FOI EM DUNHUANG, OÁSIS DA ANTIGA ROTA DA SEDA, QUE SE DESCOBRIU O MAIOR ACERVO DE ARTE BUDISTA DO MUNDO, ALÉM DE UM PATRIMÔNIO MULTICULTURAL SEM EQUIVALENTES

Por Sun Lidong

Na manhã de 22 de junho de 1900, o monge taoísta Wang Yuanlu levantou cedo para continuar retirando areia de uma gruta em Mogao. Seria um dia como outro qualquer para ele e seu ajudante se não percebessem, por acaso, que uma das paredes emitia um som oco. Curiosos, os dois homens começaram a quebrá-la e descobriram, sob o reboco de adobe, uma porta lacrada. Quando a abriram, custaram a acreditar no que viam. Uma câmara secreta de 2,6 metros de comprimento por 3 metros de altura, abarrotada com 60 mil sutras budistas, manuscritos, bordados, caligrafias e pinturas.

Ali, cobertas por 900 anos de poeira, havia relíquias dos séculos 4º a 11 e de valor inestimável para entender a China e a Ásia Central. Era uma cápsula do tempo repleta de informações sobre história, geografia, religião, economia, política, ethos nacional, língua, literatura, arte, ciência e tecnologia, compondo uma verdadeira “enciclopédia da antiguidade”. A descoberta acidental pôs fim ao sossego secular de Dunhuang. A novidade se espalhou de boca a boca, e a “Gruta dos Sutras” logo entrou no mapa de exploradores orientais e ocidentais. O material encontrado naqueles 7 metros quadrados era tão rico que ainda faria surgir uma nova ciência: a “dunhuangologia”.

 NA ENTRADA DO DESERTO

A caravana de camelos, no seu passo lento, navega balouçante pelo mar de dunas. O guizo das cáfilas ressoa nessa região há pelo menos 2 mil anos, desde que se abriu a Rota da Seda. Por sua localização na entrada do deserto, o oásis de Dunhuang foi, desde muito cedo, escala obrigatória nesse corredor entre civilizações. Era ponto de encontro de mercadores e viajantes, que negociavam tecidos e porcelanas da China, gemas e especiarias do Ocidente, num vaivém incessante. A atividade comercial e o trânsito de pessoas também contribuíram para o florescimento do intercâmbio cultural. Segundo estudiosos, existem apenas quatro matrizes culturais da humanidade que se equiparam em antiguidade, alcance geográfico, autonomia e influência: a chinesa, a indiana, a grega e a islâmica. E só há um lugar do mundo onde essas quatro matrizes se encontram: o oeste da China, onde está Dunhuang.

Assim que chegou àquela região, no ano de 366, provavelmente acompanhando um grupo de mercadores, o monge Le Zun avistou, no penhasco à sua frente, uma estranha luminescência. Sob o sol escaldante, viu naquele brilho dourado o resplendor de mil budas e decidiu que não seguiria viagem. Ficaria ali para escavar, no paredão de pedra, uma gruta-santuário para meditação. Mal sabia ele que estava inaugurando uma tradição em Dunhuang. Nos três séculos seguintes, à medida que o budismo ganhava força entre os nobres da China, grutas e mais grutas foram construídas. Por volta do século 7, na dinastia Tang, somavam mais de mil em toda a região.

Até hoje foram descobertas 812 grutas. Delas, 735 transformam a escarpa oriental dos Montes Mingsha em uma espécie de favo de pedra: são as chamadas “Grutas de Mogao”. Escavadas durante cerca de mil anos, espalham-se em até quatro pavimentos por uma área rochosa de 1.680 metros de comprimento e 50 metros de altura. Têm, juntas, um total de 45 mil metros quadrados de pinturas murais e 2.415 estátuas de argila, o que faz delas o maior e mais rico repositório de arte budista existente no mundo.

COLORIDO MILENAR

O patrimônio artístico e arquitetônico de Dunhuang impressiona até o visitante mais leigo. Nas figuras humanas, no uso das cores e na estrutura dos traços é nítida a confluência de China, Índia, Ásia Central e Ocidente. As grutas descortinam um panorama da arte budista chinesa e do intercâmbio com os países do sol poente.

A arquitetura difere conforme a época da construção de cada gruta. O tamanho também varia muito – a maior tem 268 metros quadrados e a menor, menos de 1 metro quadrado. As pinturas murais, com uma temática riquíssima, recobrem as paredes, o teto e o oratório. As peças mais extraordinárias remontam, quase sempre, à dinastia Tang (618–907). Em uma das pinturas, o artista usou verde, castanho e bege para retratar um imperador curvilíneo e ricamente vestido, atento aos ensinamentos do darma. As tintas, feitas com uma mistura de pigmentos minerais e orgânicos, são o segredo do colorido milenar. A composição dos murais da dinastia Tang é grandiosa, as figuras humanas são traçadas com delicadeza e minúcia, em poses e trajes realistas. O pintor se inspira na vida real para retratar a sua visão do paraíso búdico e, de quebra, oferece um vislumbre de como os antigos caçavam, cultivavam, teciam, se locomoviam, cantavam e dançavam mil anos atrás.

