Os diferentes encaixes nas frases em mandarim
A CHAVE PARA ENTENDER A LÓGICA DA LÍNGUA CHINESA PODE ESTAR NUM DETALHE QUE, PARA MUITOS, PASSA DESPERCEBIDO

Por Amilton Reis

Anacoluto, verdade seja dita, não é uma palavra nem muito bonita, nem muito lembrada. Se vasculharmos a memória, com sorte vamos encontrá-la, meio empoeirada, na prateleira de alguma longínqua aula de gramática, dentro do álbum das figuras de linguagem.

Cometemos um anacoluto, ensinavam os professores do ginásio, quando começamos a frase de um jeito e a terminamos de outro. Como se, logo após as palavras iniciais, decidíssemos não seguir mais aquele caminho. Daí o nome grego anakólouthon, que pode ser traduzido como “sem sequência”. O resultado dessa mudança de rumo brusca é que as palavras iniciais ficam soltas, sem encaixe no restante da frase, e parecem pendentes de conexão lógica. Nos exemplos abaixo, a quebra na frase é marcada com uma barra vertical:

Essa janela | à tarde bate muito sol.

A cama | precisa trocar os lençóis.

Doce | eu gosto de gelatina, gosto de pudim.

O que acontece, na realidade, é que um termo qualquer da conversa é posicionado no início da frase, onde ganha destaque. Só que, nessa manobra, somem as palavras que o ligariam ao restante do enunciado e, assim, o termo perde sua função sintática: ele não pode mais ser categorizado como sujeito, objeto, adjunto etc.

Esse tipo de ruptura frasal ocorre o tempo todo na fala espontânea em português, e também nas linhas dos nossos melhores escritores. O anacoluto era recorrente na literatura clássica (afinal os gregos até inventaram um nome para ele), mas hoje em dia não anda lá muito bem-vindo nas redações escolares.

Entretanto, longe de expor uma incongruência ou um desvio de raciocínio, a “frase quebrada” cumpre a função de realçar o tema da conversa, como se déssemos uma espécie de título ao que vamos dizer em seguida. O termo em destaque, por mais que pareça solto, está associado – pelo sentido – a algum elemento da frase que o segue. Por exemplo em:

A cama | precisa trocar os lençóis.

Mesmo com a ausência dos laços gramaticais, entendemos que os lençóis da cama é que precisam ser trocados. Mas experimente dizer:

*O abajur | precisa trocar os lençóis.

E logo verá que seu interlocutor não captou o que você queria dizer. Usando termos relacionados, a frase volta a fazer sentido na conversação, apesar de fugir dos rigores da gramática:

O abajur | precisa trocar a lâmpada.

UM TERMO TÉCNICO

O anacoluto se encaixa no que os linguistas chamam de estrutura tópico-comentário. Em linhas gerais, o tópico apresenta o tema, o assunto principal do que vai ser dito em seguida, e o comentário traz a informação que de fato se quer transmitir. O tópico é a manchete, o comentário é a notícia:

Meu vizinho, | ouvi dizer que ganhou na loteria.

No mandarim, a construção de tópico é tão frequente que alguns linguistas a consideram a estrutura fundamental da frase chinesa. Como não há conjugação verbal, frases construídas dessa forma podem passar despercebidas à primeira vista, mas elas aparecem com imensa frequência nas conversas do dia a dia, nos sites de notícias, nas páginas da literatura e até nos discursos oficiais. Por isso o chinês é classificado entre as “línguas com proeminência de tópico”, como também o coreano, o japonês, o indonésio e o vietnamita, para citar só alguns idiomas que, apesar de pertencerem a famílias linguísticas diferentes, usam o mesmo recurso.

Com isso, os especialistas não pretendem afirmar que a estrutura de tópico e comentário é a única que pode ocorrer nas frases chinesas. Apesar de essa construção ser comum há mais de dois mil anos, também se constroem frases cuja formação pode ser analisada como sujeito e predicado. Ambas as estruturas coexistem na língua, mas o que chama atenção como uma característica essencial da sintaxe chinesa é a possibilidade de transformar um sujeito-predicado em um tópico-comentário. Por exemplo:

(a) 我没吃过火锅。

Wo            mei chiguo huoguo.

Eu             nunca comi huoguo.

