Personagem da Opera de Pequim
MISTURA REQUINTADA DE VÁRIAS TÉCNICAS E ELEMENTOS TEATRAIS, A ÓPERA DE PEQUIM TORNOU-SE EM POUCO TEMPO A VERTENTE MAIS FAMOSA E QUERIDA DESSA EXPRESSÃO ARTÍSTICA

Por André Ribeiro

Diferentemente das outras artes chinesas, a Ópera de Pequim tem um passado recente, pouco mais de 200 anos de história. Ela surge em 1790, quando as trupes populares de Anhui chegam a Pequim para a celebração do aniversário de 80 anos do imperador Qianlong (1711–1799).

Os artistas de Anhui eram famosos por trazerem na bagagem uma rica mistura das artes do palco – mímica, dança, acrobacias e artes marciais. Devido a essa característica notável, foram chamados para participar das comemorações na capital. Mais do que mera curiosidade, era tradição entre a elite manchu patrocinar trupes de teatro popular – na maior parte das vezes, sem a chancela do estado. Líderes políticos e membros dos gabinetes imperiais viam nelas um risco para a insurgência de grupos e associações clandestinas contrárias aos interesses do império. Isso porque grande parte das companhias teatrais eram mantidas por guildas (associações) comerciais de cunho religioso dirigidas por comerciantes e homens de negócios, cuja influência nos diversos setores da sociedade era vista com desconfiança. Portanto, entre os membros da administração, a ópera popular constituía um foco permanente de atritos – algo que Qianlong estava disposto a ignorar, visto sua paixão falar mais alto.

Não era para menos. Quando as trupes de Anhui se instalaram na capital, a repercussão foi tremenda. Uma vez em Pequim, caíram imediatamente no gosto popular, a ponto de o governo ter de aprovar às pressas uma série de medidas para a regulamentação da nova forma teatral. Com isso, pretendia-se reforçar a distinção entre as formas teatrais populares e aquela outorgada e estimulada pelo Estado, tida como benéfica para a moral do povo.

Máscara da Opera de Pequim
ÓPERA DAS ÓPERAS

Durante séculos, a arte teatral foi dominada pela Ópera Kunqu, um gênero forte e representativo do estilo de vida da elite palaciana desde o período Ming (1368–1644) e estendido, como modelo oficial de entretenimento, à vida comum. No entanto, as trupes de Anhui mudaram esse cenário ao abrir caminho para uma forma teatral até então inédita.

A Ópera de Pequim caracterizou-se, desde o início, pela fluidez e versatilidade, graças ao empréstimo de técnicas de representação e características de outros gêneros teatrais que, uma vez incorporadas, integravam um amálgama ao mesmo tempo forte e reconhecível pelas plateias de diferentes regiões da China. Isso explica a rapidez com que se consolidou como arte nacional, tendo manifestado desde cedo o seu caráter cosmopolita. Sendo uma forma teatral acessível a todos, ela se colocava à frente das outras artes.

Porém, não foi apenas conjugando traços e elementos distintos que a nova ópera veio a tomar a dianteira. Entre as inovações que a impulsionaram, uma foi decisiva para conquistar o público: a encenação dos “melhores momentos” do repertório, que funcionava como uma vitrine para as habilidades dos atores.

As apresentações eram arranjadas de forma a encadear uma ampla seleção de cenas extraídas do repertório teatral, sem a necessidade de cumprir os roteiros do início ao fim. Dessa forma, o foco dos espectadores se deslocou da trama, cuja apresentação às vezes durava dias, para a performance pontual dos artistas. O público, cada vez mais interessado na caracterização das personagens e no conjunto das habilidades que cada intérprete demonstrava em cena, passou a enxergar na ópera a expressão do grau de maestria dos atores. Estes, por sua vez, passaram a dedicar-se exclusivamente à criação de novas personagens – testadas em cena – para fomentar novos enredos, escritos por dramaturgos contemporâneos.

Em grande medida, essa prática fez aumentar o interesse pela performance, com maior presença de ação das personagens (com a exibição das artes marciais e acrobacias). Consequentemente, o desfecho passou a significar menos do que a atuação pontual e hábil de certos papéis teatrais. E assim os teatros comerciais passaram a exibir programações ininterruptas de trechos de ópera.

Se, por um lado, a espontaneidade beneficiou o surgimento de atores talentosos, por outro, diminui progressivamente a aura de elegância e virtuosidade dos enredos operísticos chancelados pela corte, popularizando-os em certo sentido, mas sem anulá-los. Isso porque muitos atores imperiais atuavam em trupes populares — e não era incomum o intercâmbio entre uma forma teatral e outra, assim como diferentes públicos frequentavam um mesmo espaço – em geral, teatros comerciais fora dos limites da cidade.

