AVANÇO TECNOLÓGICO EM ÁREAS COMO 5G, INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E PAGAMENTOS TRANSFORMA O COTIDIANO DOS CHINESES E LEVA EMPRESAS DE TODO O MUNDO A BUSCAR INSPIRAÇÃO NO ORIENTE

Por Felipe Zmoginski

No futuro, ninguém precisará de dinheiro para fazer compras. Ninguém usará botões para ligar a TV de casa ou aumentar a potência do ar-condicionado. No futuro, os carros dirigirão sozinhos, e robôs humanoides substituirão recepcionistas, estoquistas e cuidadores de idosos. No futuro, todos terão acesso às redes 5G, e criminosos não poderão andar anônimos nas ruas, já que câmeras capazes de ler rostos os reconhecerão em cada esquina.

“FUTURO”, EM CHINÊS

Essa fascinante amostra do que chamamos de “futuro” pode ser, digamos, traduzida pela palavra “cotidiano” para centenas de milhões de chineses que vivem nas grandes cidades do país – especialmente no leste, onde ficam Pequim, Xangai, Hangzhou e Shenzhen, quatro vitrines da nova economia chinesa. Em 2020, mais de 150 milhões de chineses (mais que toda a população on-line do Brasil) vão utilizar conexões 5G em seu dia a dia, e a malha de trens de alta velocidade equivale à soma de todas as outras linhas de trens-bala do mundo. Carros, ônibus e caminhões autônomos já são testados em diversas localidades. Na periferia de Xangai, por exemplo, a Didi, maior empresa de transporte individual por aplicativo do mundo, está realizando testes com táxis autônomos, que realizam corridas reais para passageiros sortudos.

A INSPIRAÇÃO QUE VEM DA CHINA

“O processo de desenvolvimento econômico da China não só foi acelerado como queimou várias etapas, o que permitiu que a sociedade local migrasse diretamente do dinheiro de papel para o mobile payment e que sistemas de segurança avançassem rapidamente para o uso de reconhecimento facial”, afirma Jordan Zhu, diretor-geral da aceleradora de empresas iniciantes InnoWay, referindo-se a duas tecnologias já disseminadas no país: os pagamentos por celular e a identificação por biometria facial.

A transformação digital chinesa incluiu, no espaço de uma década, mais de 860 milhões de pessoas na internet móvel, das quais 841 milhões possuem carteiras digitais para pagar por bens ou serviços apenas via celular. A inclusão, inédita na história, fez da Huawei a maior companhia de equipamentos de telecomunicações do planeta. Ao lado das fabricantes de smartphones Oppo, Vivo e Xiaomi, a empresa figura entre as 10 maiores vendedoras desses dispositivos no mundo, deixando para trás ex-líderes de mercado, como Nokia, LG e Sony Ericsson, e fazendo frente a marcas como Apple e Samsung.

Para muitos especialistas, o rápido avanço chinês em múltiplas frentes tecnológicas mudou não só o patamar econômico do país — que possui o segundo maior PIB nominal do mundo e já é a maior economia global pela metodologia PPC (PIB por paridade do poder de compra) —, mas também o seu status na comunidade internacional. “Se, há alguns anos, acusava-se a China de copiar soluções desenvolvidas no Ocidente, o que verificamos agora é o fenômeno copy from China: […]muitas companhias do Ocidente vão para lá, estudar modelos de negócios e inovações para aperfeiçoar suas soluções”, afirma o professor de Economia da Universidade de São Paulo Roy Mantelarc. De fato, no relatório anual sobre a web chinesa publicado pela consultoria Abacus no fim de 2019, estão listadas três estratégias de negócios digitais que nasceram na China e foram copiadas por produtos como Amazon Live, Instagram, YouTube, Snapchat e Facebook. Uma das soluções chinesas que inspiram empresas pelo mundo é a criação de super aplicativos.

