OS CHINESES SEMPRE EXALTARAM A BELEZA, ASSOCIADA A VALORES IMPORTANTES DE SUA CULTURA E QUE VÃO MUITO ALÉM DA APARÊNCIA

Por Janaina Rossi Moreira

Se lhe disserem, cara leitora, 沉鱼落雁, 闭月羞花  chényú luòyàn, bìyuè xiūhuā, saiba que acaba de receber o supremo elogio à sua beleza. Seus atributos são capazes de fazer “peixes se afogarem, despencarem gansos do céu, sumir a lua e envergonharem-se as flores”. Meio antiecológico, eu sei, mas a expressão tem sua origem em quatro poderosas figuras femininas do imaginário chinês. Seus mitos revelam a dimensão do papel da mulher na história da China e dão pistas sobre aspectos mais profundos da concepção do belo na sociedade chinesa ao longo dos séculos.

MAIS QUE ROSTINHOS BONITOS

As Quatro Grandes Beldades chinesas foram imortalizadas pela lendária formosura e pelo modo como se valeram dessa qualidade para influenciar de maneira decisiva os rumos de seu país. Cada uma se situa em um período histórico diferente e personifica os ideais estéticos e comportamentais de sua época.

A delicada e sofisticada Xi Shi viveu no período das Primaveras e Outonos (771–séc. 5º a.C.) no antigo reino de Yue, e teve importância estratégica na libertação de sua pátria do jugo do reino de Wu. Enviada como presente a Fuchai, rei de Wu, este perdeu a cabeça pela jovem. Não quis mais saber de assuntos de Estado nem deu ouvidos a quem tentava chamá-lo à razão. Assim, ao investir contra um exército vulnerável, Yue venceu a guerra. Dá para se ter uma ideia do poder de sedução da linda patriota pela parte que lhe cabe na expressão citada no início deste texto: era tão bela que, ao debruçar-se para contemplar os peixes no lago, os pobres animais ficavam mesmerizados e se esqueciam de nadar.

Wang Zhaojun, nascida durante a dinastia Han Ocidental (202 a.C.–8 d.C.) no território da atual província de Hubei, ofereceu-se para contrair matrimônio com o líder dos xiongnu, visando a restabelecer a paz entre estes e os han. Renunciou à boa vida do harém e teria ido, no lombo de um cavalo, da capital imperial para as estepes, lar daquela tribo de nômades. A moda do período era mais espiritual, sóbria, sem afetação. Devia cair muito bem na abnegada Wang, que precisava de poucos artifícios para encantar. Afinal, ao reparar nela, os gansos paravam de bater as asas em pleno voo, esborrachando-se no chão.

Diao Chan é a única que, acredita-se, não existiu de fato. Mas inspirou uma infinidade de obras ficcionais. Só o cinema já lhe dedicou ao menos três filmes. A beleza superior da donzela intimidava até a lua. Situada no período dos Três Reinos (220–280), sua história tem muitas variantes. Mas basicamente apresenta a heroína a salvar seu povo da tirania, associando inteligência a um charme irresistível. A personagem é perfeita para encarnar um ideal estético que privilegiava a personalidade, de modo elegante e natural.

A última, Yang Yuhuan, viveu no período Tang (618–907). Célebre também pelas habilidades artísticas, foi a consorte favorita do imperador por cerca de uma década. Finalmente, perdeu a vida para desbaratar um motim. Sua beleza ofuscava as flores, graças à opulência de sua figura, condizente com a opulência da própria dinastia Tang.

As quatro têm grande presença na arte e na cultura da China. Xi Shi mereceu um poema do grande Li Bai. Wang Zhaojun inspirou centenas de contos, canções e poemas em tempos antigos e modernos e é personagem da ópera. Diao Chan é habituée do folclore e da cultura popular e figura de destaque no Romance dos Três Reinos, um dos quatro grandes clássicos literários da China. Yang Yuhuan influenciou a literatura, a ópera, o teatro, o cinema, a moda e até a popularização da lichia.

