A POUCOS QUILÔMETROS DE PEQUIM, CHENGDE É UMA VERDADEIRA – E ENCANTADORA – CÁPSULA DO TEMPO

Por Xun Wei

Poucos lugares na China conseguem reunir tantos atrativos naturais, históricos e culturais como o município de Chengde. Para quem tem pressa e vontade de conhecer algo fora do circuito Cidade Proibida – Grande Muralha, esta cidade situada na província de Hebei, “pertinho” de Pequim (coisa de 230 km) pode ser uma ótima alternativa. O município abriga uma variedade de maravilhas arquitetônicas e um vasto legado histórico-cultural do período Qing (1644–1912). É uma cápsula do tempo rodeada de belíssima paisagem montanhosa.

Graças à posição geográfica especial, Chengde estava entre os destinos favoritos dos mandatários Qing, tanto que a família imperial instalou ali sua residência de verão. Essa “casa de campo”, chamada 避暑山庄 Bìshǔshānzhuāng (literalmente, “mansão de montanha para fugir do calor”), é simplesmente o maior complexo de palácios e jardins imperiais de toda a China. Nos seus arredores, um conjunto de templos conhecido como 外八庙 Wàibāmiào oferece um panorama de elementos arquitetônicos manchus, mongóis e tibetanos. Já quem prefere as paisagens naturais vai gostar do Parque Nacional Saihanba, antiga estância de caça dos imperadores.

MAIS QUE UM PALÁCIO

O nome Bìshǔshānzhuāng pode ser traduzido como “Residência de Montanha”, ou “Quinta Imperial de Veraneio”. Para os chineses, entretanto, é quase um sinônimo da própria Chengde. Aliás, a cidade surgiu em função desse complexo, justamente para acomodar os súditos e dar apoio à vida da corte. O complexo, que começou a ser construído em 1703, demorou 89 anos para ficar pronto. As obras atravessaram o reinado de três imperadores: Kangxi, Yongzheng e Qianlong. Foi de Kangxi a iniciativa de erguer um palácio nas montanhas para fugir das altas temperaturasdo verão pequinense. Além de oferecer um pouso ameno durante os meses mais quentes, a medida também serviria para estreitar os laços com as outras etnias. A Residência de Montanha é um dos três maiores conjuntos de edifícios antigos da China, ao lado da Cidade Proibida em Pequim e do templo de Confúcio em Qufu, Shandong. É também um dos Patrimônios Culturais Mundiais da UNESCO desde 1994.

Paralelamente à função de resort, a Residência de Montanha ainda cumpria um papel estratégico nas áreas política, diplomática e religiosa. Seis dos doze imperadores da dinastia Qing usaram a imponente edificação, dois deles passaram ali seus últimos dias. No período áureo de Chengde, os imperadores permaneciam praticamente metade do ano em sua quinta dos montes, de onde despachavam os assuntos de Estado. O local era nada menos que o segundo centro político do país, após a Cidade Proibida. Por isso mesmo surgiu o ditado: “metade da história dos Qing está na Residência de Montanha”.

Também foi lá que se deu o primeiro contato diplomático entre a China e o Reino Unido. Em 1793, a delegação oficial do governo britânico, chefiada por George Macartney, chegou ao país e visitou a Residência de Montanha para uma audiência com o imperador Qianlong. Naquela época, o Reino Unido estava prestes a se tornar “o Império onde o sol nunca se põe”, enquanto a China vivia a última fase de prosperidade do período monárquico.

Segundo os registros, no dia 14 de setembro de 1793, depois de horas de espera, o enviado Macartney foi recebido pelo imperador Qianlong no Jardim das Dez Mil Árvores. Quando o monarca surgiu, os funcionários chineses ajoelharam-se diante dele, mas os membros da delegação britânica limitaram-se a fazer uma mesura. Depois, Macartney entregou ao imperador chinês uma carta do rei Jorge III e houve uma troca de presentes.

Tudo parecia amistoso, exceto o imbróglio protocolar. Os chineses pediram que os britânicos seguissem a tradição local, ou seja, ficassem de joelhos diante de Qianlong, mas Macartney insistiu em fazer a mesura à maneira europeia, o que, segundo ele, visava a preservar a honra do seu rei. A disputa contribui, de certo modo, para o fracasso nas negociações comerciais com os chineses.

Em 1860, devido à invasão das forças do Reino Unido e da França, o imperador Xianfeng fugiu de Pequim para a Residência de Montanha, onde faleceu em menos de um ano. Depois disso, o resort imperial e as construções ao redor caíram em abandono. Dessa forma, Chengde testemunhou o apogeu e a derrocada da última dinastia chinesa.

Durante a construção do palácio montanhês, o império tentou concentrar ali toda a essência artística do país. São 5,64 km2, oito vezes mais que a Cidade Proibida. O complexo é dividido em quatro áreas: o Setor dos Palácios, o Setor dos Lagos, o Setor das Montanhas e o Setor das Pradarias. Em geral, há mais água ao sul e ao leste da residência, e mais montanhas ao oeste e ao norte, espelhando em “miniatura” a topografia da China.

No Setor dos Palácios, ao sul, ficam os aposentos e os gabinetes de trabalho dos imperadores. O Setor dos Lagos, ao leste, copia a configuração dos jardins clássicos chineses, criando paisagens com lagos, ilhas e pavilhões. Entre as campinas e bosques do Setor das Pradarias, ao norte, está o famoso Jardim das Dez Mil Árvores, palco não só de competições equestres, como também de importantes atividades políticas. Já o Setor das Montanhas, ao noroeste, abrange 80% da área verde total e reúne um sem-número de morros e cachoeiras.