A ERA DOS SUPER APPS

Aplicativos chineses como o WeChat, Alipay e Meituan foram pioneiros no conceito de One-Stop Shop para os mais diversos produtos e serviços. A ideia central desse método foi aproveitar o imenso tráfego com que tais plataformas – de rede social, pagamentos e compras, respectivamente – já contavam para inserir novas camadas de serviços e extrair mais tempo de uso e dinheiro de sua audiência.

Pelo WeChat, por exemplo, que poderíamos comparar ao WhatsApp, além de trocar mensagens, você pode integrar uma carteira digital, transferir dinheiro a amigos, pedir delivery de comida, chamar um táxi ou agendar horário no salão de beleza. A ideia fez sucesso por dispensar os usuários de instalar, fazer cadastro e manusear uma dezena de outros apps.

A estratégia acabou sendo replicada pelo Facebook, que vem transformando seu aplicativo de mensagens, inicialmente um produto standalone, em um super app com múltiplas funções, como jogos online, mobile payments (ainda não disponível no Brasil) e chatbots. Outras empresas, como o mensageiro japonês Line, seguiram o modelo, integrando carteira digital, vídeos on demand e distribuição de animes.

LANÇANDO TENDÊNCIAS

Também é de origem chinesa o modelo de negócios que usa a força das mídias sociais para impulsionar o comércio eletrônico. Gigantes do e-commerce chinês, como o Taobao, do grupo Alibaba, e jovens startups, como as empresas iniciantes Pinduoduo e Mogu, adicionaram, em 2018, múltiplas camadas sociais às suas plataformas. No Pinduoduo, produtos premium são vendidos com descontos progressivos apenas por recomendação social. Ou seja, aquela bolsa exclusiva só pode ser vendida a você, com desconto, se algum amigo que a comprou lhe recomendar a compra. A tática é um sucesso e, em 18 meses, a startup se tornou um unicórnio. No Taobao e no Mogu, influenciadores e celebridades testam os produtos disponíveis para venda ao vivo, todos os dias. Essas resenhas em tempo real atingem audiências maciças e são importantes ferramentas de conversão em vendas. Até companhias americanas conhecidas por seu pioneirismo, como a Amazon, buscam inspiração na China. Desde o início de 2019, a companhia liderada por Jeff Bezos mantém no ar um canal que, na prática, replica o modelo de demonstrar ao vivo produtos que podem ser comprados com um clique. Instagram e YouTube também estrearam funções semelhantes, tornando suas plataformas sociais mecanismos de vendas on-line.

As soluções inovadoras das plataformas de comércio eletrônico chinesas, somadas à facilidade do pagamento digital e à infraestrutura impecável — entregas que atravessam o país são feitas em até 24 horas —, transformaram o gigante asiático em líder global de vendas na rede. Estima-se que a China responda, sozinha, por quase 50% de todos os pedidos feitos pela internet no mundo.

A lista de influência se expande, por exemplo, para o fenômeno dos vídeos curtos na internet. Alguns aplicativos chineses se tornaram campeões de download, uma febre dentro e fora do país. Vários recursos lançados por esses programas – como o filtro que sincroniza o movimento dos lábios de uma pessoa com músicas – acabaram copiados por plataformas do Ocidente. Em fevereiro de 2019, o Snapchat listou, oficialmente, o chinês TikTok como um de seus principais competidores. O Facebook’s Lasso, focado em vídeos curtos, também tem óbvia inspiração chinesa.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Mas, de toda a longa lista de soluções criativas nascidas na China, nenhuma é mais popular que a chamada inteligência artificial, ou AI, na sigla em inglês. Um subtipo da AI é a tecnologia de reconhecimento facial. De acordo com uma consultoria americana, 48% das captações de investimentos feitos na China em 2017 e 2018 foram para startups que desenvolvem soluções baseadas nessas tecnologias. A MegVii, desenvolvedora do produto de reconhecimento facial líder no país, é um exemplo desse sucesso. Fundada há oito anos por três recém-formados na prestigiosa Universidade Tsinghua, já está avaliada em US$ 4 bilhões, o que a situa no seleto grupo de 216 unicórnios chineses.

