Opera de Peking
CONHEÇA ALGUNS PRINCÍPIOS E ELEMENTOS ESPECÍFICOS DA ÓPERA DE PEQUIM PARA PODER APRECIÁ-LA MELHOR

Por André Ribeiro

O palco resume o mundo. No universo da Ópera de Pequim ele é o centro vibrante da alma chinesa. Sua magia está nos atores, que evocam toda uma gama de personagens, humanas e não humanas, para prestar o seu testemunho diante da civilização, ou sentenciá-la perante um passado tão forte como decisivo para as escolhas de toda uma sociedade. Pôr o passado em cena é a forma com que as personagens se anunciam como seus guardiões eternos, lançando um fio invisível que interliga o público sob o olhar de seus ancestrais.

EM BUSCA DA ARTE TOTAL

A magia está no palco. Mas, na Ópera de Pequim, o palco é surpreendentemente vazio. Com alguns acessórios essenciais — um pano de fundo bordado, uma mesa, duas cadeiras —, os atores se tornam o principal foco do espetáculo. Por se tratar de uma arte teatral que envolve um domínio técnico variado, desde cantar e dançar até realizar acrobacias, a ênfase não está na fala, no diálogo (como no teatro ocidental), mas na linguagem corporal cultivada por cada artista. Por essa razão, os atores são treinados desde cedo em algumas habilidades básicas de canto, recitação, dança e combate – que envolve artes marciais com ou sem armas cênicas (facas, espadas, lanças) e acrobacias. Somente ao dominar essas técnicas é que eles podem começar a trabalhar com as personagens.

A performance é alma da Ópera de Pequim. Apesar de a representação dos papéis ser o elemento-chave na evolução das tramas, o artista deve, acima de tudo, ser capaz de traduzir e ampliar no corpo as características marcantes de cada persona que incorpora, num rol variado de estilos e técnicas de expressão. Não se chega a isso sem passar anos desenvolvendo gestos, trejeitos e maneiras de se conduzir em cena para potencializar o efeito visual.

Costuma-se dizer que a Ópera de Pequim tem apenas quatro personagens. Em termos mais precisos, são quatro categorias gerais que abrangem todos os papéis da ópera. À semelhança da divisão do teatro ocidental entre protagonista, antagonista, coadjuvante, figurante, os papéis na Ópera de Pequim estão organizados de acordo com quatro “arquétipos teatrais”: sheng (homens), dan (mulheres), jing (heróis, deuses e seres míticos) e chou (palhaços), cada um com seus tipos e subtipos.

Personagem JING da Opera de Peking

Para quem não está acostumado com a distinção entre papel e personagem, vale notar que papel é a trajetória de uma personagem no enredo, enquanto a personagem em si é o conjunto das características fixas que sustentam a sua identidade e personalidade. Por exemplo, a personagem Sun Wukong, o lendário Rei Macaco, é impetuosa, ousada, imprevisível e com força e habilidades sobrenaturais; pode percorrer grandes distâncias em velocidades altíssimas, paralisar o tempo com magias poderosas e, ainda, transformar-se em vários animais e objetos. São esses os atributos da personagem. Já o seu papel é a forma como ela se desenvolverá na trama – quais ações e decisões irá tomar — e varia de acordo com o enredo.

A confusão é frequente. Nada mais justo que reafirmar a capacidade dos atores de reconstruir as personagens, passo-a-passo, por meio do estudo minucioso de suas características e papéis, para colocá-las em cena de modo criativo.

Para além das características fixas que tecem o colorido subjetivo das personagens, há ainda os elementos visuais da performance, como maquiagem, figurino, gestos, mímica e acessórios de palco (armaduras, lanças, leques, bastões), isso sem contar as diferentes formas de impostação da voz no canto, que podem variar muito segundo a personalidade e o caráter de cada personagem.

Todos esses elementos cativam o olhar da plateia e carregam de significados as performances — ou simplesmente ampliam, pelo efeito visual, os componentes dramáticos em cena. Importante dizer que o trabalho de um ator de ópera é extenuante. Ele pratica, no mínimo, por quatro anos até descobrir seu verdadeiro potencial, que determinará a escolha dos papéis e personagens em uma só categoria.

Para entender as personagens e suas categorias, é costume listar alguns pontos que ajudam os espectadores (sobretudo ocidentais) a se localizar nos enredos. Então, vamos lá.