Um dos efeitos buscados na construção da Residência de Montanha foi permitir que os imperadores pudessem encontrar paisagens de todo o país num mesmo lugar. E quem acabou se beneficiando também, séculos depois, fomos nós, os turistas modernos.

OS OITO TEMPLOS

Em pouco mais de 60 anos, a dinastia Qing construiu 12 templos nas cercanias da Residência de Montanha. Os oito mais famosos formam o conjunto conhecido como Waibamiao. A maioria desses templos é dedicada ao budismo tibetano, religião da casa imperial na dinastia Qing, assim como dos mongóis e de várias outras etnias. Entre os mais visitados, os templos Puning e PutuoZongsheng combinam elementos artísticos de três etnias: han, mongol e tibetana e, em sua época, foram erguidos como um símbolo de união nacional.

O primeiro, de 1755, é uma réplica do templo Samye, no Tibete. A parte da frente foi construída em estilo han e a de trás, em estilo tibetano. O destaque é uma estátua de madeira banhada a ouro do Boddhisattva das Mil Mãos, com 27 metros de altura e mais de 100 toneladas.

Já o PutuoZongsheng, o maior de todos da região, é conhecido como “Pequeno Potala”. Construído em 1771 para comemorar o 60º aniversário do imperador Qianlong e o 80º aniversário de sua mãe, reproduz, em menor escala, o mais conhecido palácio de Lhasa, no Tibete, mas imprime a mesma solenidade e imponência. Dentro do seu pátio, duas estelas de pedra com caligrafias do imperador Qianlong em chinês e tradução em outros três idiomas (mongol, manchu e tibetano) contam a história do êxodo dos torghut, um grupo mongol que deixou a Rússia para voltar à terra de seus ancestrais na China à custa de quase 100 mil vidas. O acontecimento épico ocorreu no mesmo ano da inauguração do templo.

CAMPO DE CAÇA

A caça não era apenas uma atividade social para os manchus, ela servia também como uma espécie de exercício militar. E foi para treinar o seu exército que o imperador Kangxi criou o Mulan Weichang, um campo de caça com mais de 10 mil km2, extensas pradarias e uma grande variedade de espécies animais. Na primeira metade da dinastia Qing, as caçadas reuniam regularmente nobres, altos funcionários e militares. Durante os mais de 140 anos entre os reinados de Kangxi e Jiaqing, 105 atividades desse tipo foram realizadas em Mulan Weichang.

O terreno era dividido em 72 seções conforme a topografia e a distribuição das espécies. Os generais e a cavalaria cercavam uma área pré-definida, enquanto soldados posicionados no bosque emitiam sons para atrair os cervos e chamar a atenção de seus predadores. Conforme o cerco se fechava, os animais se concentravam em um campo cada vez menor. Então o imperador dava início à caçada, seguido de seus filhos, netos e outros nobres. No final, a participação era aberta a todos.

Um evento desses podia durar mais de 20 dias. A programação terminava com uma grande festa, que incluía espetáculos de dança e artes marciais e a premiação dos vencedores. Toda essa comitiva ficava hospedada no complexo, projetado também para receber eventos dessa natureza. Uma pintura no Museu da Residência de Montanha dá uma ideia do fausto das caçadas imperiais.

Hoje, parte do antigo campo de caça fica na área do Parque Nacional Saihanba, famoso por suas belas paisagens naturais e sua biodiversidade. O visitante pode levar de dois a três dias para percorrer o parque inteiro.

VOCÊ SABIA?
  • A pronúncia mais standard do mandarim não é a de Pequim, mas a do distrito de Luanping, em Chengde. Luanping é o único lugar no país em que todo o mundo pronuncia a língua oficial da China com a perfeição de um manual didático. Aliás, na década de 1950, linguistas viajaram até lá para gravar a fala dos locais, justamente para usá-la como modelo. Faz sentido, com tantos soberanos, nobres e… mandarins passando tanto tempo, durante tantos séculos, no território de Chengde.
  • Uma expressão que você vai ouvir muitas vezes em Chengde é “Man Han Quanxi” (Banquete Imperial Manchu e Han). É um dos maiores banquetes de que se tem notícia na culinária chinesa: um festival gastronômico com pelo menos 108 pratos originais, metade do estilo sulista e metade do nortista, servido durante a dinastia Qing exclusivamente ao imperador e seus convidados. Em três dias seguidos eram realizados seis festins, destacando as mais sofisticadas técnicas culinárias e os ingredientes mais preciosos de todo o império.
FAÇA AS MALAS

Chengde fica a pouco mais de 200 quilômetros de Pequim. É possível chegar até a cidade de trem, de ônibus ou de carro. A melhor época para visitar é de abril a outubro. Escolha seu meio de transporte:

Trem: não há trem de alta velocidade, a viagem dura de 4 horas e meia a 6 horas.

Ônibus: partidas de hora em hora dos terminais rodoviários de Dongzhimen, Sihui e Liuliqiao, em Pequim. O percurso leva cerca de 4 horas.

Carro: se o trânsito cooperar, serão três horas de viagem pela Rodovia Beijing-Chengde (S11/G45). No caminho, vale uma parada para visitar o Parque Nacional Saihanba