Os ritmos do mandarim
SERÁ QUE O MANDARIM TEM UMA CADÊNCIA PRÓPRIA?

Por Amilton Reis

Quem já ouviu um poema clássico chinês recitado à maneira tradicional talvez tenha notado certa cadência no correr dos versos. Uma espécie de batida ritmada que, a compasso com as modulações tonais, cria quase uma melodia. Tente apontar sua fonte e ela se esquiva, como uma coceira difusa por baixo da pele do texto. E, no entanto, continua lá, constante como o pêndulo de um relógio antigo.

Por causa das transformações fonéticas que ocorreram com o passar dos séculos, a pronúncia moderna não reproduz com absoluta fidelidade o rigor formal que ressumava nesses poemas na época em que foram escritos. Como convém a uma língua tonal, sua métrica determinava a maneira como os tons eram distribuídos no verso. Certas posições, por exemplo, deviam ser ocupadas por tons “planos”, outras por tons “oblíquos”. Ainda assim, mesmo que hoje os tons já não se entoem nem as rimas rimem como há mil anos, permanece aquela cadência ancestral, e é dela que vamos falar hoje.

DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ

A declamação tradicional imprime aos poemas clássicos em geral um ritmo bem definido. As sílabas fortes e fracas alternam-se de forma regular, uma a uma. Se a primeira sílaba do verso é forte, a seguinte é fraca e assim sucessivamente. Dessa forma, o verso divide-se em pares rítmicos compostos de uma batida forte (X) e uma fraca (x). Se o verso tiver um número ímpar de sílabas, terminará numa sílaba forte: X x | X x | X.

Nossos ouvidos habituados a identificar sílabas fortes como tônicas (isto é, de maior volume ou intensidade) podem ficar tentados a equiparar esse ritmo a algo como: folha fina flor…; casa cimo cor

A realidade, no entanto, não é tão simples. Como o chinês não é uma língua de acento de intensidade, mas tonal, uma sílaba forte não se destaca pelo volume, mas pelo tom. Isso significa que, nas sílabas fortes em mandarim, o tom é pronunciado com maior amplitude: um tom alto será nitidamente alto, um tom descendente cairá de uma altura maior e assim por diante. Um efeito direto disso é que a vogal se alonga o suficiente para acomodar o tom “cheio”. Naturalmente, também existe uma diferença de volume, mas no chinês ela tem importância secundária. Nas sílabas fracas ocorre o contrário: a vogal se abrevia e o tom se atenua, podendo até ser neutralizado. O resultado é uma espécie de pulsação em que as sílabas se expandem e se retraem sucessivamente.

Vamos ilustrar com dois poemas bem conhecidos, um de Li Bai e outro de Wang Wei, com tradução de Ricardo Portugal e Tan Xiao. Na transcrição abaixo, as barras simples (|) delimitam os pares rítmicos. As sílabas fortes são marcadas em bold:

日照 | 香炉 | 生紫 | 烟

遥看 | 瀑布 | 挂前 | 川

飞流 | 直下 | 三千 | 尺

疑是 | 银河 | 落九 | 天

zhào |xiāng lú | shēng zǐ | yān

yáo kàn | bù | guà qián | chuān

fēi liú | zhí xià | sān qiān | chǐ

shì | yín hé | luò jiǔ | tiān

 

Incide o sol ao Pico Incenso névoa púrpura

vê-se a torrente ao longe flui um rio suspenso

Em voo livre ao precipício se desprende

a Via Láctea a desabar da nona cúpula*

 

人闲 | 桂花 | 落

夜静 | 春山 | 空

月出 | 惊山 | 鸟

时鸣 | 春涧 | 中

 

rén xián | guì huā | luò

jìng | chūn shān | kōng

yuè chū | jīng shān | niǎo

shí míng | chūn jiàn | zhōng

 

quietude caem as flores da canela

à noite pousam a montanha cala

súbito aponta a lua – a primavera

desperta em brados pássaros cascata

ADEUS, MONOTONIA

Será que essa mesma cadência se aplica à fala de hoje? De certa forma, sim. Segundo o gramático Yip Po-ching, no mandarim moderno, o ritmo continua sendo basicamente dissilábico. Quer dizer: a unidade básica ainda é o par rítmico formado por uma sílaba forte seguida de uma fraca (X x). Entretanto, como você provavelmente já intuiu, a fala espontânea não conserva o rigor cristalizado na poesia clássica. A alternância regular entre as batidas fortes e fracas é quebrada por sílabas ligeiras (x). Essas sílabas são pronunciadas de maneira muito breve, como se estivessem “coladas” ao início ou ao fim de um par rítmico (X x).