BELEZA PLENA

As histórias e lendas associadas às quatro personagens revelam um traço fundamental da concepção chinesa do que é belo: a convergência entre beleza física e virtude. O conceito se manifesta de diversas maneiras ao longo do tempo, entranhado na filosofia. Taoismo e confucianismo influenciaram a construção dos padrões estéticos, que se estendem a comportamentos e buscam espelhar no plano externo as qualidades internas. Tais qualidades variavam conforme a época, alterando, portanto, as percepções da beleza. O assunto é complexo. A definição dos modelos é multifatorial. Nela estão imbricados fatores biológicos, filosóficos, sociais, políticos e econômicos, com grande influência tanto de pressões inconscientes quanto de intenções bem direcionadas.

Para o taoismo, que privilegia a afinidade com a natureza, a aparência vem antes de tudo; é um indicativo, por exemplo, do temperamento e da fertilidade de uma moça. Segundo Eva Kit Wah Man, da Universidade Batista de Hong Kong, essa corrente filosófico-religiosa vê na moralidade confuciana formas de constranger a real natureza da mulher. Para Confúcio e seus discípulos, a seta se inverte: a virtude se manifesta como beleza, que não é bem sinônimo de aparência. Na verdade, há vários tipos de beleza reconhecidos pelo mestre, mas são todos inferiores à chamada “beleza moral”.

LINHA DA EVOLUÇÃO

Norteados por essa estreita relação entre interior e exterior, os padrões de beleza e comportamento feminino, bem como as modas que os valorizavam, foram se acomodando ao espírito de cada época.

Como vimos, Xi Shi é a grande referência no período pré-imperial. Encarnava a beleza perfeita, em milímetros e miligramas, embrulhando um sólido caráter. Já a dinastia Han assiste à consolidação dos ideais confucianos nas esferas de poder na China. Assim, a beleza fica associada a maior simplicidade e à valorização do espírito. Admira-se uma personalidade forte e vivaz, traduzida pela leveza e agilidade de um corpo mais delgado. As roupas procuram reforçar a altura e a magreza. Lembremos Wang Zhaojun, a diva dessa dinastia.

A era que se estende do período dos Três Reinos às dinastias do Sul e do Norte (420–589) foi marcada por intensas batalhas e pela desarticulação. O país foi reunificado na dinastia Sui (581–617), que propiciou a prosperidade da dinastia seguinte, a Tang, apogeu do império chinês. A fartura dos Sui e dos Tang se refletiu na valorização das silhuetas rechonchudas. Nessa época também se deu maior liberdade às mulheres, tanto física quanto de pensamento. Encorajadas a participar de atividades ao ar livre, são retratadas como cheias de saúde e energia.

O revertério viria com a dinastia Song (960–1279), que promoveu o retorno à simplicidade e a valorização da introspecção. Comedimento no vestir era o “último grito da moda” para eles e elas, e o confucianismo estava mais forte e firme que nunca. Das mulheres eram exigidos discrição e recato, e elas voltaram ao recôndito dos lares. Foi nesse período que os infames “pés de lótus” (veja quadro) iniciaram seu longo reinado. A limitação do movimento espelhava as virtudes em voga, entre as quais a submissão: literalmente de pés atados, elas podiam ser mais facilmente controladas. A medida áurea para os pés chegou a ser definida em três míseras polegadas.

Por haver sucedido a época da dominação mongol, a dinastia Ming (1368–1644) buscou restituir e reafirmar a cultura han. Os Ming enrijeceram ainda mais as regras, e o espaço para a manifestação da personalidade feminina ficou tão restrito quanto os sapatinhos das damas mais cobiçadas e distintas. O costume de atar os pés se disseminou ainda mais e adquiriu um caráter altamente erótico. Fragilidade era a medida para avaliar a beleza feminina, que também tinha seu lado ameaçador, por isso devia ficar ainda mais longe dos olhares curiosos, com as mulheres enfurnadas em casa.

E veio o último período da China imperial, a dinastia Qing (1644–1912). O domínio manchu se caracterizou por ser mais moderado quanto a arroubos eróticos, passionais ou românticos. A castidade, a retidão moral, as prendas domésticas e as habilidades artísticas passaram a ser os maiores atrativos. Por pressões de reformistas, a prática dos pés atados chegou a ser abolida ao final da dinastia. Entretanto, continuou a ser praticada clandestinamente.

