COMO DIVIDIR EXPERIÊNCIAS PODE NOS AJUDAR A APRENDER CHINÊS

Por Cesar Matiusso

Estudar chinês é uma viagem em muitos sentidos, e por mais que “falar mandarim” seja um “destino” incrível e desejável, exige tempo e esforço como o aprendizado de qualquer língua. Um dos caminhos do sucesso é justamente valorizar o trajeto: além do curso, dos livros, dos professores e dos aplicativos, compartilhar experiências pode ser a chave para superar dificuldades e tornar a caminhada rumo ao domínio do idioma mais agradável e enriquecedora. Nesse sentido, conversei com alguns “veteranos” no estudo da língua chinesa para descobrir o que fazem para estudar mandarim. O resultado é uma série de pequenas dicas que adoraríamos poder voltar no tempo para dar a nós mesmos e que oferecemos a você, leitor-aprendiz.

Nas conversas com esses companheiros de viagem, é unânime a resposta quanto aos aspectos mais amigáveis e mais desafiadores da língua chinesa. “Como brasileiros, enfrentamos problemas parecidos na hora de aprender chinês”, comenta Carlos Ribeiro, que estuda o idioma desde 2012. A gramática chinesa, por exemplo, costuma surpreender pela simplicidade das construções, que, nas frases mais simples, seguem a mesma ordem sintática do português. Já a pronúncia, que inclui tons e fonemas inexistentes na nossa língua, além da escrita em ideogramas, são de longe os pontos mais desafiadores. E é aí que a criatividade age a favor do aprendizado. “O chinês não tem os mesmos pontos em comum que encontramos em outras línguas”, me conta Diego Ribeiro, engenheiro que estuda o idioma há cinco anos. “Para aprender, é preciso paciência, imaginar que você é como uma criancinha que está aprendendo tudo do zero”, diz.

FALAR CONFORME A MÚSICA

Talvez o fato de ser uma língua tonal seja o aspecto linguístico mais conhecido do mandarim. Mesmo quem nunca o estudou já ouviu por aí que a pronúncia correta das palavras depende não apenas das consoantes e vogais, mas também da entonação usada ao pronunciar cada sílaba. De fato, uma das maiores adaptações necessárias ao se aprender chinês é a de, em um primeiro momento, conseguir diferenciar os tons e, depois, ser capaz de pronunciá-los corretamente. A professora e tradutora Verena Veludo Papacidero dá uma dica: “Ouvir é um exercício essencial. É preciso lidar com os bloqueios na hora de ouvir, uma tarefa que não é tão simples assim”. Ela alerta que devemos tomar cuidado para não tentar reproduzir a língua chinesa com os sons da língua materna, um fenômeno muito comum no aprendizado de idiomas: “As transferências da língua materna influenciam não apenas a pronúncia, mas também o aprendizado da gramática”, adverte ela. Carlos, por outro lado, lembra que algumas comparações podem nos ajudar a entender os tons: “A pronúncia do primeiro tom é como ir ao médico, ele pedir pra você abrir a boca, e você falar: ‘aaaaa…’”, exemplifica. Para ele, como há de fato algo de musical no mandarim, é essencial entender ideias básicas, como o próprio conceito de tom: “Antes de estudar os tons, é importante ter uma noção do que é grave e agudo”.

Quando já se consegue identificar e pronunciar os tons em sílabas isoladas, é hora de treinar palavras e frases, para que se consiga uma pronúncia mais fluida e natural. Nessa etapa, além de ouvir com muita atenção, é indispensável repetir várias vezes. “Ler as frases em voz alta, enfatizando o tom, sinto que me ajudou muito a reproduzir a entonação quando converso com as pessoas. Ler em voz alta, bem devagar, até que se esteja confortável para falar numa velocidade natural”, diz Carlos.

Além dos tons, alguns elementos da pronúncia chinesa podem ser facilmente confundidos por serem muito próximos, como os finais “eng” e “en”. Aqui, a dica é fazer exercícios de contraste: o aluno deve ouvir uma gravação e selecionar a alternativa da escrita correta em pinyin, o sistema de romanização do chinês. “Esse tipo de exercício é importante na comparação de fonemas parecidos e que têm apenas um traço distintivo”, diz Carlos. A professora Verena concorda, enfatizando que esses treinos “são necessários para que a pessoa possa entender e absorver as diferenças entre os sons”.

