MTC pontos do pulso
VALENDO-SE DA OBSERVAÇÃO ATENTA DOS MAIS VARIADOS ASPECTOS DO PACIENTE, A MEDICINA CHINESA PROCURA DETECTAR AS CAUSAS ENERGÉTICAS POR TRÁS DE CADA SINTOMA

Por Christian Oliveira

Quando buscamos um serviço de saúde no Ocidente, o médico sempre pergunta o que sentimos para diagnosticar o problema. Em casos mais graves ou que suscitem dúvidas, além de um exame físico, ele pode solicitar algum exame laboratorial ou de imagem. Na medicina tradicional chinesa (MTC), esse processo é um pouco diferente – e mais minucioso no que diz respeito à abordagem clínica.

PERCEBENDO O PACIENTE

A arte de ouvir é mais apreciada do que a arte de falar. Ouvir o relato do paciente sobre seus sintomas físicos e psíquicos, no entanto, é apenas uma parte do processo de avaliação diagnóstica. Também será necessária a coleta de informações sobre sono, alimentação, hábitos deletérios, atividade sexual, rotina de trabalho e atividade física, entre outras. A avaliação do profissional deve incluir, ainda, a capacidade de decifrar as mensagens que o corpo do paciente transmite ou esconde. Ou seja, o especialista em MTC tem de “sentir” seu paciente.

É preciso ouvir a qualidade e a intensidade da voz, além dos próprios ruídos que o corpo da pessoa produz, olhar o aspecto facial, corporal, da pele, das unhas, dos lábios e características da língua e da íris, apalpar o pulso, meridianos e pontos da acupuntura, zonas dolorosas etc. e inclusive cheirar, pois o odor do hálito, do suor e – quando possível – das demais secreções dão pistas valiosas sobre a causa do problema.

Algumas dessas avaliações parecem bem estranhas na cultura ocidental. Perguntar sobre as fezes, sobre a atividade sexual, verificar o hálito ou pedir para que o paciente mostre sua língua pode gerar constrangimento, mas é de suma importância. Nenhuma questão isolada relatada pelo paciente ou percebida pelo terapeuta levará ao diagnóstico, que só deve ser construído após a reunião do maior número possível de informações.

Apenas como ilustração, seguem alguns exemplos de achados clínicos e suas possíveis causas:

•Fezes amolecidas podem indicar deficiência de yang no baço e nos rins;
•Dificuldade e queimação ao urinar, urina de cor escura são indícios de umidade e calor na bexiga;
•Voz fraca é uma pista de qi insuficiente nos pulmões;
•Queda de cabelo pode ser causada por alteração energética nos rins ou deficiência de xue (sangue);
•Mau hálito pode ser uma manifestação de alteração energética no fígado.

ENXERGANDO SEM VER

Apesar de tantos recursos, a verificação do pulso e a avaliação da língua continuam sendo duas das mais importantes formas de diagnóstico em MTC. São métodos desenvolvidos pelos antigos médicos chineses para entender o interior do corpo, mesmo sem os aparatos tecnológicos como os aparelhos de raio-x e de ressonância magnética.

Pulsologia na Medicina Tradicional Chinesa

O pulso reflete a circulação sanguínea e pode ser aferido pela apalpação em diferentes pontos do corpo. Além da medição do número de batimentos cardíacos por minuto, a MTC se vale de uma interpretação mais detalhada e sutil, que infere a qualidade e a quantidade de qi e xue circulantes em cada órgão, bem como suas interações yin e yang. O melhor horário para se verificar o pulso é pela manhã. O paciente deve estar tranquilo e não ter realizado nenhuma atividade vigorosa. Seu braço deve estar relaxado, com a mão apoiada em uma pequena almofada e a palma virada para cima. A mão deve estar abaixo da altura do coração, mais ou menos na linha do umbigo enquanto a pessoa está sentada.