NOVAS FACES DO BELO

Logo nos primeiros anos após o fim do império, vieram as referências ocidentais e, a reboque, ideais e paradigmas de liberação feminina. Roupas mais ajustadas, cabelos mais curtos e a influência do cinema marcaram esse período festivo de contato com o admirável mundo novo ocidental e com a sociedade de consumo. O qipao ou cheongsam, icônico vestido chinês que conhecemos até hoje, tomou as ruas da China, em todas as cores e tecidos. Até a maquiagem passou a ser usada para ocidentalizar os traços.

Porém, já nos tempos do Movimento de 4 de maio (1919), e com a ascensão de ideais revolucionários, a afetação e o excesso de ornamentos começavam a ser malvistos. Buscava-se uma beleza mais natural. Mulheres das novas gerações torciam o nariz para adornos e maquiagem – queriam roupas quase andróginas e chamar atenção pelo intelecto e pela politização. A tendência atingiu o auge após Mao Zedong chegar ao poder em 1949. Corpos fortes e bronzeados passaram a ser valorizados, personificando a trabalhadora ideal da China comunista. Foi uma rara ocasião em que a alvura da pele, tão cobiçada desde a antiguidade, perdeu prestígio. Era um sinal abjeto, a cor “burguesa”. Concursos de beleza foram proibidos no país. Houve certo apagamento da distinção de gênero e uma consequente masculinização da imagem feminina – como mostram pôsteres da época. É possível que a promoção do novo visual conjuminasse intenções econômicas e políticas. Estimulava e glorificava o engajamento da força de trabalho, e talvez também se explicasse pela escassez de recursos, que não dava espaço a itens supérfluos como roupas e cosméticos. A aparência mais andrógina também borrou traços do patriarcalismo. As mulheres idealizadas do período maoista pareciam não ficar atrás dos homens nem na capacidade de trabalho, nem na firmeza das convicções patrióticas.

A partir da segunda metade dos anos 1970, a preocupação com a vaidade foi ressurgindo. É de 1980 a primeira revista de moda da China. Na década seguinte, o consumo de produtos de beleza deslanchou, e as chinesas não puderam mais conter a sanha de experimentar tudo que estivesse ao seu alcance. Dos anos 1990 para cá, elas foram encontrando seus estilos e entraram neste século totalmente inseridas na sociedade de consumo e no mercado das cirurgias plásticas.

LINDA, MAS LÁ LONGE

Por falar nisso, a maioria das mulheres do país que recorrem a procedimentos estéticos deseja adquirir feições mais ocidentais: nariz mais alto e fino, dupla pálpebra e rosto mais afilado. Mas nem sempre os ideais de beleza coincidem nos dois extremos do globo.

Para notar as diferenças de padrão basta olhar para algumas top models chinesas que fazem sucesso no exterior, como Lü Yan, uma das primeiras supermodelos nascidas na China. Com seus olhinhos pequenos, nariz mais largo e delicado, lábios carnudos e charmosas sardas para coroar, foi descoberta por um caça-talentos – francês… – ainda na adolescência, após ouvir muitos nãos em seu país. Exemplo de body positive à oriental, ela impulsiona a autoestima de milhões de garotas asiáticas que também não se encaixam no padrão vigente, e dá de ombros à perplexidade dos conterrâneos que não compreendem como alguém “tão feia e inexpressiva” pode fazer um sucesso estrondoso entre nós.

Lü é uma típica  西方人眼中的东方美  xīfāngrén yǎnzhōng de dōngfāng měi. A expressão jocosa significa literalmente uma “beleza oriental aos olhos ocidentais”.

E há Hao Lulu, famosa no início dos anos 2000 por mudar radicalmente sua aparência, dos pés à cabeça. Suas fotos de antes e depois mais parecem reencarnação que fruto da ciência. Como a maioria das asiáticas que recorrem à medicina estética, seu objetivo era ganhar feições de uma idealizada mulher ocidental.

