MÚSICA E BUDISMO, O CAMINHO SONORO DA ILUMINAÇÃO

Por André Ribeiro

Todos os dias, às 5 horas da manhã, no coração do bairro paulistano da Vila Mariana, vê-se um vulto percorrer as laterais de um edifício oriental. Vestindo um robe marrom com um manto cor de açafrão sobre o ombro direito, ele sobe dois lances de uma escadaria espiralada e chega a um amplo terraço, às portas de um grande salão. Lá faz acordar o dia com seis badaladas em uma pesada placa de madeira, apontando-a em todas as direções.

Após repetir três vezes esse ritual, ele entra pelas portas do templo e dá início à cerimônia: batidas de sinos e tambores em pulso lento, solene, acompanhadas de um canto leve, feminino, suave, que se projeta sobre as casas. É o início da cerimônia budista que abre todas as manhãs e desperta a vizinhança à volta do templo Tzong Kwan.

A LUZ DO SOM

Os ritos sonoros representam a parte intangível na história da humanidade. No budismo, são chamados de Sons do Darma. Eles servem para organizar e traduzir os múltiplos sentidos do pertencimento a uma comunidade tendo em vista um objetivo comum: a iluminação espiritual. Ser parte desse grupo significa aderir ao conjunto de práticas e rituais que a sustentam, dentre estes a música – ou, mais especificamente, o canto devocional.

Ele envolve, de um lado, a vocalização de textos sagrados e, de outro, o uso de ambiências sonoras providas por instrumentos de percussão, como sinos, gongos e tambores. É dessa combinação que os ritos e cerimônias budistas cumprem a função de conectar as pessoas à prática espiritual. Monges da antiguidade conheciam perfeitamente o poder de harmonização que a música vocal oferece à prática religiosa. Assim como a música conduz os praticantes por sucessivos estados emocionais, ela também organiza o espaço de modo harmônico. Não é à toa que as tradições budistas fazem uso conjugado de música e caminhadas pelo salão, entoando mantras e orações – o que ainda hoje testemunhamos nos templos de tradição chinesa.

Cada corpo que se movimenta e canta no salão é uma fonte de energia vocal e, do conjunto, resulta uma enorme potência sonora. Somam-se os toques esparsos e percutidos dos sinos e tambores, e o espaço musical ganha uma aura mágica extraordinária. E, por isso mesmo, de grande envolvimento psicológico.

Boa parte dos ritos e cerimônias budistas envolve a criação da atmosfera sonora a partir dos instrumentos de percussão – às vezes, incluindo sopros (flautas e oboés), como no caso das tradições tibetanas, o que ressoa no espaço arquitetônico e cria um ambiente sonoro envolvente. Um exemplo célebre vem do Templo da Sabedoria Alcançada – 智化寺 Zhìhuà Sì –, em Pequim. Há décadas, pesquisadores europeus e norte-americanos vêm estudando a mística em torno da música feita nesse templo ancestral.

Dessa ambiência construída surge uma imagem sonora rica e precisa na coordenação ativa das vozes, flutuando entre incensos, pelo que cada indivíduo se conecta ao todo. Pelo menos essa concepção é bem marcada nas caminhadas meditativas, no uso das vestimentas, no gestual mínimo produzido para obter o efeito ritualístico máximo.

QUANDO O SOM É SAGRADO

Os textos ligados à doutrina budista distinguem a música mundana da espiritual, conferindo a esta um status sonoro único. A música mundana entretém, é um tanto passiva; enquanto a música espiritual cria uma realidade ativa e propícia à prática religiosa, por isso é referida como os Sons do Darma. De um lado, o aspecto devocional expresso em melodias sinuosas como a fumaça dos incensos; de outro, a rítmica precisa e coordenada das vocalizações de mantras e sutras que, no geral, são recitações que fazem uso particular da voz em um misto de fala e canto.

Fruto de uma época em que o homem deveria buscar harmonia com o cosmo por meio da prática religiosa, a música budista também é vista como pertencente à categoria das manifestações celestiais. No budismo “Terra Pura” de tradição chinesa, por exemplo, o paraíso é descrito como um lugar profundamente musical, onde o darma – a doutrina budista – assume a forma de melodias maravilhosas.

OUVINDO O MISTÉRIO

Em termos da realidade vivenciada pelos seres humanos, a música é vista como um fenômeno mental. Por ser intangível, ela existe tão somente em nossa percepção interna – em nosso campo sensorial, por assim dizer. Por isso, alguns mestres dizem que nossa percepção, atrelada aos sentidos, produz nossa realidade a cada instante.

Afinal, no budismo, tudo começa e termina na mente. Todas as coisas e fenômenos são impermanentes, e sua durabilidade é apenas aparente. Assim, dependem de causas e condições que, em última instância, são sempre transitórias. Logo, as impressões incompletas e fugazes são a única base de nossa experiência perceptiva e, portanto, são ilusórias.

Neste contexto, pelas lentes do budismo, a música é um fenômeno intangível e transitório – não existe por si só, mas depende inteiramente de nossa percepção. A maneira como a apreciamos e nos portamos diante dela vem de nossa projeção mental a respeito da realidade à nossa volta.

