A CHINA RECEBEU A DOUTRINA DE BUDA HÁ DOIS MILÊNIOS, TRANSFORMOU-A A PARTIR DAS PRÓPRIAS TRADIÇÕES E HOJE ABRIGA A MAIOR PARTE DOS BUDISTAS DO MUNDO

Por Janaina Rossi Moreira

O budismo está de tal maneira identificado com a China que há quem pergunte se Buda seria chinês. Não é verdade. Sidarta Gautama nasceu na região do Himalaia. No entanto, foram os chineses os grandes responsáveis por disseminar a filosofia religiosa por todo o leste asiático. Os habitantes do Império do Meio desenvolveram uma identificação profunda com esse movimento que prega a libertação do próprio “eu”. Os preceitos, mais do que incorporados, foram digeridos pela cultura chinesa e vêm, há dois milênios, interagindo com a visão de mundo, as artes e a política da sinosfera.

O sistema de matriz indiana é a terceira das grandes correntes filosófico-religiosas da China. As outras são o confucianismo e o taoismo, tendo este ajudado a moldar a face da vertente chinesa do budismo.

O SONHO DO IMPERADOR

Os primeiros ecos do ideário budista alcançaram a China pela Rota da Seda, na bagagem de viajantes da Índia e da Ásia Central – que, aliás, era budista antes do surgimento do Islã. Mas a tradição nos diz que foi o imperador Liu Zhuang (28–75) quem de fato plantou o budismo em solo chinês. Diante da visão de um gigante dourado que descia do céu envolto em luz e se aproximava do seu trono, o segundo imperador da dinastia Han Oriental (25–220) mandou reunir os conselheiros. Estes lhe disseram que se tratava de uma manifestação de Buda, o que teria bastado para despertar no monarca o interesse pela doutrina. Mandou, então, trazer sutras da Índia e construiu o primeiro templo budista em solo chinês.

Ao longo dos cinco séculos seguintes, o budismo se estabeleceu entre os chineses, adquirindo características próprias e recebendo influência, sobretudo, do taoismo, a famosa filosofia exposta no Dao De Jing, de autoria atribuída a Laozi.

RELIGIÃO OU FILOSOFIA

Há quem acredite que o budismo, assim como as correntes fundadas por Confúcio e Laozi, deva ser classificado como filosofia, não como religião propriamente dita. É possível encontrar pessoas que professam determinado credo combinando-o a uma visão de mundo budista, sem enxergar nessa postura nenhum conflito. Sem entrar no mérito da tendência à customização religiosa que caracteriza nossa época, um dos elementos que mais conflitam com a nossa ideia de religião talvez seja o fato de que não há exatamente um “Deus” budista. Como lembra o historiador André Bueno, algumas vertentes chinesas concluíram que uma “gênese” – e também um “apocalipse” – são noções pontuais, associadas, portanto, à finitude. Sendo o universo infinito, falar de uma “criação” e, consequentemente, de um “Criador”, é problemático. É preciso notar que estamos nos valendo de uma visão ocidental para definir os conceitos. Isso também é – bastante –problemático. Nossos critérios divergem sensivelmente da mentalidade asiática, e tendemos a classificar, separar, compartimentalizar. A concepção chinesa é mais fluida e dinâmica.

No seu nascimento, o budismo questionou a ordem social do hinduísmo, do qual manteve traços importantes, como a crença na reencarnação. Rompendo com o sistema de castas, defendia que a ascensão espiritual era uma possibilidade humana, e que o caminho para atingi-la era mais simples e direto. Acessível a qualquer pessoa, a libertação se tornou “democrática”, universal e para todos.  Foi essa característica que permitiu à doutrina não permanecer circunscrita ao âmbito indiano. Aliás, foi no budismo que surgiu a figura dos pregadores, no intuito de converter mais pessoas e mostrar ao resto do mundo o caminho da salvação. Ensaiou-se um movimento rumo ao Ocidente – sobretudo por intercâmbios com o universo grego –, que acabou arrefecendo. Foi realmente na China que o budismo encontrou seu principal centro de irradiação. Mesmo na época em que havia praticamente desaparecido em sua terra natal, continuava a se consolidar entre os chineses, impregnando-se de sua cultura e adquirindo um caráter mais cosmopolita.

BUDISMO À CHINESA

Foi só nos séculos 4º e 5º, bem depois da lendária visão do imperador Liu Zhuang, que o budismo começou de fato a se difundir na China. Embora o povo se identificasse com a nova doutrina, esta encontrava empecilhos para ser aceita no meio intelectual principalmente por representar, aos olhos dos eruditos, uma ameaça às milenares tradições “genuinamente” chinesas. O receio tomou forma de questionamentos bastante válidos aos pressupostos budistas. Eis o que enseja a influência do taoismo e da visão de mundo local, que acabaria por conceder a “cidadania” chinesa à filosofia de origem indiana. Os adeptos do budismo reagiram com a criação de uma escola eminentemente chinesa: o budismo 禅 chán. No Japão, seria transformada no zen-budismo, palavra a que nós, aqui no Brasil, estamos mais familiarizados. Altamente influenciado pelo taoismo, o chan propõe o autocultivo, que (re)integraria o “eu” ao Universo. Ao fim do processo, a existência se dissolve no cosmo, formando um continuum e prescindindo da divindade. De cara, identificamos traços fundamentais do taoismo “de raiz”, como: o individualismo, a noção de unidade-interdependência de todas as criaturas, a valorização do instante presente e da presença (também um pilar da prática da meditação), o culto aos ancestrais e a harmonia com a Natureza. O budismo se imiscuiu a tal ponto no taoismo para criar o chan que este, muitas vezes, é identificado como uma doutrina à parte do próprio budismo. E mesmo o taoismo só passa a ser concebido como religião centenas de anos depois da morte de Laozi, e após fundir-se a elementos budistas.

