Insumos para mediações chinesas
DAS FÓRMULAS PERSONALIZADAS AOS REMÉDIOS TRADICIONAIS, A FITOTERAPIA CHINESA TRAZ RESULTADOS AO PROMOVER A HARMONIA DO CORPO E DA MENTE

Por Christian Oliveira

Parte integrante da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a Fitoterapia Chinesa (FC) ganha cada vez mais adeptos em todo o mundo, em função de sua eficácia no tratamento de inúmeros males, bem como de seus reduzidos efeitos colaterais. Acredita-se que seja uma criação de Shen Nong, o Divino Agricultor, que teria vivido há quase 5 mil anos. Diz a lenda que Shen Nong nasceu com a barriga cristalina, e todos os seus órgãos podiam ser vistos claramente. Foi ele quem ensinou o povo a usar o fogo, inventou o arado para facilitar o cultivo do solo, e ajudou muitas pessoas a fazer a transição de uma dieta crua e rica em proteína animal para outra com comidas cozidas e baseada em grãos e hortaliças. Seu conhecimento veio da grande quantidade de ervas que ele experimentava, justamente com objetivo de descobrir os efeitos e propriedades de cada uma. Os relatos originaram o importante compêndio 神农本草经 Shen Nong Bencao Jing (Clássico de Fitoterapia de Shen Nong), a mais antiga obra sobre o tema, consolidada há quase dois milênios.

SAÚDE É HARMONIA

O uso do termo “fitoterapia” deve-se ao fato de que mais de 80% dos ingredientes têm origem vegetal. Na elaboração de suas fórmulas, porém, também são utilizados ingredientes de origem animal e mineral. Mais de 3 mil substâncias medicinais foram descritas em livros clássicos da Antiguidade e mais de 12,8 mil já foram identificadas até hoje.

Na perspectiva da MTC, todo ser vivo é mantido por um equilíbrio de duas forças opostas, a energia yin e a energia yang. Juntas, elas formam a essência da vida, ou qi, um tipo de energia que flui pelo corpo através de canais invisíveis chamados meridianos. Quando yin e yang não estão em harmonia, o qi deixa de fluir livremente e as doenças se manifestam. Esse desequilíbrio pode ser causado por estresse, poluição, má alimentação, distúrbios emocionais ou infecções. A cura pode ocorrer por meio de recursos do próprio corpo com o uso de técnicas que objetivam restaurar o livre fluxo do qi. A acupuntura, a moxibustão e a fitoterapia são algumas delas.

Para facilitar a escolha adequada, os ingredientes são classificados de acordo com três critérios:

Temperatura: há os ingredientes quentes e mornos (de característica yang); os frescos e frios (de característica yin) e, ainda, os neutros.

Sabor: cada sabor beneficia um órgão, assim, o amargo está associado ao coração; o azedo, ao fígado; o picante, aos pulmões; o doce, ao baço; e o salgado, aos rins.

Direção: definida conforme o movimento energético provocado nos meridianos, pode ser ascendente ou descendente. Alguns estudiosos consideram mais duas direções: a circulante e a de submersão.

comprimidos da medicina tradicional chinesa
MODO DE FAZER

Os componentes de cada fórmula obedecem a uma hierarquia bastante interessante: há o elemento imperador – o “coração” do medicamento –, cuja ação é dirigida ao sintoma principal, e o elemento ministro, que dá suporte ao primeiro, potencializando seus efeitos e tratando sintomas secundários. Em seguida, entra o elemento assistente, para reforçar a ação das outras duas categorias, eliminando ou reduzindo a sua toxicidade, ou seja, minimizar os efeitos colaterais, em linguagem moderna. Por fim, há o elemento guia, que leva os princípios ativos de todos os ingredientes da prescrição para o local do corpo onde deverão agir. Cada fórmula terapêutica pode conter um ou mais ingredientes de cada uma dessas categorias.

Os fitoterápicos chineses são, na grande maioria, administrados por via oral, mas alguns são inalados ou usados de forma tópica. Evidentemente, qualquer remédio em excesso pode se tornar um veneno para o corpo humano. Consumir uma quantidade superior à prescrita ou um princípio indevido não apenas adiará a cura, como poderá agravar a doença existente, gerar efeitos colaterais e, ainda, desencadear novos processos patológicos. É importante lembrar que as diferenças entre os seres humanos muitas vezes exigem do terapeuta um raciocínio clínico individualizado. Essa, aliás, é uma das grandes diferenças entre as medicinas ocidental e oriental.

ESTES JÁ VÊM PRONTOS

Existem fitoterápicos de grande tradição familiar cujo uso é recomendado há gerações – a sabedoria popular é algo comum em todas as culturas. Mencionaremos, então, alguns já bem consagrados e consumidos em todo o mundo.