[suj.]        [predicado]

(b) 火锅,我没吃过。

Huoguo             wo mei chiguo

Huoguo             eu nunca comi.

[tópico]    [comentário]

As duas frases têm exatamente as mesmas palavras. No exemplo (a), o falante relata que nunca comeu o prato mais popular da China. No exemplo (b), a palavra huoguo deslocada para a posição de tópico, no início da frase, ganha uma nuance: “(já comi outros pratos, mas) huoguo eu nunca comi”.

Esse duplo padrão sintático confere à frase chinesa flexibilidade e concisão. Flexibilidade porque os termos podem mudar de lugar para ajustar o foco no significado, no mundo concreto. E concisão porque a expressividade é menos dependente de formas gramaticais rígidas e palavras de ligação.

Longe de ter um emprego aleatório, a construção de tópico cumpre uma função específica na comunicação. E certos tipos de frase aceitam-na melhor do que outras. A estrutura tópico-comentário é útil para apresentar, de forma direta e reta, uma descrição, um esclarecimento ou uma opinião. Mas não serve para narrar uma ação ou um evento. Trata-se, portanto, de uma construção mais adequada a frases explicativas e argumentativas.

RECONHECENDO UM TÓPICO

Se você tentar entender uma frase construída com tópico e comentário pensando em sujeito e predicado, pode se perder na aparente falta de nexo. Mas depois que você aprender a reconhecer uma frase dessas no texto ou na conversa, perceberá que é mais simples do que parece.

A primeira pista para reconhecer um tópico é que ele retoma um assunto que já foi mencionado na conversa ou algo que todos os participantes do diálogo supostamente já sabem.

Por exemplo, quando alguém pergunta “ainda tem café?”, o colega pode responder:

不好意思!咖啡,我都喝完了。

Bù hǎoyìsi! Kāfēi | wǒ dōu hē wán le.

Desculpe! O café | eu bebi tudo.

Ao dizer kafei “café”, o colega retoma uma palavra já mencionada na conversa.

Por outro lado, quando alguém chega na bilheteria do teatro e pergunta:

你好!,还有吗?

NǐhǎoPiào | háiyǒu ma?

Olá! Ingresso | ainda tem?

Obviamente piao “ingresso” faz parte do contexto da bilheteria. O falante, portanto, pressupõe que o vendedor sabe a que ele se refere.

Mais uma pista: após o tópico pode haver uma ligeira pausa, que serve para destacá-lo. Na ortografia chinesa, essa pausa é marcada por uma vírgula

这棵树,叶子很大。

Zhei ke shu | yezi hen da.

Esta árvore | a folha é grande.

e pode ser potencializada com uma partícula interrogativa ou de hesitação como 啊 a, 呢 ne, 嘛 ma, 吧 ba etc., que dá ao falante mais alguns segundos para formular seu comentário. A estrutura, neste caso, é quase como uma minipergunta retórica que será respondida logo em seguida:

大熊猫嘛,大家都喜欢。

Dàxióngmāo ma | dàjiā dōu xǐhuan.

Urso panda não é [?…] | todo mundo gosta.

Outra marca de tópico bastante comum na linguagem informal é a expressão 的话 de huà, que normalmente se traduz como “se”, “no caso de”. Quando usada para marcar o tópico, essa expressão pode ser entendida como “quanto a”, “no que se refere a”, “quando o assunto é”:

我肯定能去。他的话,我就不知道了。

Wǒ kěndìng néng qù. Tā de huà | wǒ jiù bù zhīdào le.

Eu com certeza posso ir. Quanto a ele | já não sei.

 

这个问题的话,我不太方便说。

Zhè ge wèntí de huà | wǒ bù tài fāngbiàn shuō.

Quanto a essa pergunta | não tenho como responder.

Exemplos vários

O nexo lógico entre o tópico e o comentário pode estabelecer-se de diversas formas. Vamos ver alguns exemplos gerais, aos quais tentamos dar a tradução mais literal possível:

水果,我最爱吃草莓。

Shuǐguǒ | wǒ zuì ài chī cǎoméi.

Fruta | eu gosto mais de morango.

Neste exemplo, shuiguo “fruta” é uma categoria geral. Uma tradução mais gramatical em português seria: “De todas as frutas, a que eu mais gosto é o morango”.