Camarim de personagem DAN na Opera de PEking
CATEGORIAS E PERSONAGENS

Sheng é a primeira categoria. Nela estão as personagens masculinas fortes e respeitáveis: imperadores, príncipes, estudiosos confucianistas, nobres e membros da elite palaciana, além de chefes de família. É subdividida em três grupos:

  • Laosheng – velhos senhores e dignitários de personalidade gentil e cultivada. Usualmente são representados com longas barbas postiças para caracterizar desde velhos letrados e mandarins até o próprio imperador — em geral, a voz no palco é suave e acolhedora;
  • Wusheng – personagens com habilidades marciais que podem ser desde nobres guerreiros até criminosos, estes mais propensos a se envolver em combates corpo a corpo. Em geral, são retratados portando lanças, espadas, bastões e armaduras.
  • Xiaosheng – jovens eruditos, frequentemente envolvidos em aventuras românticas. Para se distinguir dos demais, sua maquiagem é mais pálida, e não usam barba. As personagens variam entre jovens oficiais (com ou sem habilidades marciais), letrados que vivem na pobreza, adolescentes e crianças. Sua voz no palco oscila entre forte e estridente, ou em suave falsete, e se assemelha, em alguns momentos, à das personagens femininas (dan).

A segunda categoria é dan. Nela se encontram desde donzelas, princesas, damas e guerreiras até velhas rabugentas – cada qual com personalidade própria e as muitas maneiras sutis de expressar os códigos de conduta no universo feminino. Dotadas de inúmeras facetas e formas, expõem-se de diversos modos e conduzem com grande habilidade as principais decisões dos protagonistas masculinos. Muito rica em papéis, essa é uma categoria que exige bastante dos intérpretes no domínio da expressão corporal e no controle das expressões faciais mais sutis para imprimir o máximo de clareza à interpretação de suas intenções na trama.

A terceira categoria, jing, engloba seres humanos e sobre-humanos e, por isso, talvez seja a mais complexa. Os humanos podem ser heróis ou anti-heróis e encarnam rebeldes valentes, ministros ardilosos, juízes honestos ou corruptos e generais poderosos. O ator especializado nesse tipo de personagem é, geralmente, de compleição forte com um registro de voz médio-grave e bem projetado para expressar uma gama de sentimentos próprios aos bravos e corajosos.

O ponto alto na composição dessas personagens é a pintura facial. Variadas e trabalhosas, as formas de pintar o rosto expressam um vasto conjunto de temperamentos interligados. O vermelho, por exemplo, é associado a lealdade, bravura e senso de justiça; o preto indica fidelidade, integridade e violência; o azul sinaliza coragem, determinação e até crueldade; amarelo e branco simbolizam brutalidade e traição, respectivamente; o verde é a cor usada para personagens audaciosas e irascíveis. O violeta representa destemor e sabedoria; o cinza é a cor dos velhacos; ouro e prata brilhante caracterizam os deuses, budas e seres sobrenaturais, enquanto o rosa é a cor da velhice e da dignidade. Com toda essa paleta de cores — e aqui está sua principal função — a plateia é informada e envolvida nas ambições e intenções das personagens jing. Apesar de tudo, o simbolismo das cores não é fixo; podem ser acrescentadas, nos traços e nos padrões da maquiagem, variações que denotam uma combinação muito mais ampla e intrincada de sentimentos. Por todas essas características, a categoria jing é, sem dúvida, a mais suntuosa e exótica.

Personagem CHOU da Opera de Peking

A quarta categoria é chou “os palhaços”. As personagens cômicas costumam ter o rosto pintado apenas no centro, em volta dos olhos e do nariz (como se o nariz de palhaço ocidental projetasse um círculo no centro da face). Em grande parte das tradições teatrais, os palhaços são aqueles que dizem o que não deve ser dito sem sofrer a interdição da sociedade – qualquer semelhança com os bobos do teatro elisabetano não é mera coincidência.

Uma personagem chou é um ser marginalizado na sociedade que, pela via do riso, se liberta a si mesmo e aos outros. É na quebra das convenções sociais que ele retrata com ironia as contradições na natureza humana. Na Ópera de Pequim, os chou podem variar entre funcionários decaídos, transgressores, delinquentes, barqueiros, criados, carcereiros e mulheres briguentas. Costumam se expressar em linguagem coloquial, ou mesmo dialetal, e ainda podem ter habilidades marciais, embora com um toque de humor.

Personagem DAN da Opera de Peking
MÚSICA

A música vem sublinhar as emoções, os gestos e toda a ação no palco. O canto, com suas diferentes técnicas de estilização das paixões, é mesclado às linhas melódicas instrumentais, que evocam uma variedade de sentimentos em duas formas de expressão musical chamadas xipi e er huang. Uma é voltada aos estados de espírito mais agitados, como alegria, raiva e felicidade, e a outra evoca as perdas, tristezas, melancolia e momentos de profunda reflexão.

Essas duas modalidades melódicas complementam a enorme variedade de sentimentos do espetáculo. Os músicos apoiam os atores-cantores delineando as cenas, reforçando o caráter e a ação das figuras em cena. Um bom músico e um bom ator são, por assim dizer, parceiros. Na ópera chinesa, os músicos estão mais próximos dos atores do que em outras tradições, sentados na lateral do palco, de onde se misturam à cena. Assim, eles compõem o retrato final na grande pintura viva em plena transformação. O teatro do povo é o teatro da alma. Ele reflete tudo o que há de humano, desumano e sobre-humano na cultura universal.