Cenário do filme Lanternas Vermelhas (1991) Zhang Yimou, Shanxi
COMO UM ROMANCE ACLAMADO VIROU UM DOS FILMES MAIS MEMORÁVEIS DO CINEMA MUNDIAL

Por Alessandra Scangarelli Brites e Janaina Rossi Moreira

Se há alguém que pode mesmo dizer “você me completa”, é a literatura para o cinema. Ou vice-versa, afinal, essas duas artes tão diferentes vivem uma delicada – e prolífica! – relação de inspiração e influência mútuas, que começou pouco depois da partida do trem dos Lumière: a sexta arte embarcou logo, e entre as próximas paradas já estava, por exemplo, uma inesquecível adaptação de Viagem à Lua, de Júlio Verne (1902). Há algum tempo, a via é de mão dupla, com livros sendo gestados a partir de filmes. A conexão entre as páginas e a tela grande é tão intensa e complexa que, no mundo inteiro, há linhas de pesquisa científica que tentam desvendar a interação entre esses dois campos artísticos.

COMO NASCEM OS CLÁSSICOS

Criadores de ambas as modalidades se aliam para levar uma história a outros públicos, territórios e idiomas, chamando a atenção para temas que, provavelmente, passariam despercebidos sem essa união de forças. Algumas vezes, o resultado é arrebatador.

O escritor Su Tong e o cineasta Zhang Yimou tiveram a mesma ideia: pensar a sociedade chinesa sob uma perspectiva feminina – o que já os torna artistas singulares em uma sociedade de raízes fortemente patriarcais. O romance de Su, 妻妾成群 Qīqiè Chéngqún (“Esposas e concubinas”, em tradução livre), publicado em 1989 e ainda sem tradução em português, foi a matéria-prima para Zhang Yimou realizar, dois anos depois, um de seus maiores trabalhos: Lanternas vermelhas, produção premiada em diversos festivais e indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Nos anos 1930, a jovem Songlian se torna concubina do rico Chen Zuoqian. O sonho de uma vida confortável é triturado pela dura realidade da nova família. O filme encantou espectadores e pesquisadores pelo mundo, projetando Su Tong e sua narrativa densa e contestadora.

De dentro do mundo íntimo das mulheres, a trama revela uma sociedade altamente hierarquizada, onde as relações de poder consumiram, por séculos, a vida de muitos. É certo que, com a fundação da República Popular em 1949, a China passou por transformações políticas, econômicas, sociais e culturais significativas, mas mesmo no presente há desafios a superar nas duas últimas esferas – que só a dialética dos fatos históricos pode explicar.

Aqui vale apresentar brevemente as trajetórias de Su e Zhang, dois ícones chineses da literatura e do cinema, e entender como Lanternas vermelhas pôde traduzir para o mundo, com tamanha fluência, a sociedade chinesa de quase 100 anos atrás.

Lanternas Vermelhas, Shanxi
O CRIADOR

Nascido em 1963 em Suzhou, província de Jiangsu, Su Tong tem obras traduzidas para o inglês, o francês, o alemão e o italiano e recebeu em 2009 o Man Asian Literary Prize, versão asiática do Booker Prize. Segundo Li Hua, coordenadora do programa chinês da Montana State University e pesquisadora de literatura moderna e contemporânea da China, o autor se vale de técnicas literárias variadas para desenvolver enredos carregados de dramaticidade, imagens exuberantes e lirismo. Li Hua também propõe a divisão das obras de Su em quatro grandes categorias: ficção neo-histórica, ficção sobre o amadurecimento, ficção sobre espaços urbanos modernos da China e narrativas sobre a vida das mulheres.

Su Tong vem de família modesta. Seu nome original, Tong Zhonggui, significa “leal” e “precioso”, consoante a tradicional esperança familiar de um futuro de sucesso para o filho. Já o pseudônimo Su Tong significa, conforme o próprio autor, “filho de Suzhou”. Formou-se em literatura chinesa pela Universidade Normal de Pequim em 1984 e hoje é um dos escritores mais celebrados de seu país. Com a pena da sutileza, e graças à sua excepcional habilidade para insinuar e sugerir, Su nos diz mais sobre a China moderna do que escritores muito mais explícitos.

O RECRIADOR

O futuro cineasta Zhang Yimou nasceu em 1950 na cidade de Xi’an, província de Shaanxi, e está entre os poucos realizadores chineses cujo trabalho foi amplamente reconhecido em diversos países. É também produtor e roteirista, com experiência na direção de fotografia em várias produções. Também fez trabalhos esporádicos como ator e foi, inclusive, premiado por seu papel em Poço velho, filme de 1987 dirigido por Wu Tianming.

Faz parte da Quinta Geração de cineastas chineses, período de ressurgimento artístico na China, segundo alguns autores. Estreou na direção em Sorgo vermelho, em 1987 (também adaptação de uma obra literária, no caso, o romance homônimo de Mo Yan). Com três indicações ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, foi premiado em Veneza, Cannes e Berlim. Zhang dirigiu, ainda, as cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, aclamadas internacionalmente.

A resiliência do povo chinês – sobretudo das mulheres – frente às adversidades está entre seus grandes temas, abordados com uma técnica cinematográfica memorável em que se destaca o rico uso das cores. Para Zhang, a cenografia é o recurso estilístico supremo: elementos visuais são explorados ao máximo como estratégias narrativas. E não é à toa que essa é uma de suas marcas. Nos anos 1960 e 1970, interessou-se por pintura e fotografia, e foram seus trabalhos nessas áreas que lhe garantiram a vaga para a Academia de Cinema de Pequim, onde se formou em 1982. Após a graduação, participou, como diretor de fotografia, das produções Um e oito, de Zhang Junzhao, e Terra Amarela, de Chen Kaige, sucessos que ajudaram a propagar por todo o mundo o novo cinema chinês.