 

那部电影,我看过了。

Nà bù diànyǐng |wo kàn guo le.

Esse filme | eu já vi.

Na ordem direta seria: “Eu já vi esse filme”. O tópico, neste caso, é o objeto do verbo “ver” deslocado para o início da frase. Para que essa manobra aconteça, o objeto precisa ser definido, o que em chinês significa estar acompanhado de um demonstrativo (这, 那), um possessivo (我的, 你的 etc.), ou nada, já que o chinês não tem artigos definidos (o, a, os, as).

 

那部电影,看过的人都喜欢。

Nà bù diànyǐng | kàn guo de rén dōu xǐhuan.

Aquele filme [de que falamos] | todo mundo que viu gostou.

 

这个问题,你一个人没办法解决。

Zhège wèntí | nǐ yīgèrén méi bànfǎ jiějué.

Esse problema | você não consegue resolver sozinho.

 

这个新项目,公司打算让我来负责。

Zhège xīn xiàngmù | gōngsī dǎsuàn ràng wǒ lái fùzé.

Esse projeto novo | a empresa quer me encarregar [dele].

 

他的事,我不想管那么多。

Tā de shì | wǒ bù xiǎng guǎn nàme duō.

Os assuntos dele | eu não quero me envolver muito.

A tradução (quase) literal dos exemplos acima deixa vislumbrar, em muitos casos, uma semelhança surpreendente com o português coloquial brasileiro. O primeiro exemplo até espelha uma frase registrada no projeto NURC, que coletou falas reais da norma urbana culta no Rio de Janeiro desde os anos 1970:

Doce, eu gosto de gelatina, gosto de pudim…

Se a sintaxe da nossa língua permite, em muitos casos, traduzir de perto a expressividade chinesa, será que o contrário também é verdade? Vamos testar com a frase acima:

甜的,我喜欢吃果冻,喜欢吃布丁……

Tián de, wǒ xihuan chī guodong, xihuan chī bùdīng…

Doce, eu gosto de (comer) gelatina, gosto de (comer) pudim…

Os falantes de português temos, portanto, uma vantagem: nós já usamos essa estrutura em nossa linguagem coloquial. Então, em vez de nos parecer totalmente exótica, ela pode nos lembrar uma conversa casual.

Para ser sincero, devo dizer que esse nem sempre é o caso. Quando o nexo entre o tópico e o comentário é uma relação de posse, ou todo-parte, frequentemente é preciso acrescentar palavras em português, ou reformular a frase:

,鼻子大。

Xiàng | bízi dà.

O elefante | [ele tem] nariz grande.

A tromba do elefante é grande.

 

十个苹果,四个坏了。

Shí ge píngguǒ | sì ge huài le.

[de] dez maçãs | quatro [estão] podres.

Quatro das dez maçãs [que compramos] estão podres.

 

张三,女朋友多。

Zhāng sān | nǚpéngyǒu duō.

O Fulano | [ele tem] muitas namoradas.

O Fulano tem muitas namoradas.

Na frase acima, acrescentamos “ele tem” para manter a estrutura de tópico, mas também é possível traduzir com sujeito e predicado: “O Fulano tem muitas namoradas”.

Nem só substantivos podem ser tópicos. Também é possível usar palavras de outras classes gramaticais como adjetivos, verbos e até frases inteiras, como em:

你借我的钱,还没还吧?

Nǐ jiè wǒ de qián | hái méi huán ba?

O dinheiro que você emprestou de mim | ainda não devolveu né?

 

明天下午要开会,你记得吧?

Míngtiān xiàwǔ yào kāi huì | nǐ jìde ba?

Amanhã de tarde tem reunião | você está lembrado né?

 

老年人少吃盐,对身体有好处。

Lǎoniánrén shǎo chī yán | duì shēntǐ yǒu hǎochù.

Os velhos comerem pouco sal | é bom para a saúde.

 

到国外去度假,可以增进见闻。

Dào guówài qù dùjiǎ | kěyǐ zēngjìn jiànwén.

Passar férias no exterior | pode ampliar o conhecimento

Nesses últimos exemplos, a tradução literal em português pode não funcionar bem. Mas quando você tiver chegado a essa etapa da jornada, a esse nível de chinês, já terá entendido como essa lógica funciona.