Nem por isso a música deixa de ter grande efeito sobre o nosso organismo. Na verdade, ela é uma potência genuinamente humana de buscar, por meio dos fenômenos, um contato permanente com a realidade, aproximar pessoas e beneficiar a coletividade com um senso de pertencimento forte e duradouro.

A MENTE MUSICAL

A música budista aspira a servir de ponte entre duas realidades, ou verdades: a realidade “convencional” do homem comum, não iluminado, e a realidade “última”, alcançada somente pelos budas. Assim, só quem desperta da ignorância – e o sentido literal da palavra buddha é, justamente, “desperto” – seria capaz de ouvir as melodias maravilhosas do darma e com elas se maravilhar.

Seguindo a leitura das mitologias budistas, fica claro que a mente presa às condições mundanas de existência não conseguiria perceber, e nem mesmo conceber, os sons do darma expresso nos sutras. Com isso, fica claro também que a música é uma interpretação sofisticada de nossos sentidos. Apreciá-la é uma habilidade conquistada pelo exercício subjetivo da escuta e da prática do canto.

Vai daí também o sentido de pertencimento que ela suscita, pois, em último caso, é pelo exercício, recitando sutras e mantras, que o praticante busca auxiliar o seu próprio processo de iluminação e, nele, encontrar o sentido de sua existência. É nesse processo que a música budista se torna uma ferramenta de prática, ao mesmo tempo que traz aos praticantes a convicção íntima de que eles não são os primeiros a cantar, recitar, ouvir o toque dos sinos, tambores e gongos. Muitos outros antes deles desempenharam os mesmos ritos e se envolveram de modo semelhante com as cerimônias.

A beleza dessa visão, que convida a contemplar uma linhagem ancestral, está no momento em que todos se conectam musical e sonoramente uns com os outros. Assim, estão um pouco mais perto da celebração de uma vida conjunta que pulsa, existe e canta a si própria buscando algo melhor. Afinal, os sons do darma estão por aí, despertando, celebrando e encerrando todos os dias.

 

Ao cair da tarde, um véu arroxeado se estende no horizonte e, mais uma vez, vemos o monge do manto cor de açafrão subir a escada de caracol para encerrar o dia – desta vez, percutindo o sino invertido, junto ao altar, com uma pesada clava de madeira revestida com um couro estofado rígido. Percute uma vez, e mais duas, o tambor. Mais uma vez, e mais três vezes. É quando tem início o canto leve e meditativo que anuncia a cor anoitecida que cai sobre as casas da Vila Mariana. Entramos na noite com halo sonoro de recolhimento até o nascer do sol de todas as manhãs do mundo.

OS INSTRUMENTOS DO TEMPLO 

Entramos por uma das três pesadas portas, a da esquerda, e nos vemos diante de um piso de madeira reluzente e, distribuídas pelo assoalho, almofadas e pequenas estantes para apoiar os escritos sagrados. Olhando para cima, encontramos um grande tambor vermelho suspenso no teto, também vermelho, onde as vigas formam uma enorme treliça de 480 quadrados, cada um com o símbolo da Roda do Darma em alto-relevo.

Se entramos pela porta da direita, vemos a mesma cena. Ou quase. No lugar do tambor, há um pesado sino de metal suspenso – o Sino da Essência, que leva esse nome por causa das inscrições em ferro fundido do Sutra ou Discurso da Essência, também chamado Sutra do Coração.

Ambos os instrumentos musicais são tocados só duas vezes ao ano: na Cerimônia de Nascimento, Nirvana e Morte de Buda (o Vesak) e na Cerimônia dos Antepassados – 108 badaladas estremecem o salão nessas ocasiões.

A grande porta central (uma porta dupla) é reservada apenas aos monges e alguns discípulos treinados nas cerimônias. Quando abertas, aos domingos, temos uma vista ampla do salão com o altar ao fundo, e um sino grande à direita, depositado sobre uma mesa alta, dá a impressão de estar de cabeça para baixo (um sino invertido); à esquerda, avistamos um instrumento de percussão esculpido em madeira na forma de um peixe gordo e arredondado, que muito se assemelha a um tamborzão oco. Quando tocado produz um som grave e calmante – serve para marcar o ritmo dos cânticos; já o sino invertido é tocado para delimitar as sessões dos textos e dizer quando começa e acaba a recitação.

Há também os pequenos instrumentos de percussão de mão: como o sininho que um dos monges segura junto ao peito e toca nos momentos de prostração diante do altar. Ou o modelo menor do peixe de madeira, que serve para marcar os passos das caminhadas meditativas no salão. Todos esses instrumentos são ricos em simbologia, e sua posição no salão corresponde aos antigos princípios do feng shui.

Porém, os instrumentos do darma não se restringem ao Salão do Buda. No refeitório, no subsolo, há um gongo consideravelmente grande, pendendo do teto bem rente à porta de entrada, muito parecido com um penduricalho em forma de âncora, e que é tocado cinco minutos antes das refeições. Serve para convidar os praticantes a se sentar à mesa e, também, a observar o silêncio para os agradecimentos aos cozinheiros do dia.