xX x

东西 dōngxi
顾客bèi
力气yòng
来到 láidào
拿出jiù chū

 

X xx

美丽měidebonito
悄悄qiāoqiāodecalmamente
打扮bǎndevestir-se de
完成wánchénglecompletou
经历jīngguoteve a experiência de

 

Neste ponto, é preciso ressaltar uma coisa: estamos nos referindo ao ritmo observado nas frases. As palavras pronunciadas isoladamente soam de outra maneira. Logo explicaremos o porquê. Mas, enfim, o que determina se uma sílaba será forte, fraca ou ligeira dentro de uma frase?

Nas palavras dissílabas, que atualmente são maioria no vocabulário chinês, a resposta é simples: a primeira sílaba é forte, a segunda é fraca, formando um par X x. Isso se aplica indistintamente a substantivos, adjetivos, verbos, advérbios, conjunções ou numerais, contanto que sejam dissílabos.

Substantivos杯子 bēizi “copo”酒杯 jiǔbēi “taça de vinho”
Adjetivos美丽 měilì “belo”残酷 cánkù “cruel”
Verbos喜欢 huan “gostar”可以 yǐ “poder”
Advérbios已经 jīng “já”常常 chángcháng “frequentemente”
Conjunções如果 guǒ “se”虽然 suīrán “embora”
Numerais二十 èrshí “vinte”三百 sānbǎi “trezentos”

 

Nos monossílabos, a intensidade varia. As partículas gramaticais são, em geral, fracas ou ligeiras. Por exemplo:

partícula adjetival的de
partícula adverbial地de
partícula de complemento得de
indicadores de aspecto了le,过guo,在zài
classificadores个ge,杯bēi,本běn

 

Outros monossílabos funcionais – como verbos auxiliares, conjunções, demonstrativos e pronomes, entre outras categorias – tanto podem ser fortes como fracos (ou ligeiros). Isso será determinado pela ênfase que recebem do falante e também por sua posição em relação às sílabas vizinhas. Nos exemplos abaixo, veja como a qualidade do demonstrativo 这 zhè “este” muda de fraca para forte com a introdução de um classificador 件 jiàn (que ocupa a posição fraca). Nessa mudança, a conjunção 但 dàn “mas”, que ocupava a posição forte para formar um dissílabo rítmico com 这 zhè, transforma-se em ligeira:

这 | 0 | 我 | |

dàn zhè |shì 0 | wǒ |méi shénme |guānxi

 

件 | 0 | 我 | |

dàn zhè jian |shì 0 | wǒ |méi shénme |guānxi

 

“Mas isso não tem nada a ver comigo.”

 

Com frequência (mas nem sempre) são ligeiras também as preposições como 在zài “em” e 用yòng “com” (instrumento), e os advérbios como 都dōu “todos”, 也yě “também”, 就jiù “então”.

As palavras e expressões com mais de duas sílabas também têm ritmos próprios. Os compostos de três sílabas seguem o padrão X x | X:

运动场yùndòng chǎng “estádio”

火车站huǒchē zhàn “estação de trem”

Expressões de quatro sílabas, como os chengyu, seguem o padrão X x | X x:

十全十美shíquán shíměi “perfeito”

轻而易举qīng‘ér jǔ “fácil”

Um monossílabo forte pode dispensar uma batida fraca quando é seguido por uma pausa. Nos exemplos abaixo, as pausas são sinalizadas com 0.

天 0 | 已经 | 亮了。

tiān 0 | jīng | liàng le

“O céu já clareou.”

 

久 | 0 | 了。

jiǔ |fēng 0 | tíng le

“Logo o vento parou.”

 

0||0|酒。

0|huan | 0| jiǔ

“Ela não gosta de beber cerveja.”

 

了 | 0 | 上 | 了。

xiàle | bān 0 | shàng | jiù zǒu le.

“Ele foi embora assim que acabou o expediente.”

