Diferentes regiões da China
UM GUIA PARA OBSERVAR AS PARTES E COMPREENDER O TODO

Por Thiago Minami

Se você nunca esteve na China, ou mesmo se já esteve, ou mesmo se nasceu e morou lá a vida toda, é bem justificável que não tenha uma noção completa da geografia do “gigante adormecido”, tal como apelidou-a Napoleão Bonaparte. Esse país de dimensões continentais compreende cenários tão distintos que é difícil não se surpreender com suas múltiplas faces. Por isso, é um desafio resumir a China em nove regiões com a esperança de torná-la mais compreensível aos olhos estrangeiros. Utilize-a como um guia para iniciantes (ou talvez nem tão iniciantes), com as concessões necessárias para a tentativa de confinar um gigante num texto de poucas páginas.

Cidade Proibída (Terra Amarela)
A TERRA AMARELA

Pequim, Tianjin, Shandong, Hebei, Henan, Shanxi, Shaanxi

Área aproximada: 904 mil km2 (9,4% do território chinês)

População: 385 milhões (27% do total)

Foi aqui que nasceu a China, às margens das águas barrentas do Rio Amarelo, dono de um belo toque de Midas que torna férteis as terras por onde passa. Há muitos séculos, a produção de trigo justifica a alimentação baseada em massas, panquecas, jiaozis e pães. Ao longo da história, a grande maioria das dinastias instalou o seu centro de poder nessa região.

Hoje em dia, a área é altamente industrializada. Recortada por uma rede de transportes complexa, tem de lidar com desafios como o da hiperpopulação e da poluição que as fábricas e as cidades lançam no ar e nos rios. Algumas das transnacionais mais poderosas do país estão aqui. A Lenovo e a Xiaomi, fabricantes de computadores e celulares, têm seus cérebros em Pequim. Já a Haier, conhecida por seus eletroeletrônicos, nasceu em Qingdao, província de Shandong.

A capital chinesa, que se tornou neste século um dos grandes focos de interesse político no mundo, metamorfoseou-se de tal modo ao longo das últimas décadas que nem seus próprios moradores a reconhecem mais. Pequenas vielas deram lugar a largas avenidas rodeadas de arranha-céus e anúncios de marcas de luxo; casebres foram substituídos por apartamentos caros, hotéis e escritórios. A menos de meia hora de trem-bala, localiza-se uma das maiores cidades portuárias do Norte, Tianjin. Aliadas a Hebei, as duas metrópoles formam a megalópole chamada de Jing-Jin-Ji, ou JJJ, que, sozinha, tem mais de 110 milhões de habitantes ‒ mais da metade da população brasileira.

Hong Kong (A Porta dos Mares)
A PORTA DOS MARES

Guangdong, Hainan, Hong Kong, Macau

Área aproximada: 216 mil km2 (2,2% do total)

População: 130 milhões (9% do total)

Distante dos longos invernos do Norte, a faixa litorânea no Sul da China é, há muito tempo, uma das regiões mais abertas aos contatos com outras nações. O clima quente e úmido durante o ano inteiro faz com que eles estejam na rua a todo o momento, cantarolando nos nove tons do cantonês (contra os quatro do mandarim). Sua culinária, suave e elaborada, difundiu-se mundo afora junto com os imigrantes da região.

Historicamente afeita ao comércio internacional, a região tornou-se um laboratório das reformas econômicas promovidas na década de 1980, com a abertura a investimentos e negócios da iniciativa privada. Deu tão certo que a área entre Shenzhen (uma zona econômica especial vizinha a Hong Kong) e Guangzhou passou a ser conhecida como a “fábrica do mundo”, um modelo que foi seguido pelo resto do país.

Atualmente, Guangzhou, a capital da província de Cantão (Guangdong), forma com Hong Kong e Macau a megalópole do Delta do Rio das Pérolas, que integra mais oito cidades de intensa atividade econômica e comercial.