Frasco com comprimidos da medicina tradicional chinesa
TIGER BALM

Desde que foi lançado pelos irmãos Aw no início do século passado, o bálsamo analgésico em frascos hexagonais tem sido uma presença constante nas farmacinhas domésticas chinesas. A fórmula, baseada em uma antiga receita de família, é indicada para tratar dores musculares, dores de cabeça, nariz entupido, picadas de inseto e entorses. Seu uso sobre ferimentos e demais alterações dermatológicas, porém, deve ser evitado.
A ação do Tiger Balm baseia-se no princípio de estimular o movimento do qi de acordo com a máxima da MTC: “Se o qi não flui, há dor. Se não há dor, o qi está fluindo livre e harmonicamente”. Os ingredientes quentes e picantes do Tiger Balm ajudam a aumentar a circulação sanguínea e, consequentemente, favorecem o fluxo do qi e o equilíbrio dos órgãos.
O bálsamo tem as versões vermelha, mais penetrante nos músculos e indicada para dores de maior intensidade, e a branca, mais indicada para processos dolorosos leves e cefaleias. Além da apresentação original, também é vendido em forma de emplastro, óleo para massagem e inalador.

NIN JION PEI PA KOA

É um agradável e denso xarope à base de ervas formulado para o alívio de dor de garganta, tosse e rouquidão. Além de seu efeito anti-inflamatório natural, auxilia no processo de expectoração. O que também chama atenção é o logotipo da marca, que retrata um filho cuidando de sua mãe idosa e “Nin Jiom”, a transcrição do cantonês, significa “em memória da mãe”.

Há uns 300 anos, a mãe de um importante comandante provincial, chamado Yang Jin, sofria de tosse crônica. Um médico famoso receitou uma fórmula com 16 ervas em sua composição. O remédio fez um efeito milagroso e a mãe do general pediu para o filho produzir o medicamento em grande escala para beneficiar a população. O saboroso xarope também é comercializado na versão de pastilhas. Desde que saiu no Wall Street Journal em 2018, o remédio ganhou mais fama ainda no mundo inteiro.

LIU WEI DI HUANG WAN

O fitoterápico de patente chinesa Liu Wei Di Huang Wan é utilizado na China há séculos. O nome Liu Wei, literalmente “seis ingredientes”, vem das seis ervas que compõem sua fórmula: Rehmanniae radix, polpa de Cornus, Cortex moutan, inhame, Poria cocos e Alisma orientale. Encontramos esse medicamento nas versões pílulas e gotas. Considerado um tônico das essências yin dos rins e do fígado, fortalece as funções desses dois órgãos e estimula o bem-estar, diminuindo a ansiedade e o estresse. Ao revigorar a essência vital, favorece a energia sexual feminina e masculina. É também indicado para diminuir a pressão arterial, a fraqueza lombar e dos joelhos, as tonturas, o zumbido, a hipacusia (diminuição da audição), a sudorese noturna e a incontinência urinária, entre outras manifestações.

ANGONG NIUHUANG WAN

O Angong Niuhuang Wan ganhou inúmeros prêmios na China em função de sua qualidade e eficácia, inclusive com vasta literatura científica que as comprova. Para muitos chineses, essa pílula com 11 preciosos ingredientes medicinais é um verdadeiro “levanta defunto” pelos efeitos milagrosos atribuídos a ela em casos críticos. Acredita-se que a mágica funciona especialmente se o remédio é tomado em datas especiais como o solstício de inverno. O preço é compatível com a fama de panaceia universal.

Pode ser utilizado para tratar doenças febris, fatores patogênicos que afetam o pericárdio, convulsões, inconsciência e delírio, meningite, encefalopatia tóxica, AVC (Acidente Vascular Cerebral) e sepse, entre outras patologias.

A fórmula original levava chifre de rinoceronte. Além do valor exorbitante desse ingrediente, seu comércio foi proibido devido à caça ilegal de animais selvagens. O produto foi substituído pelo chifre de búfalo, por causa da semelhança na composição e na eficácia. O ruminante, além de ser criado para essa finalidade, também pode ser abatido para fins alimentares.

PÓ DE PÉROLAS

Considerado um elixir da juventude, o pó de pérolas é consumido desde a antiguidade como componente de medicamentos sofisticados. Ganhou notoriedade como tônico de beleza graças à Imperatriz Ci Xi, famosa por manter a pele bem conservada mesmo em idade avançada. Parte do patrimônio cultural, ele aparece em pinturas que retratam rostos femininos, talvez porque seu uso deixa a pele branca e lisa como uma porcelana, o ideal de beleza das chinesas.

O pó de pérolas contém aminoácidos, cálcio, antioxidantes e minerais. Importante neutralizador de radicais livres, retarda os sinais de envelhecimento prematuro e conserva a pele jovem e saudável.

É obtido pela trituração de pérolas que produz um pó muito fino e facilmente absorvido pela pele ou pelo sistema digestivo. É utilizado na forma de pó compacto de acabamento, máscaras faciais e corporais e loções. Também pode ser consumido na forma de pílulas (puro ou com outros compostos) tanto para fins estéticos quanto para o tratamento de transtornos como a epilepsia, a ansiedade e a insônia.