NOS BRAÇOS DO POVO

Há, porém, outra face do budismo chinês, de viés mais popular, que mantém a interlocução com o Divino por intermédio, justamente, de uma série de divindades, além de festivais, costumes e lendas. Seja como for, o budismo se mantém cheio de vitalidade, superando períodos de baixa e até de perseguição. Seus ecos estão por toda parte, da literatura – o mote do clássico Jornada para o Oeste é a peregrinação à Índia para buscar sutras sagrados –, à arquitetura e às artes, passando pela sofisticada culinária vegetariana e até pelo horóscopo: uma das lendas mais famosas conta que cada signo corresponde, na ordem, aos animais que responderam ao chamado de Buda.

O GORDUCHO SORRIDENTE

Os historiadores admitem que Sidarta Gautama, o “Buda histórico”, viveu aproximadamente entre 563 a.C. e 483 a.C. Mas nem todas as imagens cultuadas nos templos budistas representam o homem que caminhava pelo norte da Índia na mesma época em que Confúcio (551 a.C.–479 a.C.) e Laozi (601 a.C.–531 a.C.) andavam pela China.

Os religiosos acreditam que existiram vários Budas num remotíssimo passado, e que muitos mais ainda nascerão no futuro, daí a expressão “Mil Budas”. Uma dessas entidades não históricas é Maitreya, o “Próximo Buda”, que, segundo a crença, nascerá na Terra quando a humanidade tiver esquecido os ensinamentos de Gautama.

Originalmente representado com aparência nobre e ascética, Maitreya foi sincretizado com uma divindade do panteão popular chinês e, a partir do final do primeiro milênio, começou a ser retratado como um gorducho sorridente, simbolizando uma era futura de plenitude e abundância. Essa imagem disseminou-se de tal forma fora da China que, hoje, é a figura de Buda mais recorrente no imaginário ocidental.

UM BUDA PARA OS ROMANOS

Por André Bueno

Na gruta 16 do complexo Yungang, no norte da China, há uma estátua do século 5º, feita para receber os estrangeiros, especialmente os romanos. A escultura do Buda Akshobhya proporciona ao visitante uma experiência iconográfica que traz elementos greco-romanos, indianos e, claro, chineses.

Yungang é um complexo monumental de cavernas-capela e uma das primeiras tentativas de diálogo entre a iconografia budista indo-mediterrânea e o imaginário cultural chinês. Situado na atual Datong, a aproximadamente 350 km a noroeste de Pequim, abrigava a antiga cidade de Pingcheng, uma das capitais da dinastia Wei do Norte (398–493). As grutas começaram a ser construídas no reinado de Wencheng (452–465). Hoje, temos 20 grutas maiores, subdivididas em 250 menores, onde foram esculpidas cerca de 50 mil imagens budistas.

A estátua central na Gruta 16 traz aspectos de uma iconografia intercultural em seus 13,5 metros de altura. Analisá-la nos permite supor que tenha sido construída para dialogar com as “nações do Ocidente”, em um momento em que tanto o império chinês como os budistas se firmavam no panorama mundial.

Graças a certas particularidades do complexo de Yungang, podemos imaginar que a presença desse Buda, com suas vestimentas e atributos, tem uma conexão iconográfica direta com o motivo do Buda em pé de Gandhara (noroeste do subcontinente indiano), inspirada no modelo de Augusto pater familias, culto difundido por todo o império romano.

Esse Buda é apaziguador e receptivo, de características marcadamente “ocidentalizadas”. Seus detalhes anatômicos, bem como a toga e os gestos rituais (mudrás), fazem crer que há razoável inspiração, direta ou indireta, no modelo romano. Isso porque Akshobhya representaria aquele que recebe os estrangeiros em paz.

As características da estátua – a postura em pé, o gestual, a toga, o rosto quadrado e os olhos grandes – teriam sido pensadas para criar identificação com esses ocidentais, propondo-lhes a paz e a receptividade garantidas por uma autoridade “imperial” e religiosa – o Buda.

A Gruta 16 é um exemplo da magnífica iconografia intercultural que o budismo chinês nos legou. Reflexo das diversas experiências em tentar comunicar os símbolos para as mais diversas culturas, sua riqueza merece ser revelada, por mostrar um quadro da antiguidade ainda pouco conhecido. Um mundo que ia de Roma à China, com trocas intensas e férteis diálogos materiais e intelectuais.

 

André Bueno é professor de História Oriental na UERJ