. Está intrigado por este templo que, sem parecer grande, é enorme. Há mais corredores, altares, capelas. Quando acha que já pode encerrar sua visita entrevê um pequeno jardim. Chega até ele e percebe que o jardim se revela em etapas, desdobrando-se em micropaisagens, flores, folhagens, pequenos santuários. Nenhum outro visitante o acompanhou até lá. Está em uma ilha de silêncio. A mundos de distância da cidade reluzente.

ADEUS, BAÍA

Na velha Praia da Esperança eram cinco casas verdes de frente para o mar. Hoje, a enseada virou lagoa, a praia, um tanque de lótus. Sumiram os morros de Coloane por trás de um cassino que imita Veneza. Aliás sumiu a baía toda sob o aterro. As duas ilhas, Taipa e Coloane, são hoje uma só, mas as casas ainda guardam o velho charme e memórias antigas. Naquela, de amplas varandas, dispuseram móveis centenários para recriar a residência de uma família no início do século 20. Salas de estar e jantar, quartos, banho, cozinha. Como sói acontecer em museus desse tipo, a gente se diverte tentando imaginar quem vivia em uma casa assim, e como. Em que gastavam o tempo, se pulavam carnaval, se tomavam banho de mar. Daí você se lembra de que, apesar das aparências e apesar de haver uma “Igreja do Carmo” na esquina, não está em um casarão antigo do Rio de Janeiro.

A cinco minutos dali, a Rua do Cunha fervilha sob a enxurrada permanente de turistas. Uns se decepcionam, dizendo que não há nada para ver além de lojas de suvenires – comestíveis ou não. Sim, pois quem há de negar que os comestíveis são os que deixam as melhores lembranças? Expectativas ajustadas, dá tanto para matar a vontade de comida portuguesa, como para explorar o desconhecido ou o semiconhecido. Eu achava que todos os sanduíches de porco eram iguais até provar a bifana em versão macaense, feita com bisteca marinada e pão crocante, sem mais. A simplicidade é a coisa mais difícil de descrever.

SONÍFERA ILHA

Para chegar a Coloane antes se atravessava uma causeway no meio do nada; hoje se percorre a cidade reluzente que está no meio de tudo. A Estrada do Istmo, contam-me (mas não me lembro), tinha estátuas dos 12 animais do zodíaco chinês. Coloane era, e continua sendo, sinônimo de lonjura. Estradas que passam por colinas verdes e nomes singulares. Altinho de Ka Hó. Praia de Hac Sá. Praia de Cheoc Van. E uma pequena vila. No centro dessa vila, a capela de São Francisco Xavier abre-se para o rio. Na outra margem, logo ali, é Zhuhai. É um daqueles pontos em que dois mundos se encaram e quase se tocam. Do lado de cá, uma esplanada com calçada portuguesa e arcadas mediterrâneas emoldura o amarelo-e-branco da igreja. As ruas são estreitas, as casas, modestas. Percorre-se a vila em poucos passos, da ponte do cais ao templo de Tam Kung – com direito a um pastel de nata, ou dois, na Rua do Tassara. Do lado de lá, a cidade chinesa espraia-se ao pé da montanha, onde há poucos anos era campo ou vila de pescadores. Veem-se novos blocos residenciais ao longe. Imagino entre eles as ruas largas e retas, com lacunas a preencher, como tantas outras urbanizações recentes da China continental. Eu, do lado de cá, vou tentando preencher outras lacunas, ver outras tintas nesta aquarela.

A cada regresso, este pedaço de Macau é o primeiro que faço questão de rever e o último de que me despeço. Quando chego, quero ter a certeza de que realmente existe, e quando parto, venho pedir que continue aqui e que me espere até eu voltar.