Tulou visto de cima, arquitetura chinesa Hakka
CONCEBIDOS COMO FORTALEZAS, ESSES ENORMES EDIFÍCIOS CONCÊNTRICOS RESISTEM AO TEMPO COMO MEMÓRIA E INSPIRAÇÃO

Por Ursula Neumann

Os han compõem a mais representativa das 56 etnias chinesas em número de habitantes, abarcando cerca de 91% da população do país. Ramificam-se, porém, em diversas subdivisões dialetais ou etnolinguísticas. Uma dessas ramificações são os hakka, grupo de origem muito antiga radicado há séculos no Sul da China – mas nem sempre foi assim.

QUEM SÃO OS HAKKA

Há algumas teorias sobre como essa população se formou. A informação mais difundida dá conta de que os hakka seriam originários do Norte, no vale do Rio Amarelo, e teriam se mudado para o Sul – especialmente para as províncias de Fujian, Guangdong, Jiangxi e Guangxi – durante a queda da dinastia Song, na década de 1270. Outras duas grandes ondas migratórias teriam ocorrido nos séculos 4º e 9º. O nome hakka, pronúncia dialetal de 客家 kèjiā “visitantes”, vem do fato de eles, inicialmente, não terem se integrado às populações locais.

Com a crise econômica, política e social que se abateu sobre a China entre o final do século 18 e o início do 19, os hakka tiveram de reforçar sua autoproteção em vista das duras condições naturais e do ambiente conturbado. Foi nesse contexto que prosperou um dos mais extraordinários elementos da arquitetura chinesa tradicional: os 土楼 tǔlóu. Consideradas hoje patrimônio cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), essas construções típicas do povo hakka foram erguidas com o propósito de defesa durante um período de grandes turbulências.

complexo de tulous, arquitetura chinesa Hakka
ARQUITETURA PECULIAR

Típicos das áreas montanhosas da província de Fujian, os tulou, literalmente “casa de terra”, são enormes construções que funcionam ao mesmo tempo como fortaleza e residência coletiva. Podem ter formato circular ou quadrado, sempre com um pátio interno e uma altura que varia entre três e cinco andares. A fachada, desprovida de janelas na parte inferior, é equipada com diversos mecanismos de defesa na parte superior. Por ser considerado o ponto mais vulnerável do edifício, o único portão de entrada é reforçado com pedras e revestido de ferro. A sua estrutura imponente foi concebida para resistir aos ataques dos inimigos e do tempo. A parede externa, que tem cerca de um metro de espessura, é feita com uma combinação de terra compactada, pedras, bambu e madeira. A área interna, bem iluminada e ventilada, tem a grande vantagem de se manter quente no inverno e fresca no verão.

O formato circular da maioria desses complexos impressiona não só por compor um primoroso forte, mas também por revelar uma área interna de intensa e equilibrada convivência. Dentro de cada construção, moram dezenas de famílias de um mesmo clã, que, portanto, costumam ter o mesmo sobrenome. Elas vivem em apartamentos verticalizados: o primeiro andar é a cozinha; o segundo, o armazém; e os dormitórios ficam no terceiro e no quarto andares. Os maiores tulou chegam a ter mais de 5 mil metros quadrados e podem abrigar cerca de 800 moradores. Como um tulou é construído com duas ou três paredes concêntricas, ele pode ser dividido em camadas: no círculo periférico, ou seja, na parte mais externa da edificação, ficam as residências; no segundo círculo, os aposentos para receber os visitantes e, no círculo interno, as pequenas edificações de uso comum.