Xangai (Delta do Yangtzé)
O DELTA DO YANGTZÉ

Xangai, Jiangsu, Zhejiang

Área aproximada: 219 mil km2 (2,3% do total)

População: 162 milhões (11% do total)

Vitrine do desenvolvimento urbano chinês, Xangai é autoconfiante e cosmopolita. Fundada no século 19, é uma cidade jovem para os padrões chineses, ainda que o delta do Rio Yangtzé se destaque pela pujança econômica desde tempos ancestrais. A capital do dinheiro também precisa lidar com a população avantajada e, nos últimos anos, vem ampliando gradativamente as restrições a moradores de outras áreas e remodelando bairros antigos em locais caros e modernos.

É comum que os habitantes de Xangai mantenham os olhos voltados ao mundo exterior. Não por acaso, a Disney chinesa fica em Xangai, que sedia, ainda, a filial local do museu parisiense Centre Pompidou.

Vizinhas de Xangai, as províncias de Jiangsu e Zhejiang, um dia chamadas de “terra do peixe e do arroz”, estão entre as mais relevantes do país do ponto de vista industrial. É em Zhejiang que fica Yiwu, a cidade de 1,3 milhão de habitantes onde, tal como dizem, é possível comprar qualquer coisa, de lingeries provocantes a imagens católicas vendidas em Aparecida do Norte, em São Paulo. Já Jiangsu, a segunda província mais rica do país – atrás apenas de Guangdong –, tem seu valor histórico graças à cidade de Nanquim, que já foi capital nacional em diferentes momentos, o último deles no século passado.

(O Refúgio)
O REFÚGIO

Sichuan, Chongqing

Área aproximada: 569 mil km2 (5,9% do total)

População: 114 milhões (8% do total)

Envolto por montanhas, Sichuan é conhecido como o lar dos pandas e a “terra da abundância”. A muralha natural das cadeias montanhosas e a autossuficiência na produção de itens essenciais como chá, arroz, porco, ferro e seda fazem desta região o refúgio perfeito em tempos de ameaças e invasões ‒ na Segunda Guerra Mundial, enquanto o Japão ocupava a costa, a capital nacional foi temporariamente transferida para Chongqing.

A população do Refúgio não costuma se aventurar tanto mundo afora como os habitantes dos deltas do Rio das Pérolas e do Rio Yangtzé. Ainda assim, a economia vai de vento em popa, e Chongqing, um município do tamanho da Áustria, abriga nada menos que 30 milhões de pessoas (a Grande São Paulo tem pouco mais de 20 milhões).

O orgulho regional, porém, é sua culinária. De lá vêm alguns dos pratos mais famosos do país, temperados com a combinação málà, o sabor apimentado e entorpecente que harmoniza de forma perfeita com a umidade do clima local.

(O Interior)
O INTERIOR

Anhui, Jiangxi, Hubei, Hunan

Área aproximada: 704 mil km2 (7,3% do total)

População: 237 milhões (17% do total)

Eis o coração pulsante da economia chinesa, o grande fornecedor de mão de obra e materiais para as regiões costeiras. A posição estratégica no mapa, no centro da nação, justifica a presença da maior usina hidrelétrica do mundo, a das Três Gargantas, na província de Hubei.

Normalmente ofuscada pelas vizinhas mais célebres, a região também apresenta boas surpresas: a província de Hubei tem uma poderosa indústria automobilística, que responde por 10% da produção nacional. E, vale lembrar, foi nesta região que brotaram os movimentos que puseram fim ao regime imperial. Em tempo, a “pimentófila” província de Hunan é a terra natal de Mao Zedong.

(Além do Horizonte)
ALÉM DO HORIZONTE

Yunnan, Guizhou, Guangxi

Área aproximada: 807 mil km2 (8,4% do total)

População: 133 milhões (9% do total)

Ao visitar a montanhosa província de Yunnan, não se surpreenda quando vir anúncios de viagens a Shangri-la. O setor turístico local afirma que o paraíso isolado do Himalaia fica ali, e há quem concorde. As paisagens dessa região são realmente estonteantes, de plantações de arroz nas alturas à travessia de rio entre as montanhas de Guilin. Sem falar no espetáculo humano, proporcionado pelas múltiplas minorias étnicas que se espalham pelas três províncias.

