Taoísmo
AQUIETAR OS PENSAMENTOS PARA ESCUTAR A NATUREZA É UM DOS PRINCIPAIS ENSINAMENTOS DO TAOISMO, TRADIÇÃO MILENAR QUE TEM GANHADO FORÇA NO SÉCULO 21

Por Vinicius Tamamoto

Maio de 2020. Isolado em casa, converso pela internet com uma amiga. Por causa da pandemia que assusta o mundo, ela perdeu boa parte da renda e resolveu se mudar de São Paulo para o interior. “No mato parece que o tempo é outro”, constatou. A frase me levou instantaneamente ao taoismo, cujos ensinamentos partem exatamente da observação da natureza. Há cerca de 2,5 mil anos essa corrente filosófico-religiosa pede para que voltemos nosso olhar aos ciclos naturais a fim de encontrar respostas para questões universais tão complexas quanto o significado da existência. Os aprendizados obtidos são preciosos, principalmente para atravessar tempos tão difíceis como o que vivemos.

EM BUSCA DO TAO

Quando comecei a estudar o taoismo, precisei lidar com a minha dificuldade de abstração. Isso porque, até a adolescência, vivi intensamente o cristianismo e, depois que a religião parou de fazer sentido para mim, busquei me distanciar de tudo que não pudesse ser racionalmente comprovado. A primeira lição que aprendi foi que no pensamento oriental as fronteiras entre a lógica e o mistério são bem estreitas. Este é um entendimento importante para adentrar o universo taoista de coração aberto.

Havia, porém, outra percepção que me deixava com o pé atrás. Ao digitar “taoismo” no buscador, a internet nos leva a uma infinidade de sites com explicações sobre o significado de tao (ou dao, na transcrição em pinyin). A imagem idílica desse “caminho”, tradução literal de 道 dào, é um campo vasto para nomear tudo quanto seja coisa por aqui. Já até trabalhei em uma empresa homônima anos atrás. E, na era dos coaches, não é difícil encontrar um que ofereça seus conselhos sobre propósito se valendo do tao. O uso exacerbado e inadequado do termo acabou por esvaziar seu significado. Por isso, precisei me reconectar com as raízes do pensamento.

Nessa busca, comecei a ler o 道德经 Dào Dé Jīng (também conhecido como Tao Te Ching ou Tao-te King), o Livro do Caminho e da Virtude, obra de extrema importância para o taoismo. Diz-se que foi escrita por Laozi, um velho mestre cujo período de existência é incerto, algo entre os séculos 6º e 4º a.C. O primeiro grande historiador chinês, Sima Qian (século 2º a.C.), escreveu que três pessoas poderiam ser o Laozi histórico. Entre as hipóteses, a mais aceita é a de que o mestre tenha sido um funcionário da biblioteca da corte na dinastia Zhou. Contudo, não há evidências de que Laozi tenha existido de fato. Estudiosos acreditam que o Dao De Jing seja uma coletânea de aforismos de vários pensadores que viveram na China antiga. Seja como for, o que realmente importa é o legado dessa obra atemporal e a sabedoria nela contida.

O início da jornada é compreender o que é o tao, que, na realidade, não pode ser explicado em palavras. “Os caminhos sobre que se pode discorrer”, inicia o primeiro capítulo, “Não são o Tao”. Assim, as ideias de trilha, jornada ou mesmo destino, comumente associadas ao tao, não poderiam ser mais equivocadas. O conceito deve ser entendido como um princípio fundamental: o tao é o que regula todos os fluxos do universo, que estão, essencialmente, em equilíbrio.

DO QUE É FEITO O TAO

Ao observar a natureza e seus processos de transformação, os pensadores taoistas formularam um conceito muitíssimo conhecido mundo afora, o de yin e yang. Ele parte da constatação de que tudo no meio ambiente está em constante transformação, em padrões que se repetem: a luminosidade do dia e a escuridão da noite; as ondas que avançam até a praia e retornam ao mar; as montanhas que sobem ao céu e os vales que descem à terra. O yin está associado ao escuro e o yang, ao claro, mas a analogia pode ser transposta para qualquer outra dualidade, como leveza e peso, expansão e contração, suavidade e força. Em todos os elementos do universo há yin e yang, que podem ser observados em igual medida ou em proporções diferentes.

A combinação das forças primordiais forma circunstâncias, fenômenos e seres como nós, os humanos, que experimentamos a dualidade complementar ao simplesmente respirar – a alternância de inspiração e a expiração é o que nos mantém vivos. Mas nem sempre nosso pulso yin e yang está em harmonia interna ou com o do ambiente em que estamos inseridos. Para equilibrá-lo, os sábios taoistas desenvolveram práticas restauradoras. Surgem, por exemplo, o tai chi chuan, a acupuntura e todo o conhecimento da medicina tradicional chinesa.

AGIR DE ACORDO COM O TAO

“O tao nunca age, mas não há nada que não realize”, ensina o capítulo 37 em um dos conceitos mais famosos da tradição, o 无为 wúwéi. Traduzido como “inação”, o preceito não quer dizer – ao contrário do que parece – que não possamos agir, mas que devemos fazê-lo com o coração livre de intenções como poder, riqueza ou reconhecimento.