As dinastias Sui (581–618) e Tang foram a era de ouro da escavação de grutas. Mais de 300 dessa época estão preservadas. A de número 96, a mais alta de todo o complexo de Mogao, foi construída no início do período Tang. Seu alpendre de madeira vermelha, de 45 metros de altura, visto de longe, parece um magnífico castelo de nove andares apoiado no penhasco. Esse edifício emblemático resguarda a maior escultura de Dunhuang, uma imagem do Buda Maitreya de 35,5 metros de altura, esculpida no paredão rochoso.

Nos três séculos que se seguiram à queda dos Tang, a construção de novas grutas foi diminuindo gradualmente. Adeptas do budismo, as famílias que governavam a região pagavam quantias vultosas para reformar as grutas, cobrindo com novas pinturas os murais das dinastias anteriores. As figuras humanas dessa época retratavam as senhoras benfeitoras em tamanho natural, com maquiagem e indumentária elegante. Durante esse período, por influência do budismo tibetano, os temas tântricos também ganharam espaço nos murais.

 UMA VOZ SOLITÁRIA 

No dia em que chegou às Grutas de Mogao, na última década do século 19, o monge Wang Yuanlu só encontrou um monte de ruínas. Após a abertura das vias marítimas, a Rota da Seda terrestre esvaziara-se completamente. A construção de grutas havia cessado 500 anos antes, e muitas já estavam cobertas de areia. O taoísta reportou de imediato sua descoberta às autoridades, na esperança de preservar os antigos manuscritos, mas, àquela altura, nenhum órgão oficial levou o pobre monge a sério.

Wang insistiu por sete anos, sem sucesso. Já estava perdendo as esperanças quando recebeu a visita do arqueólogo britânico Marc Aurel Stein. O estrangeiro conquistou a confiança do monge e, em duas viagens realizadas em 1907 e em 1914, levou consigo quase 10 mil peças, incluindo um exemplar do Sutra do Diamante, o livro impresso mais antigo do mundo, datado do ano 868. Em 1908, o sinólogo francês Paul Pelliot, após três semanas de pesquisa no local, pagou um valor irrisório para retirar dali 6,6 mil obras que havia selecionado, justamente as mais valiosas em termos linguísticos e arqueológicos. Na atualidade, a maior parte desses tesouros integra o acervo de museus e bibliotecas do Reino Unido e da França.

A dispersão das relíquias de Dunhuang causou um prejuízo incalculável ao patrimônio histórico e cultural chinês, mas, na prática, chamou a atenção de pesquisadores do Oriente e do Ocidente, que passaram a organizá-las e estudá-las de diferentes ângulos. Pelliot e sua equipe foram os primeiros a numerar as Grutas de Mogao, produzir abundantes registros fotográficos e descrever seu interior em detalhes. Os relatórios de pesquisa e os artigos científicos escritos por Pelliot e Stein lançaram as bases da dunhuangologia.

Em 1944, com a fundação do Instituto Nacional de Arte de Dunhuang, o longo abandono das Grutas de Mogao chegou ao fim. A comunidade acadêmica chinesa iniciou então um trabalho sistemático de restauração, cópia, catalogação e pesquisa. Em 1987, tornou-se um dos primeiros locais da China a ser declarado Patrimônio Cultural da Humanidade. Hoje, o projeto e-Dunhuang usa alta tecnologia para montar um arquivo digital das grutas, murais e outras relíquias. Mais de 180 grutas já foram digitalizadas – em 30 delas é possível um tour virtual com imagens de alta resolução. Agora, um clique do mouse permite visualizar até mesmo os detalhes difíceis de enxergar pessoalmente.

Em 1994, a Biblioteca Nacional do Reino Unido lançou o “Projeto Dunhuang Internacional” para facilitar o acesso integrado às peças retiradas da “Gruta dos Sutras” e espalhadas pelo mundo. O projeto inclui 22 instituições em mais de 10 países, entre os quais China, Inglaterra, França, Rússia, Alemanha e Japão. O acervo digital está disponível on-line e pode ser usado livremente para fins educacionais e de pesquisa. Qual não seria o alívio do monge Wang se soubesse que o tesouro descoberto por ele iria um dia renascer dessa forma.

VEJA VOCÊ MESMO

Ainda sem data definida para viajar ao oeste chinês? Que tal conferir o projeto e-Dunhuang?