O terapeuta deve pressionar a artéria radial uniformemente com os dedos indicador, médio e anelar em três posições, chamadas cun, guan e chi, a fim de progressivamente perceber o pulso do paciente em cinco níveis (ou profundidades). Esses níveis correspondem a pele, vasos, músculos, tendões e ossos. Quanto mais profundo, maior deve ser a pressão do avaliador. Em geral, podemos verificar o pulso com apenas duas forças: a leve e a forte.

Diferentemente da medicina ocidental, que verifica o pulso em apenas uma artéria, na medicina chinesa é imprescindível que se verifique em ambas as mãos e nas duas profundidades. Isso porque, para cada mão e profundidade, haverá a leitura do funcionamento de um órgão ou de uma víscera:

Na mão direita: com a pressão leve, pode-se avaliar o intestino grosso na posição cun, o estômago na posição guan e, na chi, o triplo aquecedor (composto por diafragma, umbigo e região abaixo do umbigo); já com a pressão forte, verificam-se pulmões (cun), baço (guan) e pericárdio (chi).

Na mão esquerda: empregando a pressão leve, avaliam-se intestino delgado, vesícula biliar e bexiga, nas posições cun, guan e chi, respectivamente; com pressão forte, coração, fígado e rins.

Apesar de ser uma avaliação suscetível a diferentes interpretações (já que a percepção de como está cada pulso pode variar de terapeuta para terapeuta segundo sua força, nível de treinamento e sensibilidade), é importante que algumas características sejam observadas. As mais importantes são o comprimento, a profundidade e a qualidade do pulso.

O comprimento do pulso pode ser considerado dentro de uma gama que vai do mais curto ao mais longo e fornece dados sobre a força e o equilíbrio do fluxo de sangue e energia do paciente. Já a profundidade do pulso será determinada conforme o nível de pressão que o terapeuta precisa aplicar. Se for pouca, o pulso será superficial. Se for necessária uma pressão maior para ser percebido, o pulso será profundo. A profundidade do pulso reflete o nível de qi no corpo e indica o tipo de condição patológica que pode estar presente. Por exemplo: um pulso sentido no nível mais superficial pode ser sinal de uma doença externa, como um resfriado, enquanto um pulso profundo pode refletir uma doença interna, como uma hepatite.

Já para se determinar a qualidade do pulso, o terapeuta deve imaginar diferentes “texturas”. Há pelo menos 28 qualidades distintas de texturas no pulso. Dois exemplos comuns são o pulso movente (ou irregular) e o pulso escorregadio. O primeiro se caracteriza por não ter uma forma definida e pode ser indicativo de choque emocional, medo, ansiedade ou dor extrema. No caso do segundo, o terapeuta percebe a passagem de sangue com pequenas ondulações, ou “miçangas”, correndo por baixo dos dedos. Isso pode indicar umidade excessiva no corpo ou retenção de alimentos.

Para melhor compreensão do que se passa com seu paciente, o terapeuta tem de relacionar todas as características do pulso. Uma característica pode não dizer, por si só, absolutamente nada. Sendo assim, a avaliação do pulso é difícil e requer muito tempo de prática. Portanto, um terapeuta experiente terá muito mais informações sobre o quadro clínico de seu paciente e será mais capaz de definir a melhor forma de tratá-lo.

O exame da língua também é de suma importância para a obtenção do diagnóstico energético. Segundo a MTC a língua é considerada o prolongamento do coração, e o estado do qi e do xue estão nela refletidos. Uma língua normal indica que está recebendo suprimento suficiente de sangue do coração. O estômago é o órgão que mais influencia a língua, mas alterações no pulmão também podem se refletir no aspecto lingual. Por exemplo, se a coloração for pálida, há forte indício de que os fluidos pulmonares não estejam chegando a ela de maneira adequada.

Mapa da Língua na Medicina Tradicional Chinesa

A língua é considerada um microssistema e, por isso, é possível verificar através dela a condição dos órgãos internos, conforme a figura ilustra. Antes da avaliação da língua, é melhor que o paciente evite bebidas muito quentes, alimentos que modifiquem sua coloração e que não a escove.