O caminho para alcançar o wuwei, segundo a filosofia, é a meditação. Através da quietude atingimos a consciência do que deve ser feito de forma fluida, seguindo os princípios da naturalidade. E se podemos atingir a não ação, podemos fazer tudo, assim como o tao. Quem age dessa forma contribui para o equilíbrio do universo. Quem não age, causa desarmonia. O ensinamento serve para todos, mas ao citar reis e senhores feudais, o capítulo intitulado “Como governar” deixa claro que originalmente era voltado aos governantes e anunciava que o político que se deixa guiar pelo próprio ego certamente causará instabilidade. “A simplicidade do que não tem nome conduz à supressão dos desejos. Cessando os desejos, chega-se à quietude / Com isso, tudo sob o Céu se firma”, conclui o trecho.

A ECOLOGIA DO TAO

Partindo desses entendimentos, o taoismo ensina que o ser humano deve ter muito cuidado ao interferir no meio ambiente, pois a desarmonia que porventura causar poderá lhe custar muito caro. Me lembrei de um exemplo emblemático para quem vive em São Paulo, a retificação de rios. O antes sinuoso Tietê costumava mudar naturalmente seu curso após o período de cheia, ocupando áreas enormes de várzea. Em nome do progresso, ele teve seu trajeto bruscamente modificado e foi sufocado por vias de concreto. Hoje, uma extensão de 163 quilômetros do rio está morta por causa da poluição, segundo relatório da ONG SOS Mata Atlântica. Enchentes, caos e vidas perdidas são o preço que pagamos pelo desrespeito. Como esse, há incontáveis casos mundo afora.

Em tempos de aquecimento global, desmatamentos e outros problemas relacionados ao clima, a busca pela harmonia entre homem e natureza é urgente. Isso ajuda a explicar por que o taoismo tem ganhado cada vez mais popularidade, tanto na China quanto em países ocidentais. Não há números oficiais de quantos taoistas existem no mundo, até porque pode-se seguir apenas o pensamento filosófico, deixando os ritos religiosos de lado, mas a cobertura da imprensa internacional sobre o assunto mostra sua ascensão. Em 2017, por exemplo, uma matéria publicada no jornal americano The New York Times contou como líderes da tradição têm se articulado em prol da sustentabilidade. Até o Greenpeace, uma das principais ONGs do mundo ligadas à causa, já recomendou a leitura do Dao De Jing em uma publicação recente. “O livro ajuda a me sentir menos deprimido com o estado do mundo”, escreveu o autor.

A REVOLUÇÃO DO TAO

Calar para ouvir a consciência e aprender com o que há de mais misterioso na Terra, a natureza, é um desafio e tanto para os humanos do século 21. Estamos presos a uma lógica de produção, tão viciados em trabalho e consumo que automatizamos grande parte de nossas ações. Paralelamente, há uma sensação de domínio total sobre o exterior. O ar-condicionado controla a temperatura, o carro de aplicativo nos leva aonde quisermos e os remédios combatem as doenças. Os avanços da ciência e da tecnologia são inegáveis e nos ajudam muito, mas a chegada do desconhecido tem nos causado descontrole. Não à toa nossa saúde mental piorou muito. Crises de ansiedade, síndrome do pânico e depressão são alguns exemplos. Mesmo quem não sofre com os diagnósticos invariavelmente experimenta o amargor produzido pela sociedade pautada em lucro e likes.

Se enxergar a própria essência é o caminho para encontrar a harmonia com o tao, a responsabilidade pelo equilíbrio do universo é de cada ser humano. Quem busca domar o próprio egoísmo, causador de tantas desigualdades, encontra abrigo na filosofia taoista, que preza a individualidade, não o individualismo. Enquanto despertamos a autoconsciência, concebemos um lugar melhor. “Ame o mundo como seu eu. Assim você pode cuidar de todas as coisas”, nos alenta o Dao De Jing.

QUAIS AS LIÇÕES DEIXADAS PELA PANDEMIA DO CORONAVÍRUS?

O mestre Wagner Canalonga, da Sociedade Taoista de São Paulo, foi consultor do texto a seguir. Para responder à pergunta acima, ele consultou o I Ching, um oráculo que condensa a sabedoria taoista. Leia o resumo da resposta:

 

A cultura de valorização de interesses individuais em detrimento do coletivo resulta em uma sociedade desigual. Ela é formada pela multiplicação da cultura egoica na maioria dos indivíduos. A projeção dos meus desejos individuais externamente (Fogo) combinados aos meus sentimentos de medo e ameaça interna (Água) me torna autocentrado. Para mudar a sociedade, é necessário mudar a cultura dos indivíduos que a compõem. Para mudar o mundo, o trabalho primeiro e mais difícil é mudar a mim mesmo, reduzindo o meu próprio “eu egoico” e cultivando as virtudes no meu caminho. Ao deixar que a minha transformação individual cresça organicamente e promova a harmonia ao meu redor, esta pode frutificar e gerar sementes, inspirando mais pessoas a agir da mesma forma. Com o tempo, uma nova floresta pode se erguer, mesmo em um território degradado. Se a pandemia nos deixa um cenário de terra devastada, que possamos, de forma suave e orgânica, promover a renovação e o “reflorestamento” da nossa sociedade. Que possamos reconstruí-la sobre bases e princípios mais humanos e virtuosos, respeitosos ao mundo e à natureza, para nós mesmos e para os nossos descendentes.

 

Quem quiser ler mais sobre o tema, pode escrever para o e-mail taoismo.online@gmail.com