Economicamente, esse pedaço recôndito do país esteve por bastante tempo muito aquém das regiões costeiras. Mas, na última década, as exportações para o Sudeste Asiático, o turismo intenso e o estabelecimento de uma indústria local ‒ de café e tabaco, por exemplo ‒ impulsionaram a reviravolta, e Yunnan chegou a liderar o ranking de crescimento por província. Sua capital, Kunming, deixou de ser uma cidade pacata para se tornar uma metrópole de cerca de 7 milhões de habitantes.

(A Terra das Neves)
A TERRA DAS NEVES

Liaoning, Jilin, Heilongjiang

Área aproximada: 808 mil km2 (8,4% do total)

População: 108 milhões (8% do total)

Conhecido por seus invernos glaciais, o Nordeste chinês faz fronteira com a Rússia e a Coreia. Após a fundação da República Popular em 1949, a região passou a abrigar a indústria pesada, entre outros motivos, devido a sua grande produção de carvão. Mas as reformas econômicas na década de 1990 tornaram obsoleto o modelo econômico local, o que culminou na decadência das fábricas. Desde então, os jovens da região vão procurar oportunidades em centros como Pequim e Xangai.

Como parte dos esforços para revitalizar a velha base industrial, a portuária Dalian, em Liaoning, alterna-se com Tianjin como sede do chamado Davos de Verão, organizado anualmente pelo Fórum Econômico Mundial. Seu potencial volta-se sobretudo aos mercados japonês e coreano, que costumam escolher a cidade para sediar filiais de suas empresas.

Homem e gavião na Mongólia (A Fronteira)
A FRONTEIRA

Mongólia Interior, Ningxia, Gansu, Qinghai, Xinjiang, Tibete

Área aproximada: 5,26 milhões de km2 (54,5% do total)

População: 92 milhões (7% do total)

Assim como ocorre na Amazônia brasileira, a Fronteira é uma região vasta e com baixa densidade demográfica. Planícies ermas, desertos e montanhas cobertas de neve compõem o cenário de melancólica inspiração.

Os pontos de contato com a Ásia Interior conferiram à região grande importância estratégica ao longo de muitos séculos. Por ali passava a famosa Rota da Seda, protegida por uma extensa rede de postos militares. Também tem grandes reservas de petróleo, gás natural, níquel, cobre e carvão, além de produzir leite e derivados, que têm forte presença na alimentação local. Na última década, as vinícolas brotaram em Ningxia e Xinjiang, alçando o país à inesperada posição de um dos maiores produtores mundiais de vinho.

A estratégia para integrar a Fronteira às demais áreas do país é o investimento em transporte ferroviário e o incentivo ao turismo. O colorido mosaico étnico dessa região produziu tesouros como o Palácio de Potala, o Templo de Jokhang e o Jardim Norbulingka, no Tibete, tombados como Patrimônio Mundial pela Unesco. Entre as expressões artísticas, o canto longo dos mongóis e o muqam dos uigures são protegidos como Patrimônios Imateriais.

(O Estreito)
O ESTREITO

Fujian, Taiwan

Área aproximada: 160 mil km2 (1,7% do total)

População: 63 milhões (4% do total)

Encarando-se por cima de um estreito como dois gêmeos separados, Fujian e Taiwan compartilham intensas afinidades culturais e históricas. Fujian sempre se voltou para o mar. Como os gregos antigos, seus habitantes deixaram a terra pedregosa para se aventurar em portos distantes. Estabeleceram, em todo o Sudeste Asiático, uma rede costurada com dialetos e parentesco que prospera até hoje. Os imigrantes de Fujian e de outras províncias em meados do século 17 desenvolveram a agricultura da ilha para produzir arroz, açúcar e chá. Taiwan foi anexada pelos japoneses em 1895 e permaneceu como colônia nipônica até o fim da Segunda Guerra Mundial.

Ainda que pequena em extensão, a ilha tornou-se parte dos chamados “tigres asiáticos” na década de 1990, com investimento intenso nos setores de eletrônicos e informática. Na mesma época, Fujian começou a decolar com os recursos trazidos da outra margem. Hoje, os dois lados do estreito estão profundamente interligados também pela economia e pelos meios de transporte. A pulsante Xiamen, em Fujian, exibe seus dotes como polo artístico e internacional. É um dos pontos turísticos que mais têm chamado atenção na China nos últimos anos.