COM INÚMEROS RECURSOS E ALIADA A TÉCNICAS OCIDENTAIS, A MEDICINA CHINESA É UMA ALTERNATIVA EFICAZ NO TRATAMENTO DAS DOENÇAS PSIQUIÁTRICAS

Por Christian Oliveira

Como alguém que atua em psiquiatria há quase 20 anos, sempre me choca e entristece ver portadores de quadros psiquiátricos serem marginalizados e estigmatizados ou por suas famílias e pares na sociedade, ou mesmo pelos próprios profissionais de saúde que deveriam acolhê-los.

“Aquela criança bate a cabeça e balança compulsivamente porque não tem educação!”; “Aquele rapaz tinha dinheiro, um bom emprego e uma linda família. Não entendo porque se suicidou! Que fraco!”; “Aquela mulher, depois de velha, aprendeu a beber e vive dando vexame nas festas de família! Que vergonha!”.

Essas frases estão mais presentes na vida dos pacientes psiquiátricos do que imaginamos.

ENXERGAR E COMPREENDER

Apesar de a psiquiatria no Brasil e no mundo ter evoluído significativamente quanto à compreensão das diferentes doenças e linhas de tratamento, ainda há uma carência de profissionais especializados em saúde mental que possam dar conta da grande demanda. Sem falar na enorme relutância dos pacientes e/ou de suas famílias em buscar ajuda médica, decerto por causa de uma visão distorcida dessas patologias.

Diferentemente de uma pessoa que tem uma doença perceptível a olho nu (como um deficiente visual), um paciente com um quadro psiquiátrico pode não apresentar sinais físicos de patologia, apesar de ter um funcionamento cerebral, neurológico ou emocional anômalo. Isso talvez intensifique o preconceito que esse tipo de paciente sofre.

Não é de hoje que tendemos a não acreditar em doenças que não vemos. Muitas vezes, os pacientes são tidos como fracos, perdedores e inconvenientes pela parcela da população que se considera “normal”.

Mas quem é normal? Seria quem automatiza e enrijece seus sentimentos e comportamentos mais normal do que quem pede ajuda?

É muito fácil julgar “desvios de comportamento” quando estes são inaceitáveis para determinada sociedade. O que muitas pessoas não sabem é que as causas dos transtornos podem ser explicadas tanto pela psiquiatria moderna (PM) quanto pela medicina tradicional chinesa (MTC).

MENTE E CORPO

A separação entre mente e corpo na MTC é meramente didática, uma vez que a saúde é vista sob uma perspectiva mais integral. Para os praticantes dessa ciência, tanto os males do corpo quanto os da mente têm efeitos importantes sobre a qualidade de vida de uma pessoa. Doenças da mente hoje classificadas pela PM já eram mencionadas nos clássicos da MTC.

O portador de um quadro psiquiátrico apresenta desvios extremos ou significativos de percepções, pensamentos, sensações e, particularmente, de relações com os outros. Esse conjunto de sinais e sintomas em muitos casos aumenta a perda de autonomia e gera impacto na família e na sociedade.

Entre as patologias psiquiátricas estão a depressão, o abuso e a dependência de álcool e outras drogas, o transtorno afetivo bipolar, a esquizofrenia, a deficiência intelectual e os transtornos do desenvolvimento (incluindo o transtorno do déficit de atenção ou hiperatividade e o autismo).

DE ANTIGOS REGISTROS…

O mais antigo compêndio médico chinês, escrito vários séculos antes da nossa era, leva nome de uma figura mitológica de mais de 4 mil anos atrás. Huángdì Nèijīng ou O Clássico do Imperador Amarelo, divide-se em 2 livros de 81 capítulos cada: o Sùwèn (Tratado de Medicina Interna) e o Língshū (Pivô Maravilhoso).

O Sùwèn, escrito em formato de perguntas e respostas entre o Imperador Amarelo e vários médicos, descreve o entendimento da MTC sobre doenças, remédios, diagnósticos e tratamentos, servindo como importante guia clínico para direcionar as condutas dos profissionais da época. O Língshū é um manual prático em que são desenvolvidos os diferentes princípios terapêuticos. A patologia descrita no capítulo 22 desse livro seria traduzida modernamente como síndrome maníaco-depressiva. Talvez seja o relato mais antigo de uma doença psiquiátrica contido em um guia de medicina oriental.

…A NOVAS DIRETRIZES

Muitas crenças também permearam os diagnósticos de pacientes psiquiátricos, não apenas na China. Castigo dos céus ou possessão demoníaca sempre estiveram entre as possíveis causas, originando um sentimento de apatia e pouca disposição para amenizar sintomas tão deletérios. Com o passar do tempo, a evolução da medicina permitiu que o sobrenatural fosse substituído por explicações de ordem biológica, psicológica e social. Atualmente, considera-se que a base do tratamento psiquiátrico não está focada apenas no indivíduo doente, mas em toda a sua família.

