DIZ-SE QUE FOI PARA CURAR UM CORAÇÃO PARTIDO QUE CAMILO PESSANHA SE EXILOU EM MACAU, ONDE TERIA A FAMA, O VÍCIO, UM FILHO E UMA NOVA PAIXÃO

Por Janaina Rossi Moreira

É o solo chinês que abriga os restos mortais do maior poeta simbolista da língua portuguesa. Camilo Pessanha (1867–1926) está enterrado ao lado do filho e da nora, em uma sepultura modesta no Cemitério São Miguel Arcanjo, em Macau.

Nascido em Coimbra, filho de um aristocrata e uma mulher humilde do campo, formou-se em Direito em 1891, em sua cidade natal. Passaria cerca de metade dos seus 58 anos de vida no enclave português da Ásia. Após uma relação inicialmente conturbada, Pessanha foi conquistado pela cultura chinesa, abraçando aquela terra distante como seu verdadeiro lar.

CANÇÃO DA PARTIDA

Foi para abrandar as dores de uma desilusão amorosa que rumou para Macau em 1894. Essa é a versão mais romântica e difundida, então fiquemos com ela. Reforça-a, inclusive, o poema “Canção da partida”, escrito às vésperas da viagem. Em um dos trechos, o poeta diz que traz o coração fechado como um cofre, onde leva a última missiva da mulher amada. De fato, é por meio de uma carta que o grande amor de Camilo justifica a recusa ao pedido de casamento, por já ser comprometida.

A jovem em questão era Ana de Castro Osório, pedagoga, jornalista, editora e escritora. Ana foi ainda uma das primeiras feministas de Portugal, tendo desempenhado um papel importante, por exemplo, na elaboração da lei do divórcio. Essa mulher polivalente viria a ser também a responsável pela publicação em 1920 dos poemas de seu antigo admirador. Acredita-se que, não fosse a sua iniciativa, não teríamos Clepsidra, a única e cultuada coletânea dos versos de Camilo Pessanha.

O PAÍS PERDIDO

De início, Camilo só teve impressões negativas de sua nova casa. De saúde e alma frágeis, estranhava o clima, os costumes, as pessoas. Aquela terra não correspondia à imagem de paraíso distante e exótico que trouxera consigo.
Mesmo assim, Camilo prosperou. Em solo macaense exerceu diversas funções jurídicas e intelectuais. Foi advogado e juiz, além de professor de várias disciplinas: português, filosofia, geografia, história, cultura chinesa, direito, economia política. Teve atuação marcante no Liceu de Macau, fundado um ano antes de sua chegada. Reconhecido pela defesa de ideias avançadas, participou intensamente da vida cívica da colônia, e sua presença e opinião eram sempre solicitadas nos assuntos de interesse público. Também traduziu poesia chinesa e refletiu profundamente sobre o idioma, a arte e o direito da China.
Mas essa imagem de bem-sucedido convive lado a lado com a figura de um outsider. Atitudes controversas e desafiadoras dos costumes da sociedade macaense se aliaram a uma personalidade marcadamente sarcástica e à imagem de um homem sem energia, sem vontade e recluso – os chineses lhe deram o apelido de “morto-vivo”. De fato, Camilo é visto por alguns detratores – e mesmo por admiradores mais críticos – como um pessimista, um expoente do espírito decadentista e fin-de-siècle tantas vezes atribuído a outras figuras do Simbolismo.
Uma de suas maiores afrontas às normas sociais de seu círculo foi o atrevimento em manter uma ligação amorosa com uma concubina chinesa. Essa união era repudiada em razão de vários fatores, pois além de inter-racial envolvia diferenças sociais – a moça era de classe baixa – e questões religiosas e morais. Não era oficial nem regida pelos preceitos cristãos. Foi desse “amancebamento” que nasceu o único filho reconhecido, João Manuel de Almeida Pessanha. Adulto, tornou-se oficial da marinha mercante e se casou com uma chinesa. Além de João Manuel, o poeta haveria tido uma filha — que não reconheceu —, fruto da relação com uma mulher de origem portuguesa.
Um lugar-comum associado a Camilo Pessanha é o vício em ópio. Sua poesia, entretanto, não se deve ao uso do narcótico, pois começou a ser produzida antes do início da adição. Com cerca de 50 poemas mais conhecidos, ele não é exatamente um autor produtivo. Mas a qualidade compensa. Diz-se que reescrevia os textos obsessivamente, e chegou a esboçar uma coletânea, com indicações de quais poemas entrariam no livro e em que ordem. Exerceu influência não apenas sobre a geração de Fernando Pessoa, seu admirador declarado, como sobre a geração posterior – de José Régio e Branquinho da Fonseca, entre outros. Sua literatura é musical, reflexiva, de apuro formal aliado a uma profunda melancolia e ao pessimismo. Deixa patente a fragilidade física e emocional do poeta. Quanto à debilidade do corpo, teria sido diagnosticado com anemia palustre e, desde sua mudança para Macau, foi obrigado a passar algumas temporadas em Portugal para cuidar da saúde. Uma tuberculose, agravada pelos anos de intenso consumo de ópio, foi a causa de sua morte.
Já sua alma, que ele diz estar “há tantos anos morta” em carta do início da década de 1920, era sabidamente torturada. Rejeições amorosas – houve pelo menos uma antes da de Ana Osório –, desconsolo espiritual frente à incapacidade de nutrir fé em alguma força superior, o sentimento de não pertencimento que o acompanhou a vida toda, aonde quer que fosse, e até questões com a aparência fizeram seu espírito replicar a astenia de seu corpo.