Atores da Opera de Pequim
A GRANDEZA DO INTÉRPRETE

Posta em relevo, a figura do ator fazia do novo gênero uma síntese tão inédita como incomum. De um lado, carregava as culturas populares, de outro, a tradição palaciana, virtuosa, moralista – numa palavra, secular. Ambas estavam unidas pela vida efervescente da capital: a cidade como pano de fundo das culturas urbanas interligadas, os teatros comerciais como um setor alternativo da sociedade. Por essa razão, as casas de ópera não gozavam de boa reputação aos olhos do poder público, que via nelas territórios neutros para onde convergiam entretenimento, política e negócios.

A despeito do entusiasmo e da desconfiança que dividia os nobres e plebeus, os ventos sopravam forte nos bastidores e, impulsionada pelas tensões e burburinhos sociais, a Ópera de Pequim ascendeu como forma dominante, essencialmente popular. A soma de diversos traços e elementos regionais, incorporados por atores habilidosos, favoreceu a rápida expansão do estilo de Pequim, que em pouco mais de 70 anos consolidou-se como gênero teatral nacional, difundindo-se por todo o território. Cada região da China abriu a sua casa de ópera ao estilo de Pequim, acrescentando suas próprias características regionais.

NOS PÁTIOS DE CHÁ

De início, na passagem ao século 19, as trupes se apresentavam nos pátios das casas tradicionais que eram abertas ao público em geral — não apenas membros da família real, funcionários e estudiosos, mas também comerciantes e citadinos. Esses locais ficaram conhecidos na cultura urbana como as “casas de chá” a céu aberto, ou simplesmente os “pátios do chá”. Ali, as pessoas pagavam para tomar chá, não pela ópera a que assistiam. Esta ainda funcionava, por assim dizer, como “música ambiente”, semelhante aos bares de hoje que têm música ao vivo mas nem sempre cobram couvert artístico, sobretudo quando se trata de uma área a céu aberto.

Com a popularidade crescente, esses locais foram transformados em teatros e, na era republicana, passaram a servir como espaços de comunhão social entre atores e plateia. A passagem do governo imperial à república em 1912, pautada no conceito de estado-nação, ampliou a representatividade da ópera. Se antes ela era a expressão simbólica da confluência das culturas em Pequim, agora expressava um ideal acima de todas as classes sociais: o palco como representação de uma nova ordem social.

Apresentação Opera de Pequim

Nas primeiras décadas do século 20 a Ópera de Pequim passou por uma ampla metamorfose, tanto na evolução dos enredos – que passaram a refletir a vida comum, com personagens cada vez mais próximas ao cotidiano –, como na assimilação de pautas e bandeiras políticas que se propôs a levantar. Deixava de ser um estilo regionalista-urbano para se tornar uma forma universal de representação da nova sociedade. Em pouco tempo, conquistou os palcos internacionais nas mãos de artistas renomados, como Mei Lanfang (1894–1961), o ator mais famoso da Ópera de Pequim e inspiração para todas as gerações posteriores. Nos anos 1930, ele popularizou internacionalmente sua arte, levando as trupes aos palcos de Japão, Estados Unidos, União Soviética e Europa e conquistando uma legião de fãs dentro da elite artística mundial. Entre eles, estavam Bertold Brecht – que, fascinado pelas performances, aplicou as técnicas essenciais da Ópera de Pequim às próprias produções teatrais –, Serguei Eisenstein, Constantin Stanislavski e Charles Chaplin.

Iniciava-se, assim, aquilo que viria a ser a internacionalização do gênero. A Ópera de Pequim chegou a servir de vitrine chinesa para o mundo. Nas reviravoltas do século 20, a ópera passou a incorporar elementos contemporâneos, mas também perdeu um pouco do frescor e da vivacidade que caracterizavam seu espírito indômito.

É certo que muitas águas rolaram desde Qianlong, e foi somente às portas do século 21 que profissionais da ópera estabeleceram novos caminhos para revitalizá-la e conquistar a audiência jovem apesar do distanciamento do público, atraído por cinema, TV a cabo e serviços de streaming. Grande parte dos esforços de renovação acabou, entretanto, por cristalizá-la, em vista do ritmo incontrolável da modernidade.

Foi muito em virtude desse refreamento do cenário operístico na Era da Globalização que, em 2010, a Ópera de Pequim foi declarada pela Unesco patrimônio cultural intangível da humanidade, assim como a Ópera Kunqu o havia sido em 2001. Essa nobre atitude serviu como estímulo importante para manter o valor desse imenso legado cultural da China.

Quem sabe no novo mundo que surgirá após a pandemia as pessoas possam se religar às forças restauradoras da cultura ancestral. Assim, talvez ainda assistiremos a mais uma de suas reviravoltas estonteantes. Não duvide, pois a mágica não está nos olhos de quem vê, mas no espírito de quem sente as tradições artísticas como parte de sua pertença fundamental num mundo em constante mudança.