Outono em Pequim
O PASSAR DAS ESTAÇÕES VIRA AS PÁGINAS DO COTIDIANO E ENSINA UMA NOVA FORMA DE PERCEBER O TEMPO

Por Fernanda Fraiz*

O inverno de Pequim faz chover toda uma neve branca, gelada e escorregadia; mesmo com gente, as ruas parecem vazias quando cobertas de neve. As árvores hibernam, cansadas de ainda outros tempos, e alguns poucos idosos se aventuram a banhar seus corpos nas águas glaciais dos lagos de Houhai.

Guardo essa imagem, em meio a outras tantas, de uma China que por quatro anos foi minha segunda casa e me ensinou uma nova experiência com o tempo. Pensar nisso durante a realidade de uma quarentena no Brasil resgata a lembrança que o corpo conserva. Foi lá que vi os dias se repartirem em quatro estações muito nítidas e se desenrolarem de forma bem menos linear do que em nosso trópico. Foi lá que percebi como diferentes existências organizam os fôlegos e conferem ao corpo movimento e memória social.

CONVITE AO RECOLHIMENTO

No labirinto dos 胡同 hútòng – as centenárias vielas pequinesas – em frente aos pequenos restaurantes familiares, a preparação de pães recheados começa ainda no meio da madrugada. O vapor quente das panelas lotadas de cestos de bambu ganha corpo em contato com o ar gelado, desenhando nele a austeridade da estação. Por todo o inverno, os convívios ficam mais confinados aos espaços internos, casais se aquietam, e os dias ganham um ritmo mais resignado de espera e meditação.

O Ano-Novo do calendário lunar, também conhecido como 春节 Chūnjié, é um festival que celebra a chegada da primavera depois do solstício de inverno. Como em vários países do mundo, é um momento catártico – mas, em vez de durar o tempo de uma contagem regressiva, estende-se por duas semanas e faz explodir todo um estoque de fogos, bombinhas e traques. O uso de fogos de artifício é alvo recorrente de discussão e já foi banido em vários pontos da China, por conta da poluição. A força cultural, porém, é tão grande que o costume resiste durante essa época do ano. Essa força deriva, em grande parte, de uma longa tradição segundo a qual o Ano-Novo era acompanhado da “visita” de um monstro mitológico que, se não fosse repelido pelo barulho dos fogos, devoraria a todos pelo caminho. Nas duas semanas de explosões de luz e som que marcam a mudança do calendário, os chineses se esforçam para espantar o frio – e os demônios inconvenientes –, ansiosos para, enfim, dar boas-vindas também à chegada da primavera.

Naquelas latitudes, as estações ditam e preservam o ritmo da vida social. Períodos de recolhimento antecipam e se alternam com períodos de exuberância, sempre marcados por encontros e festas. Consumida toda a capacidade de introspecção da mente, o corpo descansado retorna ao convívio, repleto de vontades latentes. No Brasil, a cadência das estações é outra. Não acostumados com um inverno hirto, tateamos, desorientados, a experiência de reclusão estendida da quarentena. Isso talvez equivalha, na China, à sensação de ter o ritmo natural roubado de forma repentina. Como aconteceu quando o lockdown foi imposto em Wuhan, na véspera do Ano-Novo lunar. Bem na época de celebração da chegada da primavera, a cidade de clima ameno foi deslocada para o silêncio de uma reclusão ainda mais rigorosa que o inverno nortista.

Noite de Inverno em Pequim
DESPERTAR

Quando o frio recua, a paina dos salgueiros toma o ar como uma névoa. De um ano para o outro, caminhos são renovados e se abandona de vez tudo o que deixou de fazer sentido. Guiados por suas bicicletas, jovens reencontram seus amigos disputando distâncias, enquanto aposentados conquistam as praças distraídos pelas próprias missões de lazer. No intervalo dos seus afazeres, cabeleireiros, professores, cozinheiros, todos aproveitam o vento fresco e a sombra das árvores formando rodas de peteca (毽子 jiànzi) por todo o perímetro do bairro antigo de Gulou. As torres do Sino e do Tambor recebem e guardam como duas sentinelas as manhãs carregadas de turistas e as noites de dança ao ar livre da terceira idade local. Novos inícios que se expandem até as ruas, em uma experiência compartilhada do tempo entre os mementos de sua antiguidade.

Na China, a cosmologia tradicional vem há milênios influenciando as diversas escolas fundadoras do pensamento. Diferentemente das civilizações ocidentais conquistadas por ensinamentos religiosos, os chineses já têm, agregada ao próprio cotidiano, uma relação metafísica com o mundo ao seu redor. Uma relação que se estende a outros campos da cultura, como a medicina e a gastronomia. Referências casuais a elementos encontrados na natureza – e conceitos como impermanência e harmonia – estão imiscuídas na fala e no dia-a-dia. Na primavera despontam as flores, na juventude florescem as pessoas.”

A tríade Céu, Terra e Homem, para além do folclore, calca noções que refletem a interconectividade entre os eventos celestes, as experiências humanas e a natureza. Uma consciência de tempo que não se esgota em um todo contínuo, mas que se fragmenta em ciclos que se sobrepõem e restauram vontades, estruturando toda a dinâmica do ser. O diálogo entre passado, presente e futuro se expressa em termos como 缘分 yuánfen, o “acaso predestinado”. Ter yuánfen com alguém sugere a cumplicidade cósmica de um reencontro que precisou de “várias centenas de vidas” para acontecer.

Passamos nossos dias, já diziam os antigos, enredados no ciclo do samsara, vivendo num fluxo condicionado por nossas próprias repetições. Entre um fio e outro dessa teia, atravessamos estados intermediários – transitando entre o terrenal e o incorpóreo – que, equivalendo-se em importância e intensidade, definem a “próxima estação” da experiência. E é através de práticas que permitem a consciência e o reconhecimento de cada instante desse processo que conseguiremos nos libertar dos nossos apegos para, enfim, viver em harmonia com o universo. O encontro com a China evoca esse sincretismo filosófico próprio de uma rica cultura ancestral. Encontros e desencontros milenares que os costumes, os gestos e a língua carregam. Conhecimento em cada palavra que fica.

Tarde de Verão em Pequim
OUTROS TONS

O outono de Pequim concentra o calor do verão nas cores quentes das folhas amarelo-vermelho das suas ruas arborizadas. É o prenúncio do fim de mais um ciclo.

Eu morava perto de Guijie, rua de restaurantes que num passado não muito remoto ostentava por todo o seu corpo fileiras e mais fileiras de lanternas vermelhas. As cores do dia iluminando a noite. Até poucas semanas antes, pessoas ainda perambulavam pelas ruas ou jantavam em pequenas mesas dispostas pelas calçadas. Displicentes, bebendo cerveja e comendo sementes de girassol, tornavam o chão um extenso tapete de cascas – resquícios arqueológicos daqueles que ainda resistiam à chegada do frio para beber suas últimas cervejas ao ar livre. Aos poucos, os sons da rua começavam a se deslocar para dentro dos restaurantes. E assim, algum vento mais forte chegava e despia nuas todas as árvores, silenciando enfim o farfalhar da mudança.

Para a amiga Fernanda Ramone, que tanto nos ensinou sobre a China (1978–2020)

*Fernanda Fraiz 

Realizadora audiovisual, artista transdisciplinar, praticante de kung fu e entusiasta da cultura chinesa.