ESMIUÇANDO ENTRELINHAS

É possível identificar no romance de Su Tong três temas principais: a tragédia de Songlian, a decadência de um sistema e a luta pela realização de certos desejos. Na adaptação cinematográfica, Zhang Yimou opta por criar uma cenografia que reordena o tempo e o espaço a partir do contexto histórico-social. Com essa manobra, o que vemos em Lanternas vermelhas é uma versão “alegorizada” do romance. É nessa manobra – cuja eficiência se confirmou com o sucesso do filme e sua consolidação como obra clássica – que fica mais evidente o valor agregado pelo domínio da linguagem cinematográfica à recriação da obra literária.

A habilidade de Zhang em inserir a história original em um espectro mais amplo traz para a esfera racional algumas mensagens que até então ficavam nas entrelinhas. Graças à abordagem certeira da temática e a uma clara ideia de como aproximá-la do público, a alegoria do diretor escancara a atmosfera hostil e competitiva da convivência entre as várias mulheres da família e, dessa forma, expõe as ambivalências da cultura tradicional e da própria natureza humana. Resta ao público desfrutar e refletir.

Para conseguir essa proeza, o filme toma liberdades em relação ao romance que o inspirou. A versão para a grande tela tem uma simbologia própria, mudanças de cenário, enredo, estrutura e perspectiva narrativa. Falemos de alguns desses aspectos com o comedimento necessário para não estragar a experiência de quem ainda não assistiu.

Enquanto a história original se passa numa das verdejantes mini-Venezas do Sul – como Suzhou, terra natal de Su Tong –, no cinema, o ambiente é o interior poeirento do Norte: a locação foi em Shanxi, perto da cidade histórica de Pingyao, em uma mansão no meio da terra amarela feita à imagem e semelhança da Cidade Proibida (veja quadro), fortificada e dividida em incontáveis pátios sem horizonte. Ou seja, o cineasta reproduziu na tela a aridez da paisagem interna das personagens. Se a casa dos Chen de Su Tong estava situada na amena planície sulista, Zhang Yimou destitui o cenário de todo vestígio de aprazibilidade e frescor. Nada das pérgulas, cerejeiras e romãzeiras, tampouco da luz do luar refletida no antigo poço do pátio. O que impera é a massa claustrofóbica do casario cinzento e o loesse ressecado, metáfora perfeita para o rígido clã tradicional, isolado do mundo exterior.

Vale mencionar o relevo que o filme dá, já desde o título, ao simbolismo das lanternas. Se no romance elas surgem apenas aqui e ali, transmudam-se na tela em símbolo central da ritualização que aparece na trama e captam, com seu acender e apagar, a atenção e os sentidos do público. O diretor optou por um uso ritualístico e codificado das lanternas vermelhas para melhor caracterizar o conflito interno entre as esposas e concubinas na disputa pelo poder, por favorecimentos e atenção do marido.

A ARTE INFIEL

Duas perspectivas distintas podem nortear a adaptação de uma obra literária para a linguagem cinematográfica. Uma delas pauta-se pela lealdade ao material original, respeitando – e, por vezes, reverenciando – o conteúdo de maneira mais rigorosa e emulando o estilo do texto na linguagem audiovisual. Mas a opção radical de Zhang Yimou é pela criatividade, pela recriação desse conteúdo como quem multiplica a luz do romance em outros feixes coloridos, através do prisma da total liberdade de estilo. O início da carreira do cineasta coincidiu com os primeiros anos da política de reforma e abertura na China, quando a produção cinematográfica do país testava uma nova estética.

Com suas cores fortes, o realizador acaba também por oferecer uma visão da história chinesa palatável para o Ocidente, ao mesmo tempo que promove uma internacionalização eficaz ao preencher a lacuna cultural entre sua nação e o mundo. Seu arrojo acendeu, há quase 30 anos, o pavio da mudança, e outras transformações estão por vir, mas não antes de o desenvolvimento da indústria cinematográfica chinesa atingir um ponto de equilíbrio entre a influência ocidental e sua própria essência particular. Aí surgirão outras obras-primas capazes de cativar novas plateias, a começar pelo próprio espectador chinês.

O COMPLEXO DA FAMÍLIA QIAO

A antiga mansão dos Qiao serviu de locação para o filme Lanternas vermelhas e hoje é uma grande atração turística da província de Shanxi, no Norte chinês. Outrora chamada de Pavilhão Zaizhong, a construção do século 18 é hoje um museu com um acervo de 5 mil peças dos séculos 14 a 20, entre artefatos de porcelana, bordados em seda, pinturas e obras caligráficas. O terreno ocupa 9 mil m², com 4 mil m² de área construída, 20 pátios e mais de 300 cômodos. A arquitetura, a decoração e o mobiliário são suntuosos e revelam a riqueza da família Qiao, cujo membro mais ilustre foi o financista Qiao Zhiyong, falecido em 1907. Os tesouros preservados no Complexo dos Qiao permitem ao visitante conhecer os costumes, a cultura e os hábitos dessa família aristocrática e do povo de Shanxi nos últimos séculos do Império Chinês.

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