A avaliação deve ser realizada pela visualização de seu corpo, coloração, revestimento, umidade e mobilidade, além do gosto predominante que o paciente pode referir quando se alimenta. A língua deve ser exteriorizada de uma maneira ampla, com as bordas relaxadas, de forma a apresentar uma superfície convexa.

Ao examinar o corpo da língua, devemos nos ater à forma e ao tamanho, que denotam o estado do xue e do qi nutritivo. Uma língua inchada, grande, com recuos na borda, pode indicar que os líquidos não circulam com facilidade pelo corpo.

A coloração normal da língua deve ser avermelhada, refletindo, além das condições do xue e do qi nutritivo, os sistemas yin. Se houver mudança significativa, há forte indício de presença de algum quadro de desarmonia energética. A língua, em estágio patológico, pode apresentar inúmeras colorações, como vermelho intenso e arroxeado, ou palidez. Uma língua muito vermelha indica que o corpo tem calor excessivo. O paciente tende a transpirar em demasia, fica com a face ruborizada facilmente, demora mais para adormecer, pode apresentar quadro de constipação, fezes escuras e sintomas de ansiedade. Já uma língua pálida indica ineficiência digestiva, deficiência de qi e xue. O paciente pode apresentar falta de energia, rosto pálido, tontura (especialmente quando estiver em pé), falta de ar, movimentos intestinais lentos e inchaço após comer. Uma língua roxa indica que o fígado e o coração funcionam de forma deficitária. São comuns dores no peito, de cabeça e rigidez nas articulações (principalmente no pescoço e no ombro).

Durante a avaliação dos movimentos, pede-se que o paciente coloque a língua para fora e a mantenha estática sem apoiar nos dentes inferiores. Discretos tremores são normais, porém, se ela estiver desviada para um dos lados, pode haver presença de vento interno acometendo principalmente o fígado. Se ela estiver trêmula em demasia pode haver vento interno ou deficiência geral de qi. O revestimento da língua (ou saburra) indica o estado dos sistemas yang. O revestimento saudável deve ser branco e fino, indicando um bom funcionamento dos sistemas digestório, respiratório e circulatório. A falta de revestimento pode significar calor intenso ou secura interna. Além disso, é necessária a presença de umidade na língua, refletindo o estado dos fluidos corpóreos.

Por sua vez, o gosto que um paciente pode estar sentindo predominantemente ao se alimentar fornece informações sobre os órgãos que estão funcionando demais ou de menos. Segundo o Ling Shu “o qi do coração passa pela língua. Quando o coração está em harmonia, podem-se conhecer os cinco gostos”. Parece óbvio, mas devemos sentir todos esses cinco sabores ao nos alimentar. Na MTC, acredita-se que cada sabor terá uma ação direta em determinada parte do corpo. Alimentos doces ou adocicados agirão no baço, salgados, nos rins, apimentados, nos pulmões, amargos, no coração e os ácidos, no fígado. Se, para diferentes alimentos, os sabores percebidos pelo paciente forem os mesmos ou muito parecidos, há um grande indício de algo errado e de que não se trata apenas da propriocepção inadequada desse órgão do sentido. Por exemplo, se o paciente relata em demasia o sabor doce, pode haver comprometimento do baço.

É muito interessante observar que, ao longo das sessões, as características patológicas encontradas na língua vão se modificando, e o próprio paciente muitas vezes passa a perceber a melhora visual desse órgão, simultaneamente à melhora dos sintomas. O diagnóstico da língua é um exemplo de como o corpo humano está interconectado, mostrando que mesmo uma pequena parte dele pode dar pistas importantes que refletem toda a sua condição.

Assim, consulte um terapeuta em MTC para entender o que seu pulso e sua língua podem dizer sobre você e sobre a sua saúde.