Recorte do poster de A PONTE DE BAMBU
AS CONEXÕES INTERCULTURAIS DE UMA FAMÍLIA BRASILEIRA NA CHINA VIRAM TEMA DE DOCUMENTÁRIO

Por Janaína Camara da Silveira

“Aqui, Rádio Pequim”. Assim Jayme e Angelina Martins saudavam, cada um a sua vez, os ouvintes brasileiros ainda na década de 1960 a partir da estação de ondas curtas que viria a se tornar a Rádio Internacional da China. Começavam, então, a ler as notícias diretamente em português desde a distante capital chinesa. Tendo adotado Pequim como residência e o jornalismo como profissão, o jovem casal de falantes nativos do português comandava a tarefa.

Eles só deixariam o país asiático pela primeira vez na década seguinte, quando Raquel, que chegara um bebezinho de 10 meses, e Andrea, que nascera na China, já eram pré-adolescentes. Mais tarde, porém, retornariam ao “país do meio” para mais uma longa temporada. Essa vida singular, que ainda conta com muitos outros capítulos, virou filme, o documentário A ponte de Bambu.

Fotografia antiga de familia brasileira na Cidade Proibída

Não é exagero dizer que a história dos Martins é uma das mais ricas e duradouras de uma família brasileira na China, e é justamente por isso que o diretor Marcelo Machado decidiu retratá-la em seu longa, lançado no Brasil no segundo semestre de 2020. O filme busca mostrar os laços criados ao longo de décadas, com trabalho e amizade, nesse encontro de culturas tão diversas.

As crianças acabaram sendo alfabetizadas em chinês e vivendo uma infância como a dos coleguinhas pequineses. A certa altura, dominavam mais o mandarim que o português, tanto que as conversas mais sérias entre pais e filhas requeriam um intérprete. Os quatro retornaram ao Brasil para que as meninas frequentassem o ensino médio no país de origem da família, mas Raquel e Andrea fariam faculdade em Pequim, durante a segunda estada dos Martins na capital chinesa.

Hoje, nenhum deles mora mais na China. Os pais e Andrea estão no Brasil e Raquel, na Finlândia. Raquel e seu marido finlandês conheceram-se na Universidade de Pequim e até hoje usam o mandarim quando conversam entre si. É só um sinal entre tantos de que os Martins, especialmente as filhas, sentem-se parte da história chinesa e que essa cultura perpassa seu cotidiano.

Andrea, em São Paulo, trabalha para uma multinacional chinesa. Exímia tradutora, é também especialista em interculturalidade sino-brasileira e atua como consultora. Raquel também faz traduções esporadicamente. Ainda na China, foi uma intensa divulgadora da cultura brasileira, especialmente por meio do cinema, liderando um grupo que levou ao país o Festival Brapeq de Cinema Brasileiro, que ocorria em Pequim e em Xangai na primeira metade dos anos 2010. Os pais, aposentados, vivem no interior paulista.

Cena do filmes A Ponte de Bambu
ARTE E CULTURA

Na época em que viviam em Pequim, conta Andrea, eram comuns óperas chinesas em teatros, cinemas e mesmo em espetáculos ao ar livre, que ela compara à cultura do circo no Brasil, com as trupes visitando cidades pequenas e atraindo os moradores locais.

Ela relembra com carinho especial a ópera-balé 白毛女Báimáo , ou Garota dos cabelos brancos, em que a protagonista tinha longas madeixas, claras como as da própria Andrea. A menina deve ter ficado fascinada ao ver, finalmente, alguém com características físicas semelhantes às suas. Os coleguinhas também achavam isso, tanto que vez ou outra alguém se referia a ela como a “garota dos cabelos brancos”.

fotografia antiga de brasileira na china

Baseada em um texto provavelmente dos anos 1930, a obra era um dos oito enredos revolucionários encenados nos anos 1960. Conta a história de superação feminina, em que a miséria é deixada para trás após a adesão ao ideal comunista. Para Andrea, era também uma das primeiras pontes artísticas entre ela e aquele povo que, mesmo com feições diferentes das suas, ela considerava seu também.

Pouco depois, já nos anos 1980, foi a vez de a irmã mais velha, Raquel, ver sua vida na China ligada a obras audiovisuais, mas como artista. A primeira aparição foi a de maior sucesso, no esquete cômico em que interpretava Yulan, a mulher de Dashan (papel do canadense Mark Rowswell), em um programa do canal nacional CCTV. O casal de estrangeiros fluentes em mandarim conquistou uma legião de fãs. Não há quem tenha vivido essa época na China e não se lembre deles.

criança brasileira entre chineses

Raquel diz que até hoje não sabe se o sucesso se deve ao texto ou ao fato de os chineses acharem divertido ver estrangeiros falando mandarim. Como ela reforça, no final dos anos 1980, isso era ainda mais inusitado do que é hoje. Dashan/Mark, que passou a ser identificado com o nome do personagem, acabou fazendo carreira na TV chinesa e atualmente é uma das figuras ocidentais mais conhecidas por lá.

Já Yulan/Raquel pouco a pouco foi deixando de aparecer. Ela conta que, na época, estava na faculdade, e as turnês pelo país atrapalhavam o desempenho em aula. Resolveu então se dedicar ao curso e abandonou de vez a personagem. Mas em 1989 estaria outra vez nas telas, em um filme lançado por ocasião das celebrações dos 40 anos de fundação da República Popular da China e que contava a história da partida de Chiang Kai-shek, o líder nacionalista destituído com a chegada dos comunistas ao poder. Raquel interpretou Faina Ipat’evna Vakhreva, a nora do ex-líder.

Naquele tempo, diz Raquel, era comum ver os poucos estrangeiros que moravam em Pequim ser escalados para pontas ou figuração quando era necessário um ou mais rostos ocidentais.

casal brasileiro entre colegas na Grande Muralha
CONTANDO A PRÓPRIA HISTÓRIA

A ponte de Bambu traz às telas a memória da família, cuja vivência em Pequim foi intensa. O diretor, amigo pessoal dos Martins, tem ele próprio uma ligação com a China, pois sua mulher é chinesa. Para ele, rodar um projeto tendo a China como pano de fundo é também uma forma de mostrar às filhas um pouco do país de origem de sua mãe.

Com muita pesquisa em álbuns da família e até em vídeos de arquivo, o documentário é também enriquecido por entrevistas com Jayme, Angelina, Raquel e Andrea. Talvez pelo fato de diretor e personagens serem amigos, transparece, na narrativa, um clima de intimidade. Quem assiste a A ponte de Bambu tem a impressão de estar na sala da casa dos Martins, no meio de uma conversa sobre esse passado.

O filme traz momentos de confraternização entre a família e os colegas chineses, bem como depoimentos destes. Também mostra cenas do cotidiano dos Martins entre amigos e colegas estrangeiros – em dias ensolarados na piscina ou em visitas a pontos turísticos da capital chinesa. É um deleite para quem quer desvendar parte da história chinesa pelo olhar de brasileiros. No caso das meninas, esse olhar é também o de crianças educadas e alfabetizadas naquele ambiente. Pontes de bambu e de afeto.

Poster do filme A Ponte de Bambu
ONDE ASSISTIR

O documentário A ponte de bambu está disponível por streaming nas plataformas Net Now, Oi Play e Vivo Play