Se a China já concilia tão bem a inserção no cenário econômico global com seus ideais e valores tradicionais, vale a pena esperar para ver como as mulheres do país vão resolver essa equação no campo da moda e da beleza.

BLOGUEIRA TANG

Se, por uma mágica qualquer, uma garota da China imperial tivesse um canal de vídeos na internet, como seria seu tutorial de “make básica para o dia a dia”?

  • Fazendo a pele: o pó de arroz era o melhor amigo das mulheres em uma cultura obcecada pela tez branquíssima desde tempos imemoriais. Imprescindível para valorizar o rostinho rechonchudo e delicado que é o sonho de toda mulher tang
  • Batom: com suas unhas coloridas – sim, elas existem há 2 ou 3 mil anos –, nossa viajante do tempo delineia a boca cuidadosamente com um produto orgânico, à base de cera de abelha e pigmentos. Assim, protege e embeleza os lábios. Como trouxe seu nécessaire da era Tang, o produtinho tem óleos perfumados na composição. Ela promete dar dicas de manicure em outro vídeo, explicando quais cores entre as várias opções – que incluem ouro e prata – são as mais indicadas para seu estrato social
  • Design de sobrancelhas”: como veio tentar carreira no futuro distante, nossa influenciadora aproveita para tomar liberdade com as sobrancelhas. Importantíssimas e carregadas de apelo erótico desde a antiguidade, a moda chinesa já ditou que fossem finas, grossas, raspadas e redesenhadas com pigmentos. Hoje ela está com uma versão peluda e mostra como enfeitar os fios com pedrinhas preciosas
  • Selfie: finalmente, ela dá dicas para a foto perfeita, com filtros que clareiam a pele ainda mais e engordam quem não comeu o suficiente para ficar com o corpo perfeito para o verão
OS “PÉS DE LÓTUS”

É comum que a busca pelo corpo ideal cause dor e incômodo em muita gente. Cirurgias plásticas, injeções de toxina botulínica e depilações não são exatamente prazerosas, mas há quem pague o preço para se enquadrar no padrão, que varia conforme a época e a cultura. Na Inglaterra vitoriana, a cintura moldada por espartilhos representava o refinamento feminino, mas provocava alterações posturais e respiratórias.

Não era diferente na China.

Há relatos de que, no período das Cinco Dinastias e dos Dez Reinos (século 10º), o imperador Li Yu criou uma escultura de flor de lótus dourada de 2 metros de altura decorada com pedras preciosas e pérolas. Pediu então à sua concubina Yao Niang que amarrasse os pés com seda branca no formato da lua crescente e dançasse. Segundo variantes, a própria Yao Niang enfaixou os pés com seda para que suportassem o peso de seu corpo. Fato é que a performance teria sido tão hipnotizante que Yao Niang se tornou a concubina predileta do imperador. Para enfrentar a concorrência, as demais concubinas passaram a enfaixar os pés também, fazendo-os parecer menores. Assim, pés pequenos se tornaram sinônimo de beleza e conquista.

A prática se difundiu durante a dinastia Song e, até o início da era Qing, todas as moças que desejavam se casar tinham os pés permanentemente enfaixados desde crianças, para impedir que eles crescessem. O ato de enfaixar geralmente era iniciado antes de o arco do pé se desenvolver totalmente, ou seja, entre 4 e 9 anos de idade. Mães, avós ou parentes mais velhas eram as primeiras a enfaixar os pés das meninas. O processo costumava ter início durante os meses de inverno, quando o frio deixava os pés dormentes, amenizando (um pouco) a dor. Estima-se que, no século 19, 40 a 50% das mulheres chinesas tinham os pés enfaixados, sobretudo as de classe mais alta e da etnia han.Por volta de 1950, o costume foi proibido. Mas em certas áreas remotas e montanhosas do país, mulheres que já tinham os pés deformados mantiveram para si a tradição, apesar da dor e das consequências deletérias permanentes. Em 1999, a última fábrica de calçados femininos minúsculos encerrou as suas atividades.Hoje, só algumas mulheres de idade avançada continuam com os pés enfaixados, orgulhosas por serem as últimas chinesas com os famosos pés de lótus.

(colaborou Christian Oliveira)