A aplicação mais conhecida é a que usa reconhecimento facial para fins de segurança pública. De acordo com Dai Yufeng, diretor de operações internacionais da MegVii, mais de 6 mil pessoas procuradas pela Justiça chinesa foram identificadas e presas graças à solução criada pela empresa. Câmeras em metrôs, estações de trem, praças e shopping centers capturam dados faciais dos transeuntes e os cruzam com um banco de dados de pessoas procuradas. A tecnologia já serviu também para identificar crianças perdidas dos pais em multidões ou vítimas de sequestro. Além das aplicações em segurança, o reconhecimento visual oferece soluções para a transformação de múltiplas atividades, como pagamentos, logística e controle de acesso. Em inúmeras empresas, por exemplo, os funcionários não usam crachá, e sim o próprio rosto para abrir as portas. O método está sendo usado também em universidades, que já substituem a lista de presença pelo reconhecimento facial e, entre outros dados extraídos, é capaz, pela análise de expressões faciais, de compreender quais estudantes estão aproveitando melhor a aula e quais precisam de ajuda. Com investimentos do grupo Alibaba, a Sensetime, concorrente da MegVii na China, fornece sua tecnologia para o método de pagamentos smile to pay (literalmente, “sorria para pagar”). Basta um sorriso para o totem de pagamentos e o consumidor valida uma compra. Sem cartões, sem dinheiro, sem códigos QR.

O vision learning, outro tipo de AI, é utilizado também na logística. Robôs autônomos aprendem a reconhecer objetos e, assim, podem se mover sozinhos pelos depósitos e separar pedidos, identificando objetos nas prateleiras do mesmo jeito que um operador humano faz.

A experiência chinesa tem servido também de inspiração para empresas de varejo em todo o mundo, já que o modelo que integra os mundos on-line e off-line, conhecido como “novo varejo” (new retail, em inglês), encontra na China seu estágio mais avançado. Um bom exemplo é uma famosa rede de supermercados, em cujas unidades o dinheiro de papel não é aceito, e as compras podem ser feitas por aplicativo, chegando à porta do consumidor em, no máximo, meia hora, ou sendo recolhidas direto no ponto de venda – portanto, no modo off-line –, sem interação com funcionários, pois todos os processos são automatizados. Quer mais? Um sistema de análise de dados avisa o usuário sobre itens que pode precisar ao visitar uma loja física. Os produtos que, eventualmente, forem esquecidos ou não estiverem disponíveis em estoque podem ser despachados para a casa do comprador.

PONTE DA INOVAÇÃO

Tantas soluções transformaram a China na meca de empresas e profissionais que estudam inovação e a transformação de seus modelos de negócio. “Empresas iniciantes baseadas na China têm condições de reagir mais rápido às mudanças externas e maior velocidade para testar novas soluções e produtos. Se uma empresa em São Paulo ou na Califórnia quer testar uma nova versão de seu produto e precisa de um componente específico para isso – ou mesmo identificar um especialista em tal aplicação –, ela pode levar uma ou duas semanas para executar o teste. Na China, você resolve o mesmo desafio em um ou dois dias”, afirma Jerry Wang, fundador da rede de serviços TechTemple.

Não por acaso, empresas como Apple, Samsung e Volkswagen, fundadas na Califórnia, na Coreia do Sul e na Alemanha, respectivamente, mantêm na China centros de pesquisa e inovação. Todos querem beneficiar-se de viver no futuro.

GLOSSÁRIO

mobile payment – pagamento pelo celular

one-stop shop – diversos produtos e serviços disponíveis em um só lugar (físico ou virtual)

standalone – avulso, independente

chatbot – programa que simula uma pessoa real em conversas on-line em canais de atendimento, junção das palavras inglesas chat  “conversa” e robot “robô”.

anime – desenho animado de origem japonesa

unicórniostartup cuja estimativa de valor de mercado ultrapassa 1 bilhão de dólares

e-commerce – comércio realizado pela internet, comércio eletrônico

vision learning – processo em programas e máquinas que “aprendem” a reconhecer visualmente objetos e pessoas