Em contraste com o exterior discreto – permeado apenas por um solitário portão e algumas janelas muito altas – o interior de um tulou costuma ser ornamentado e acolhedor. Por se tratar de um forte, o edifício foi projetado para suportar cercos muito longos, que, às vezes, podiam durar até dois ou três meses. Por esse motivo, à época de sua construção, o tulou também dispunha de uma fonte de água, um grande armazém de grãos e um sofisticado sistema de esgoto.

telhado de Tulou, arquitetura chinesa Hakka

Diferentemente de outras residências históricas chinesas, os tulou chamam atenção por não refletirem nenhum tipo de hierarquia social. Pelo contrário, a equilibrada vida em comunidade dos hakka transparece em sua arquitetura circular: os apartamentos do complexo têm tamanho padronizado – entre 10 e 40 metros quadrados –, trazem o mesmo tipo de janelas e portas e até o mesmo tipo de ornamentação. As famílias maiores podem ocupar mais de um apartamento.

A maioria dos tulou atualmente preservados se concentra em aldeias da província de Fujian. Cada um deles tem um nome. O maior e mais famoso é o 承启楼 Chéngqǐ lóu (Edifício Chengqi), tido como o “rei dos tulou”. Construído por volta do século 17, esse prédio majestoso conta com 4 paredes concêntricas, 400 apartamentos, um diâmetro de colossais 73 metros e é habitado por cerca de 60 famílias originárias da província de Henan, a maioria de sobrenome Jiang. No centro há um altar de culto aos ancestrais. Além disso, já abrigou uma biblioteca comunitária e até salas de aula.

Em 2008, 46 tulou desse mesmo complexo em Fujian tornaram-se patrimônio cultural mundial pela Unesco. Dentre os critérios considerados para essa classificação, além da importância cultural, social e arquitetônica, destaca-se o fato de essas construções estarem integradas à natureza de forma harmônica. De acordo com a instituição, os tulou constituem um exemplo excepcional de assentamento humano em harmonia com a paisagem circundante – não só os prédios permaneceram intactos ao longo de séculos, como também a floresta ao seu redor.

interior de Tulou, arquitetura chinesa Hakka
CASA DE CINEMA

Alguns desses tulou – os mais bem preservados – acabaram servindo de cenário de filmes como Kung-fusão e a recente versão live-action de Mulan. O edifício também aparece representado nas animações Kung Fu Panda, Peixe Grande & Begônia e até no game de RPG Front Mission 3. Embora muito procurados para sets de filmagem e frequentemente visitados por turistas, os cerca de 3 mil tulou que ficaram de fora da proteção da Unesco estão se deteriorando e correm o risco de desaparecer.

Antes conhecidos como “pequenos reinos familiares” ou “pequenas cidades prósperas”, essas edificações da zona rural hoje abrigam famílias de baixa renda. Muitos de seus habitantes originais migraram para grandes centros urbanos em busca de melhores ocupações profissionais e de apartamentos dotados de conveniências modernas como, por exemplo, um banheiro interno, algo inexistente nessas residências centenárias. Os que permanecem no campo – normalmente as pessoas mais velhas –não sobrevivem mais da agricultura, mas do turismo, que se tornou forte na região. Os últimos tulou foram erguidos no século passado, mas, com a saída de seus habitantes originais, a rústica técnica de construção está desaparecendo e muitos deles estão sem manutenção. Várias iniciativas de preservação realizadas até o momento vêm do setor privado, principalmente de ex-moradores que se disponibilizam não só para bancar reformas, mas também para colocar a mão na massa e ensinar os próprios residentes a fazer pequenos consertos, além de incentivá-los a promover atividades festivas e educativas na comunidade

Tulous, arquitetura chinesa Hakka
FORTALEZAS PACÍFICAS

Deterioradas ou não, essas construções incríveis são relíquias do tempo, memórias palpáveis, verdadeiras testemunhas de todo um contexto histórico e social. É um passado que ensina e inspira uma nova geração a pensar um modo diferente de viver. Com seu valor patrimonial imensurável, os tulou são a prova de que pode haver uma arquitetura sustentável, eficaz e voltada para a integração com a natureza e a comunidade, promovendo fortes laços entre seus habitantes. Originalmente construídos para defesa, hoje os tulou estão de portas abertas para quem quiser conhecê-los.