Segundo a MTC, cada órgão (coração, pericárdio, pulmão, rim, baço-pâncreas e fígado) e cada víscera (intestino delgado, intestino grosso, estômago, bexiga, vesícula biliar e triplo aquecedor) corresponde respectivamente a uma “função da alma” e a uma emoção. Assim, alterações nos órgãos e nas vísceras afetariam a mente e vice-versa.

Segundo textos tradicionais chineses, a raiva faz o (energia vital) subir, a euforia retarda sua circulação, a tristeza o dissolve pelo corpo, o medo o faz descer, o choque o dispersa e o pensamento obsessivo o prende. Essas seriam as principais razões pelas quais uma pessoa pode desenvolver um quadro psiquiátrico. Para o tratamento, uma importante linha adotada seria reelaborar os sentimentos em desarmonia e, assim, fazer com que a mente se reorganize.

No entanto, é preciso muita cautela ao relacionar sentimentos desregulados a patologias psiquiátricas. A tristeza, a raiva, a angústia e o medo são imprescindíveis na vida de uma pessoa quando não a impactam perpetuamente. Existem outras teorias para explicar a gênese de um transtorno dessa natureza. Duas delas seriam: 1) o mau funcionamento neurológico, ou seja, uma alteração no shén (mente-espírito); e 2) os aspectos genéticos/hereditários, ou seja, um “ anormal” herdado dos ancestrais. A esquizofrenia, por exemplo, é considerada uma desordem do shén, capaz de acometer o livre fluxo do nos órgãos e nas vísceras, desencadeando síndromes energéticas, distúrbios do pensamento e das emoções, mudanças de comportamento e até perda da noção da realidade e do juízo crítico.

Os clássicos de medicina chinesa dividiam as alterações mentais em três categorias: a síndrome Diān englobaria tanto a depressão psicótica quanto os sintomas negativos da esquizofrenia, aqueles que costumam ser interpretados como preguiça ou mau comportamento, e não como parte da doença. A síndrome Kuáng incluiria os estados de agitação, a mania psicótica e a psicose produtiva com delírios e alucinações. Por fim, a síndrome seria a depressão.

A partir da década de 1950, os chineses passaram a utilizar metodologias de pesquisa para verificar a eficácia da MTC no tratamento de quadros psiquiátricos.

De acordo com registros feitos por psiquiatras ocidentais nos anos 1970, Xangai possuía cerca de 10 milhões de habitantes e 2 mil leitos psiquiátricos, que eram ocupados principalmente por pacientes esquizofrênicos. Tanto a MTC (especialmente a eletroacupuntura e a fitoterapia) quanto os psicofármacos ocidentais (substâncias psicoativas que levam a mudanças no humor, na cognição, no comportamento, na psicomotricidade e na personalidade) já eram empregados sistematicamente e com resultados satisfatórios. Na década de 1980, os médicos intensificaram os tratamentos com MTC ao mesmo tempo que reduziram as doses de psicofármacos. Dois grupos de pacientes que se beneficiavam sobremaneira dessas terapias eram os esquizofrênicos e os com depressão severa.

Atualmente, um modelo eficaz de tratamento para pacientes com quadros psiquiátricos une a PM à MTC. A atuação dos psiquiatras é potencializada por uma equipe multidisciplinar que inclui psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, nutricionistas e assistentes sociais. O terapeuta especializado em MTC, vale ressaltar, ainda tem à mão uma grande variedade de recursos aplicáveis a esses pacientes.

A acupuntura e a eletroauriculoacupuntura, por exemplo, auxiliam no aumento do período de abstinência de dependentes químicos, bem como na diminuição da fissura pela droga; a reflexologia podal chinesa propicia melhora no funcionamento mental e social de crianças com autismo, enquanto o uso de técnicas de meditação estimula a cognição em quadros de transtorno do déficit de atenção ou hiperatividade. Há também outras alternativas como moxibustão, fitoterapia, ventosaterapia, guasha (raspagem) e artes marciais.

A fim de melhorar o atendimento a pacientes psiquiátricos, foi aprovada, em 2012, a primeira lei de saúde mental, que proíbe a internação de pacientes sem o seu consentimento (salvo aqueles que ponham em risco a própria vida ou não respondam por seus atos). Também foram criados instrumentos para a gestão dos quadros mentais, visando a ampliar de forma considerável, até 2030, a atenção psiquiátrica em centros clínicos, locais de trabalho e universidades.