Um nível adiante, assim que o aluno já consegue manter pequenos diálogos, praticar com colegas e nativos é a melhor forma de aperfeiçoar a pronúncia e a fluência. “Quando fui para a China, com três anos de estudo de chinês, sabia bastante coisa, mas foi lá que desenvolvi a fala, a expressão oral”, conta Verena. Já o recifense Gabriel Bechara procurou contato com falantes nativos em sua cidade natal antes de sua primeira viagem à República Popular: “O centro de Recife é uma área portuária com muitos comércios de chineses, e lá eu pude ter um pouco mais de contato para treinar a língua”.

ADENTRANDO A FORTALEZA DA ESCRITA

Os ideogramas, formas escritas complexas, se tornaram objeto de fascínio e curiosidade para essa turma experiente, e permanecem como um constante desafio: “Eu me lembro da primeira vez em que consegui ler um parágrafo em chinês sem pinyin, me lembro dessa sensação de conquista muito grande”, conta Verena. Nesse ponto, é preciso estudar as bases da escrita e a composição dos caracteres antes de se jogar em listas enormes com muitas palavras. “É importante saber de onde veio a escrita, o caminho da formação dos quatro tipos principais de caracteres. Fora isso, é preciso ter em mente a configuração de cada ideograma dentro de um quadrado imaginário e os traços da escrita chinesa, que são fundamentais, porque sem eles fica ainda mais difícil escrever corretamente”, diz Verena. Carlos defende que conhecer a composição dos caracteres ajuda muito na sua memorização: “Saber como um ideograma é formado, conhecendo os processos de composição, dá uma sensação de empoderamento ao aluno, o cenário mais produtivo da língua chinesa é quando existe um radical que indica o sentido e outro que indica o som do ideograma, e se você leva isso em conta, dá para aprender muitos caracteres.” Apesar disso, é preciso cuidado: “Os radicais usados para dar a dica fonética muitas vezes não têm o som do radical original, mas só uma pronúncia aproximada”, explica.

Treinar a escrita manual é outra importante ferramenta para aprender ideogramas novos e não se esquecer de como se escrevem os que já foram estudados: “Este é um problema para o próprio nativo chinês porque, com o uso dos celulares e computadores, eles escrevem cada vez menos à mão”, explica a professora Verena. Para Diego, “o ponto de maior dificuldade foram os caracteres, porque uma coisa é você digitar no computador, mas pegar a caneta e escrever no papel é outra história”. Para lidar com esse desafio, a dica é repetir algumas vezes um determinado ideograma no caderno, passar para os seguintes e recomeçar o processo, em vez de treinar muitas vezes o mesmo ideograma e não retornar mais a ele, já que a repetição é importantíssima para a memorização. Também compensa fazer mais sessões de estudo, ainda que curtas, em vez de estudar apenas uma vez por semana. Uma boa ideia é usar flashcards (cartões de memória, em papel ou virtuais) por alguns minutos, de preferência diariamente.

CRIANDO LAÇOS

Um traço em comum nos chama atenção nas histórias de nossos quatro amigos: Verena é professora e tradutora de chinês, viveu e estudou na China e agora continua seus estudos de literatura chinesa no mestrado, em uma trajetória de anos de dedicação. Aprendendo chinês, o engenheiro eletricista Diego Ribeiro pôde mergulhar no mundo dos filmes orientais, livros e jogos chineses que amava desde criança: “Eu pensava: ‘um dia vou aprender mandarim, vou para a China, vou conhecer os lugares que vi no Romance dos Três Reinos [clássico da literatura chinesa]’”. E ele conheceu, mesmo.

Carlos Ribeiro, adjunto administrativo, representou o Brasil no Top 15 da etapa mundial do “Chinese Bridge”, concurso de proficiência em língua chinesa, e conquistou o segundo prêmio da competição em 2019. O mandarim também mudou a vida de Gabriel Bechara, consultor comercial: “Ter me mudado para São Paulo, viajado à China algumas vezes e estar trabalhando em uma empresa chinesa são coisas que não teriam acontecido [sem o mandarim]”. Ou seja, em todos os casos, criar vínculos afetivos, estabelecer compromissos e projetos envolvendo a língua chinesa deram força a esses quatro experts. Tendo seus esforços recompensados, colhendo os frutos de sua jornada, eles agora se sentem ainda mais ávidos pelo conhecimento. Nada os poderá deter!