AMOR MAIOR?

Embora já se tenha subestimado a influência dos ares e da cultura chinesa na obra do poeta, muitos dos que se dedicam ao estudo de sua produção afirmam que esta não pode ser desvencilhada da experiência do autoexílio. Camilo é Camilo porque viveu, sofreu, amou e criou no antigo enclave português. Em um artigo sobre Pessanha e Wenceslau de Moraes – ambos exilados no Oriente –, o professor brasileiro Paulo Franchetti, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), escreve que “o exílio foi sobretudo o lugar onde a sensibilidade artística ocidental [de ambos] se defrontou e buscou compreender o diferente.” No caso de Pessanha, o estudioso explica que os primeiros anos em Macau configuram uma saudade muito específica: acima de tudo, ela pressupõe que o que está distante ou perdido não pode mais ser recuperado, nem mesmo pela memória. A consciência dessa impossibilidade faz com que a dor da separação aumente cada vez mais e que a “energia vital” vá se esgotando. E talvez esteja ligada à “abulia” de que tanto acusam Camilo. De qualquer maneira, está na raiz da aversão pela nova terra, nessa primeira fase macaense.

O sentimento se transformou, principalmente graças ao estudo da língua, da cultura e da literatura chinesas, ao trabalho de tradução e à aquisição de obras de arte. Ao que parece, jamais chegou a se configurar uma relação apaixonada entre o poeta e o solo chinês. Mas há quem diga que o que se instaurou foi um amor real, com todos os altos e baixos, dificuldades e desafios cotidianos. Seja como for, após os primeiros anos em Macau, foi o Ocidente que Camilo Pessanha passou a enxergar como o lugar do desajuste. Rejeitava não só Portugal, mas a Europa como um todo, e recriminava o Oeste pela homogeneização cultural que impunha ao restante do globo.

O RESTO É SILÊNCIO

Apegado à boemia, desafiador nos costumes e paradoxal em comportamentos e declarações, Camilo gera polêmica. Se há quem defina como brilhante sua atuação no campo jurídico, outros o acusam de preguiçoso e negligente para com os compromissos profissionais. Uns elogiam a dedicação, o cuidado e a qualidade de suas traduções diretas do chinês, enquanto outros denunciam desconhecimento do idioma e eurocentrismo como deficiências desse trabalho. Seu descaso pelos preceitos morais também causou escândalo e antipatia à época; hoje há quem diga que era totalmente indiferente ao filho João Manuel. O que parece inquestionável é que era excelente professor. Acima de tudo, ergue-se, soberana, sua preciosa obra poética, cuja qualidade não dá muito lugar a dúvidas.

Parte dessa imagem conflituosa pode ser atribuída ao próprio Camilo Pessanha. Isolado, ele nunca se importou em desfazer equívocos, dar satisfações ou impedir a propagação de boatos e mistérios a seu respeito. Tampouco era dado a adulações. Sendo assim, as lendas e controvérsias sobre ele tomaram rumos próprios – e opostos, como dissemos, a depender dos ânimos de amigos e inimigos. Entretanto, no início desta década, uma boa parte da correspondência entre Camilo e o poeta Carlos Amaro veio à luz. Por essas cartas é possível entender melhor as incoerências de Pessanha quanto aos sentimentos por suas duas “pátrias” e por seu trabalho como tradutor e estudioso da cultura chinesa. Da paixão frustrada, ainda em Portugal, ao amor difícil e “cotidiano”, construído e testado dia após dia no outro extremo da Terra, nosso poeta parecia não ter mesmo lugar neste mundo. A nós, resta-nos seguir as pegadas de seus poemas rumo aos descaminhos das almas humanas.

TRADUÇÃO E ESPELHO

Camilo estudou chinês com afinco, mas reconhecia suas limitações. Pedia o auxílio de sinólogos experientes em suas incursões pela tradução. Comentadores traçam um paralelo entre sua atividade tradutória e a de Ezra Pound. Seu trabalho mais famoso nesse campo é Elegias chinesas, versão de oito poemas da dinastia Ming (1368–1644) para o português. Interessante notar que costumava escolher para traduzir peças que também reverberavam a sua própria visão de mundo ou experiência – basta ver o exemplo abaixo.

VII SOLEDADE

 

Deleita-me a solidão desta choupana…

Mas dói-me ao recordar vozes amigas.

Sim, geme o verdelhão, mas em país de exílio.

Conturba-me a cor da relva o coração, que remoça.

 

Desce o sol, em um poente de cirros amarelos.

Passam nuvens sobre o mar, – que é mais ferrete.

Segunda lua… . E, na algarvia dos grasnidos,

Oiço os gansos darem o alarme pr’a o regresso.