 

As pausas geralmente são usadas para delimitar grupos de sentido. Podem colocar-se, como se vê nos exemplos acima, entre o sujeito e o verbo (quando o sujeito é monossílabo), entre o verbo e o objeto (quando este tem duas ou mais sílabas) ou entre o tópico e o comentário. A duração de uma pausa na fala espontânea é bastante variável. Muitas vezes é brevíssima, quase imperceptível. Outras vezes ela existe apenas como possibilidade. E não ocorre exclusivamente após monossílabos. Em todo caso, a sílaba antes dela normalmente se alonga um pouco e soa mais forte, é o chamado “alongamento pré-pausa”.

O alongamento pré-pausa também afeta as palavras enunciadas isoladamente. Por isso, quando uma palavra chinesa é pronunciada fora da frase – por exemplo, na lista de vocabulário novo em cada lição –, ela parece ter o acento na última sílaba, exceto se essa sílaba tem tom neutro.

Tudo isso, claro, são regras bastante maleáveis, adaptáveis ao foco que o falante dá a uma ou outra palavra. Em geral, pode-se dizer que o ritmo dissilábico é a cadência de base do mandarim falado. Sua unidade fundamental é formada por uma batida forte seguida de uma fraca: | X x |. Essa unidade rítmica pode ser precedida ou seguida por, no máximo, uma sílaba ligeira | x X x | ou | x X x|. Ocasionalmente, uma pausa (concreta ou abstrata) pode ocupar o lugar da batida fraca |X 0|. No mandarim, a intercorrência dessas sílabas ligeiras e pausas quebra a monotonia do padrão rítmico dissilábico e dá à prosódia chinesa o pulsar das línguas vivas.

NA PRÁTICA

Na prática, como isso pode melhorar sua fluência em chinês? Você não precisa exigir do seu ouvido uma precisão de laboratório. Simplesmente ouça muito. Quanto mais ouvir, mais vai assimilar naturalmente o ritmo da língua e se afastar de uma pronúncia “robótica” ou hesitante.

O importante é perceber que os tons são pronunciados de um jeito quando isolados e de outro quando inseridos na frase. Isolados, assumem a chamada “forma de citação”, que é canônica, modelar. Na sala de aula, essa pronúncia serve para fixar os tons na memória do aluno. Na fala espontânea, os tons relativizam-se, oscilam, ora mais nítidos, ora mais turvos. As vogais acompanham esse movimento, ora mais longas e claras, ora mais breves e opacas. Serão cristalinas as palavras que o falante considerar de maior importância em sua mensagem, e fugazes as palavras secundárias ou meramente funcionais, que não trazem informação nova.

A foneticista Hana Triskova, que pesquisou a aquisição do ritmo em mandarim por estrangeiros, relata que, ao serem ensinados a diferenciar os pares rítmicos, os alunos tendiam a exagerar nas sílabas fortes. Ela então propôs uma abordagem ligeiramente diferente: em vez de falar em sílabas “fortes e fracas”, adotou em sala de aula o conceito de “normais e enfraquecidas”, ou seja, sílabas com amplitude padrão e abaixo do padrão. Segundo a pesquisadora tcheca, essa abordagem teve resultados melhores.

É claro que, num país extenso e populoso como a China, os sotaques variam muito de região para região e afetam diversos aspectos da fala, incluindo o ritmo. O que descrevemos até aqui é observado no mandarim de Pequim. Esse tipo de pronúncia pode ser ouvido, por exemplo, nas gravações de Tang Yunling.

Nos anos 1960, o sinólogo e foneticista Oldrych Svarny gravou 2 mil horas de fala (isso mesmo, 2 mil) de uma contadora de histórias pequinesa chamada Tang Yunling. Diante do microfone, Tang laoshi explicou, paciente e espontaneamente, os sentidos dos verbetes do Moderno vocabulário da língua chinesa em pinyin, improvisando exemplos vívidos que são verdadeiros microcontos, com uma pronúncia cadenciada e autêntica. Um deleite para os ouvidos.

O material foi digitalizado pelo projeto MAID (dicionário em áudio de idioletos em mandarim, na sigla em inglês) da Universidade de Oslo e está disponível on-line. Basta digitar em ideogramas ou em pinyin no campo de busca qualquer verbete do dicionário (ou qualquer palavra chinesa que lhe vier à mente) e logo se abrirão os trechos que incluem esse termo, com todas as gravações disponíveis.

Clique aqui para saber mais sobre o projeto MAID